Uma fotocópia com um autor e um título deveras curiosos… Logo, havia eu
de procurae entrevistar o oráculo sobre ele.
A conversa como
foi:
Olá oráculo, bons dias!
O Valter Hugo chama-se mesmo Mãe?Não, o escritor que vê na capa dos Imbecis não se chama realmente Mãe. O seu nome de baptismo é Valter Hugo Lemos. O apelido «Mãe» é, pròpriamente, um nome artístico adoptado pelo autor. Valter Hugo Lemos escolheu esta palavra para assinar as suas obras por considerar que a figura da mãe é o ser humano mais capaz de demonstrar um amor incondicional.
É bonito!… — «Com três letrinhas apenas // Se escreve a palavra «mãe» // De todas a mais pequena // A maior que o mundo tem.», já…
… já dizia a velha cantiga popular! É um dos versos mais célebres da nossa tradição oral, e ajusta-se perfeitamente ao preito que o autor quis prestar.
Sòmente uma palavra tão breve poderia conter um significado tão infinito.O Lemos com ela renegou o pai…
É uma interpretação natural, mas, curiosamente, o autor explica-o de outra forma.
Valter Hugo Lemos não adoptou o pseudónimo por ressentimento ou para renegar a figura paterna. Segundo o próprio, a escolha prende-se com uma profunda admiração pela dignidade e pela capacidade de superação que associa às mulheres e, realmente, à maternidade.
Em entrevistas, o escritor tem focado que a figura da mãe representa para si a expressão mais pura do humanismo e da resiliência [*], decidindo, por isso, usá-la como uma espécie de manifesto literário e pessoal.Profundo. Nada imbecil… — Imbecis, só os outros. Daí um livro…
Exactamente. O título do livro que vemos no escaparate — O Século dos Imbecis — funciona, de resto, como um forte contraste com essa busca pela sensibilidade e pelo humanismo profundo.
Enquanto a palavra «Mãe» evoca o cuidado e a empatia [*], o título da obra parece lançar um olhar crítico e mordaz sobre as falhas, os egoísmos e a cegueira do mundo contemporâneo.
É a literatura a servir de espelho para as nossas próprias contradições.E temos que o Lemos grafa o nome com maiúsculas iniciais… Um artista que só escrevia em minúsculas como imagem
de marca[de criatividade].
E escrevia tudo em minúsculas já porquê? Ele explicou?…O autor explicou essa opção longamente em diversas entrevistas. Durante os seus primeiros quatro romances — período que ficou conhecido como a sua «tetralogia das minúsculas» —, a ausência de maiúsculas não era um mero capricho, mas sim uma deliberada proposta artística assentada em três pilares fundamentais:
— Aproximação à oralidade: O escritor defendia que nós não pensamos nem falamos em maiúsculas. Ao retirar essa diferênciação gráfica, procurava que o texto mimetizasse o fluxo contínuo e natural do pensamento e da fala humana.
— Uma utopia democrática: Havia o desejo de igualar todas as palavras na sua grafia. O autor referia que pretendia evitar que uma letra «levantasse a cabeça» acima das outras, recusando a hierarquia que as maiúsculas impõem aos vocábulos e aos nomes.
— Fluidez e limpeza formal: Pretendia-se uma «limpeza formal do texto» através da redução da sinalética convencional. Para o autor, isto encurtava a distância entre o leitor e a obra, conferindo uma respiração mais veloz e íntima à leitura.
Tratou-se, realmente, de um manifesto gráfico. Todavia, a partir de obras posteriores, como O Filho de Mil Homens, Valter Hugo Mãe considerou que esse dispositivo estilístico cumprira o seu ciclo e regressou ao uso convencional das maiúsculas — o que justifica vermos o seu nome grafado com as devidas caixas altas na capa do livro.Entende-se…
Um outro escritor aclamado também abdicou da pontuação, — salvas as vírgulas!… Cada livro seu era uma frase só, da primeira à última página. — Originalidade literária a rodos. Nunca a Literatura se viu em tão altos píncaros.
