Passei de raspão nas notícias ao jantar. Estava a dar uma da violência doméstica, do Mira Amaral numa clínica. Violência há em muito lado, sobretudo nas notícias. Numa clínica também. Parece-me é aí ser pouco doméstica. Podia cuidar que para ser doméstica havia de ser algures entre a cozinha e o quarto, não descurando a casa de jantar. Mas não. Ela é sobretudo no estúdio e nas páginas do Correio da Manhã.
Eis o imperativo para ser doméstica, a violência; soar do estúdio do Correio ou ecoar nas páginas do jornal. Depois pode ser o pai a bater na mãe ou o neto a bater na avó. Às vezes, a mãe a dar mais que uns açoutes no filho ou uma lambada no marido, embora nisto haja algum pudor porque…
Adiante.
Chamam-lhe principalmente doméstica para distinguir de toda a restante violência, que é trivial, mesmo que seja terrorismo ou guerra. Esta distinção é muito importante para salientar a virtude que se impõe e se quere impor à gente e às consciências pela denúncia e condenação do que passa assim a ser o maior flagelo de trazer por casa das sociedades teledoutrinadas. Pior que uma guerra, esta gaita doméstica, sempre digo.
Entendo disto que o principal não é a violência. Nem a vítima, não desfazendo. O principal é a inculca. A lavagem ao cérebro como se hoje diz. Doutrinação pelo medo, até chega a ser… Por isso é importante vincá-la bem e sempre como doméstica, termo a parecer de trazer por casa que se arranjou, mas nada inocente. Na verdade torna-a — incute-a de mansinho nas mentes — na pior de todas as violências porque vai contra a família, o pilar de base da sociedade. Serve assim um propósito de inculca, nem que surja na rua ou numa clínica, como no caso. Porque atacar o primeiro pilar da sociedade é atacar o sagrado, por mais que se o desvirtue com casamentos gay lindos pares de jarras com intenções à adopção de meninos.
E daí que não haja dia sem violência doméstica condenada pelo tribunal do santo ofício que é a imprensa, e denunciada com zelo religioso pelos actuais familiares desse santo ofício dos nossos dias que são os jornalistas. Tal como os antigos familiares do Santo Ofício, os denunciantes e a denúncia dão indulgências, privilégio e alvíssaras, que modernamente se chamam subsídio ou subvenções.
De maneira que, quanto maior o figurão apanhado nas malhas desta nova Inquisição, maior o brado porque, haverá ele aí maior virtude num jornalista do que queimar na fogueira das noticias até os grandes, sem distinção dos pequenos, por tão nefando crime?
Um santo ofício, o jornalismo!…
Representação de um Auto da Fé [Lisboa : Typ. Maigrense, 1822].
Gravura em buril e água-forte, 14 x 20 cm. Il. de J. Lavallée, in História completa das Inquisições..., p. 208
(Via Biblioteca Nacional Digital.)
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