Precisava lavar a alma. Esta alma que não sobra em nada, nadinha do que vejo ao meu redor. E espalhá-la por aí ao vento a ver se pegava…
Vai a gente na rua e só ouve algaraviada ou língua de trapos. Abre-se a janela do saguão e até dali, lá de fora, saltam pelo ar guinchos de odaliscas como em meneios de ventre a encher este vácuo em que se Portugal esfumou.
Não me faltava mais nada! Cercado na rua, sitiado em casa.
Portugal acabou mesmo. Mesmo! Até a sua saüdade se nos apaga sem chama num definhar sem sentido. Sobra aí suspiro dalgum fado velhinho que me valha nem que seja um fio de saüdade da alma portuguesa? Ao menos aqui no saguão, por entre uma sardinheira, que o país, irremediàvelmente, está perdido. Um fado velhinho. Só para me lavar um pouco esta minh' alma de português que se me não despega.
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Amália — Fado da Saüdade (Frederico de Freitas, José Galhardo) |
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Eu canto o fado p'ra mimAbre-me as portas que dãoDo coração cá pra foraE a minha dôr sem ter fimQue está naquela prisãoSai da prisão, vai-se embora
Ai, minha dôrSem o amargo do teu prantoNão cantava como cantoNo meu canto amarguradoAi, meu amorQue és agora que eu sofro e choro?Afinal, agora que adoroÉ por ti que eu canto fado! Eu canto o fado p'ra mimJá o cantei p'ra nós doisMas isso foi no passadoJá que assim é, seja assimJá me esqueceste depoisJá cada qual tem seu fado O mais feliz é o teu, tenho a certezaÉ o fado da pobrezaQue nos leva à felicidadeSe Deus o quisNão te invejo essa conquistaPorque o meu é mais fadistaÉ o Fado da Saüdade |
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