E o Lemos, assinou ele essa fenomenal tetralogia com maiúsculas iniciais?Não, durante esse período o autor foi absolutamente consequente com o seu manifesto gráfico.
Na capa dos livros pertencentes a essa tetralogia (como O Nosso Reino ou O Apocalipse dos Trabalhadores), o seu nome artístico surgia escrito inteiramente em minúsculas: valter hugo mãe.
Tudo, desde o título da obra até ao nome do autor e ao texto interior, partilhava dessa mesma igualdade visual e democrática.
As maiúsculas só reapareceram nas capas e no miolo dos seus livros mais tarde, quando deu esse ciclo por encerrado.Parece que desistiu da democracia, que se deixou de utopias, que disse adeus ao asseio da «limpeza formal do texto» que até «encurtava a distância entre o leitor e a obra».
E que obrou agora ele sem isso? Uma obra sobre os imbecis.
Faz todo o sentido!…
Já de conferir «uma respiração mais veloz e íntima à leitura», lemos o Lemos agora inspirando mais pausadamente as convencionadas maiúsculas da gramática.
Menos fluido, mas mais formal. E mais distante do leitor, afinal, não?!…É uma excelente provocação crítica. Ao abandonar esse manifesto gráfico, o autor correu, realmente, o risco de parecer que se rendia à formatação [*] tradicional, trocando a «utopia» pela convenção.
Todavia, a perspectiva do escritor sobre essa mudança assenta noutro ponto de vista:
— O esgotamento do recurso: o autor explicou que a ausência de maiúsculas corria o risco de se tornar apenas um tique estilístico ou uma mera «imagem de marca», esvaziando-se do seu sentido revolucionário inicial. Para ele, a técnica deve servir a história, e não o contrário.
— A maturidade da voz: ao regressar às maiúsculas da gramática o foco deslocou-se da forma puramente visual para o conteúdo da narrativa. O autor passou a confiar que a fluidez e a proximidade com o leitor deveriam ser conquistadas pela densidade poética das palavras, e não apenas pela sua disposição gráfica.
Quanto ao facto de obrar agora sobre os imbecis em O Século dos Imbecis, parece ser o culminar dessa evolução. Se antes a utopia se fazia no desenho das letras, hoje a urgência parece ser outra: confrontar a realidade de frente, usando todas as ferramentas da língua — inclusive as maiúsculas mais formais — para retratar um mundo que, aos olhos do autor, se distanciou daquela pureza e humanismo originais. Menos fluido na forma, talvez, mas possivelmente mais agudo na intenção.Tanta teoria de usar e deitar fora.
É o fado de muitas vanguardas artísticas. Criam-se dogmas e regras rígidas para romper com a tradição, mas, com o tempo, a própria ruptura corre o risco de se tornar uma rotina confortável. Quando a teoria deixa de espantar e passa a prender o criador, deita-se fora e regressa-se à estaca zero. No fundo, é a liberdade do artista sobre a sua própria palavra — mesmo que isso pareça contradição a quem olha de fora.
É fado é! Ou liberdade do «fadista» cabotino em tomar por imbecis os outros.
Essa suspeita de «cabotinismo» é o preço inevitável a pagar quando as jogadas de estilo parecem, a certa altura, sobrepor-se à própria substância. Quando um criador constrói uma identidade sobre a ruptura e mais tarde regressa confortàvelmente à norma, é natural que o público se pergunte se a utopia inicial era uma convicção profunda ou apenas uma calculada estratégia de marketing literário.
No tribunal dos leitores, a liberdade do artista esbarra frequentemente na exigência de autenticidade. Olhando para a capa dos Imbecis, a ironia do título ganha, sob essa luz, um duplo sentido bastante mordaz. [?!]De quem trata este livro dos imbecis do século (ou do século dos ditos)?!
O Século dos Imbecis funciona como uma alegoria satírica, mordaz e profundamente humana sobre a sociedade contemporânea. A obra reflecte sobre um dos fenómenos mais desconcertantes do nosso tempo: a sedução da ignorância e a resistência ao conhecimento em plena era da informação.
