
Cesário Verde, Obra Completa de…, 3.ª ed., (org., pref. e notas por Joel Serrão), Portugália Editora, Lisboa, [197...]
Reúne as poesias d' O Livro de Cesário Verde, as poesias não incluídas n' O Livro… do dito e as cartas do dito cujo. E inclui um quadro esquemático para cotejo das duas edições do dito Livro. A 3.ª ed. é referida s.d. na B.N. de Portugal. É-lhe atribuída a data c. 1980 em Worldcat. Parece tratar-se de simples reimpr. da 2.ª ed., de 1970, dada à estampa pela segunda metade dos anos 70, possìvelmente em certa euforia editorial pós-abrilina de certos eruditos comunistas como Joel Serrão...
Subtraí-o à estante da senhora, em casa de sua mãe, em 1 de Dezembro do ano 15.
Li a introdução, poemas e cartas passim ao serão dêsse dia.
Arejei-o hoje, primeiro dia de Primavera de 26, para lhe forrar a capa em papel vegetal. Enquanto o não encaderno por capricho.
Aproveito e leio as cartas a João de Sousa Araújo (pp. 145 e ss., por abrir até hoje), coimbrão funcionário do Ministério da Fazenda em Lisboa, jornalista, escritor, que esteve noivo de Júlia, irmã de Cesário. Ambos deambularam por Linda-a-Pastora pelos anos de 1871-72, haveria Cesário Verde dezasseis para dezassete anos.
A senhora não me sabe dizer se o volumezinho era de sua irmã, se da madrinha. Uma delas estudou por ele; o poema «O Sentimento dum Ocidental» (pp. 63-71), dedicado a Guerra Junqueiro, está anotado a lápis. Mas não reconhece de qual delas a letra.
As anotações são de escola, ou do liceu. Pela cronologia da edição (3.ª) cuja publicação é incerta, mas remete para fins dos anos 70, será, a final, de sua irmã. Tornam o poema assim em matéria de exame. Anotações de cartilha liceal, entre um bocejo e o toque da campainha, num outro registo de «quadro revoltado» de realismo e naturalismo escolar, sucessor lisboeta distante dos quadros parisienses de Baudelaire que inspiraram o original.
Releio agora o poema, para lá destas considerações.
Longo, meio desgarrado, fixa-se numa Lisboa lúgubre: o anoitecer, a iluminação a gás a dar fundo a sombras fantasmagóricas da faina dos trabalhos antigos (varinas, floristas, costureiras, coristas, calafates, carpinteiros, lojistas enfadados à porta das lojas) e ócio (E eu, de luneta de uma lente só // Eu acho sempre assunto a quadros revoltados // Entro na «brasserie»; às mesas de emigrados // Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.).
Cabe lá tudo, numa morbidez doentia (como o A.) e a instantes anacrónica; achar varinas sacudindo as ancas opulentas à hora da luz a gás — mais certo havia de ser pelo amanhecer, na lota — e a descarregarem carvões (no que seriam antes carvoeiras); vão a par costureiras que também são comparsas nos teatros, ou coristas, e nisto batem certas as horas do poema, mas só para lá das matinés.
É uma impressão de Lisboa de c. de 1880, publicada nesse ano do tricentenário de Camões.
O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL (Ler o poema completo...)
[In Portugal a Camões, publicação extraordinária do Jornal de Viagens, Porto, 10 de Junho de 1880. É o retrato de uma Lisboa de labor e preguiça que vibra à luz de candeeiros a gás vista por olhos febris, apud op. cit.]
(A Guerra Junqueiro)
I — AVÉ-MARIA
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, no mundo!Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!
II — NOITE FECHADA
Toca-se às grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de «dom»!E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas,
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.
III — AO GÁS
E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arripia os ombros quase nus.Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.Num cuteleiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
De uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, as duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.«Dó da miséria!... Compaixão de mim!...»
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!
IV — HORAS MORTAS
O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-se a quimera azul de transmigrar.Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, os imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!
Sem comentários:
Enviar um comentário