Desde a tempestade Leslie, em que o Correio da Manhã pôs no ar em directo uma desgraçada a ser fustigada no meio duma borrasca que me farto de rir com o «noticiário» de chuva no Inverno.

Estrada alagada, Azambuja, 1955.
A. n/ id, in archivo do A.C.P.
A promoção em alerta de catástrofe do velho boletim metorológico de depois do telejornal ou da mera colunazinha de jornal com o tempo que faz é sintomático da falta de noção actual das trivialidades ancestrais do mundo, ou até do não entendimento da normal proporção das coisas. Quando algo tão comum como chuva no Inverno ou calor no Verão dão no catastrófico que se diz e apregoa, bem podemos rir da catástrofe. É que a catástrofe não está no mau tempo…
Ou então andamos a ser gozados, já não por gente parva. E isto assim já é sério…
Não fôra só o disparate da coisa, e assistir aos imbecis de dó que o sopram como coisa séria nas tubas da rádio e TV, há agora a idiotice de baptizar as chuvadas. Mais uma moda do estrangeiro. Sim, porque o que vem lá de fora é sempre de categoria!…
Hoje está a chover. Faz vento e está frio. Estamos em Janeiro… Chove em Portugal mas a chuva tem nome amaricano. Diz que é Ingrid.
É curioso que o calor do Verão, catastrófico ele também na mesma medida da sazonalidade das estações do ano, não tem direito a baptizo. Nem com simples nome português. Não. A caloraça no Verão quando muito é bufada sempre como onda de calor. Deve ser porque no Verão temos a praia, onde as ondas fazem necessàriamente parte…
Diz, portanto, que hoje a chuva é Ingrid, que traduzido pode ser Nagrelha, ou (in grid) na grelha, coisa muitíssimo capaz para assados… Ora aqui estava rico um nome, In-grid — amaricano e chic a valer. — Mesmo, mesmo jeitoso para começarem também um churrasco de nomeada para baptismo das ondas de calor no Verão.