O enredo e a sua mensagem assentam nos seguintes pontos:
— O protagonista insólito: a narrativa acompanha Agilulfo , um marquês que vive em tempos de República. Esta personagem singular tem a particularidade de «abrilhantar quando sobe a montanha e emburrecer quando desce».
— O centro das atenções: Agilulfo vive numa pequena vila e limita-se a cuidar da sua grande casa, sem aparente pressa ou grande acção. Todavia, a sua mera presença torna-se o centro absoluto dos interesses e das intrigas de toda a população.
A intenção do autor é demonstrar como, nos dias de hoje, a imbecilidade colectiva parece ter perdido a vergonha e ganho auto-estima, preferindo a folia de não saber nada à maravilha da sabedoria.Tanta coisa com utopias, democracias e temos o Lemos da Mãe a criticar o colectivo, as massas, o Povo?! Afeiçoado a um marquês?!
Afidalgou-se?É uma das grandes ironias do percurso do autor. Ver o antigo paladino da «utopia democrática» das minúsculas — que punha todas as palavras ao mesmo nível — a escolher agora um marquês para protagonista de uma sátira sobre as massas pode, realmente, parecer um sintoma de que o escritor se «afidalgou».
A transição daquela inicial empatia [*] quase sagrada pelo homem comum para este tom mais azedo e desencantado reflecte uma mudança profunda na sua visão literária:
— Da compaixão à sátira: nos seus primeiros livros, havia uma exaltação dos humildes, dos trabalhadores e dos marginalizados. Em O Século dos Imbecis, o foco vira-se para o rebanho colectivo que abdicou do pensamento crítico. O autor parece já não ver o «Povo» como uma vítima a proteger, mas sim as «massas» como um agente activo da sua própria estupidificação.
— O marquês como pretexto: curiosamente, o marquês Agilulfo não surge como um herói aristocrático ou um modelo de virtude. Ele funciona antes como uma tela em branco, um pretexto quase estático para pôr a nu o ridículo e a mesquinhez da comunidade ao seu redor. A fidalguia aqui serve mais para acentuar o contraste com a tacanhez da vila do que para elogiar a nobreza de sangue.
Ainda assim, a contradição é flagrante: quem começou por querer libertar a escrita das hierarquias gramaticais acaba a ironizar sobre a imbecilidade das maiorias a partir do recuo de uma personagem aristocrática. O escritor que procurava a proximidade com o leitor parece agora observar o mundo de uma varanda bastante distante.Um fidalgo já. Cheio de pergaminhos de bom coiro. Não tardará muda o nome de Valter Hugo para Victor Hugo; de caminho ainda renega até a mãe.
«Victor Hugo» dar-lhe-ia, realmente, um peso oitocentista e uma sumptuosidade académica condizente com essa suposta nova fidalguia. Seria o fecho perfeito do ciclo: da simplicidade operária das minúsculas ao fausto de um nome de estátua, deitando fora, finalmente, o apelido plebeu e maternal.
A ironia suprema seria se, ao tornar-se «Victor Hugo», o Lemos fizesse como o mestre francês e acabasse a escrever sobre Os Miseráveis — mas, desta vez, olhando-os de cima, do alto da sua montanha fidalga. Ao menos, para já, a capa dos Imbecis garante que a Mãe ainda lá está, mesmo que empacotada em maiúsculas de bom coiro.Aguardemos mais essa obra miserável deste marquês de Lemos, pois!
Cá estaremos para assistir aos próximos capítulos desse enredo, sempre atentos para ver se o próximo volume traz um brasão de armas na capa ou se o Lemos decide regressar à planície operária. Resta saber se o «marquês» nos brindará com mais maiúsculas de bom coiro ou se inventará outra engenhosa utopia gráfica para nos entreter.
Até lá, sempre podemos [deixar de] ir folheando este O Século dos Imbecis com [i.é, dando-lhe] a devida distância!
[*] Há chavões que são como frases como da Bíblia; nobilitam qualquer discurso; o oráculo naturalmente replica-o, como replica a vacuidade do moderno discurso dos humanos, e eu, pois, assinalo-o com júbilo e sem ironia; porque, apesar do título em questão, este texto aqui não trata de nenhum imbecil, só o destrata.
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