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segunda-feira, 26 de maio de 2025

Sporting 3 – Benfica 1 (mas já não sei…*)

 O Artur Semedo dizia  — «o Benfica nunca perde. Às vezes não ganha.» — Era um espirituoso. Cheio de manha…


 Ontem no rescaldo da final da Taça de Portugal, nas televisões Correio da Manha e sucedâneas [da manha, é isto mesmo], a notícia não era como o espirituoso do Artur Semedo dizia. Não, a notícia não era que o Benfica desta vez não ganhou (e muito menos que ganhou o Sportem).
 Não.
 A notícia — tal era o, espanto, digamos… — A notícia era só mesmo o Benfica, que perdeu! — Uma impossibilidade, um absurdo inacreditável a todo e qualquer título. Algo como o homem invisível: uma coisa nunca antes vista — mais parecia…
  Bem! Só porque se nunca antes viu [ao que parece] não quere dizer que não exista.


 


Benfica 1 - Sporting 3 (após prolongamento), «Correio da Manhã», 26/V/25
(Correio da Manha [isso mesmo], 26/V/25.)


 


 


* Adenda três dias depois porque de prolongamento em prolongamento a final da Taça ainda se joga:


 O Benfica perdeu, mas a derrota esfumou-se logo, logo no prolongamemento do prolongamento da final da Taça. Primeiro à conta duma pisadela que já hoje vai num enésimo prolongamento na Procuradoria Geral da República. Mas já lá vou, à pisadela.
 Logo ao depois da pisadela, que deu o mote ao Benfica não perder, a final afinal, foi o prolongamento do banzé de que na bola nacional está tudo minado — «até os delegados!» — Desde o pinto dourado, pelo menos, que se isto sabe… Onde está a novidade?!
 Ora a novidade! Agora está tudo minado e dominado pelo… Sporting.
 Pois!… Se ganha… (Ou o Benfica não ganha…)
 Curioso o que o chefe de redacção do Record concluiu do banzé do Rui Costa coscuvilhado e posto ao léu pelo Correio da manha:



 « Por aquilo que nós percebemos, o presidente do maior clube português pensa assim: pensa que é a dominar a Federação, os delegados, a Liga e o Conselho de Arbitragem que se chega às vitórias […]
 « Nós aqui percebemos que o presidente do Benfica considera que dominar a Federação, a Liga, os delegados, e acima de tudo Conselho de Arbitragem, é um passo de gigante para se ganhar troféus.»

(Luís Pedro Sousa, Record na Hora, canal Now, 27/V/25.)



 A pisadela. Foi ela o mote. Onde ela já vai!…
 A pisadela, realmente, não é do Matheus ao Belloti. É do Sporting. Pisou os calos ao Benfica. O Benfica ficou de cabeça perdida. Não fôra esta desfaçatez de lhe o Sporting ganhar, a moleirinha do Belloti não interessaria a ninguém, como não interessou até ao penalty do Sanches que deitou o Benfica a perder.
 No fundo, é a cabeça do Rui Costa que está em causa.


 

sexta-feira, 23 de maio de 2025

Os donos da bolha

Bolhas sonhadoras @ Baby Tv


 


 O Observidor, deu-lhe anteontem na bolha. Vai daí fez um programa de rádio podcast Como é que se sai da bolha?
 
Não sai. Mas, deixá-los…
 O Zé Manel Fernandes mal se percebe; péssima dicção para falar na rádio, divaga num cosmopolitismo serôdio e dispersa-se no alarde de autoridades em que estriba a sabença; a Helena Matos mete umas buchas menos ou mais calhadas, mas ouvi-la naquele tom afectado de tia de Oeiras é ouvir a própria bolha a ecoar sobre si mesma; e o locutor João Miguel Santos, bem… É o dono do microfone (Host Rádio Observador, em maiúsculas): serve-lhe como uma luva o que disse uma convidada do programa (i.é, podcast…) acerca dos jornalistas do… Público:



[…] está muito moldado por esta ideia, por esta perspectiva política moralista: — «eu estou do lado certo da história e tenho que fazer valer a minha posição e tenho que silenciar os outros e tenho que fazer as perguntas para mostrar que eu estou do lado certo da história».


(Patrícia Fernandes, Contra-Corrente, Rádio Observador, 21/V/25.)



 É, pois, este dono do microfone (ou Host — não esquecer a maiúscula) que anuncia ao microfone os convidados de autoridade (professores universitários colunistas do Observador, justamente…) e é ele também que introduz e, principalmente, corta o pio aos ouvintes que quiserem dar a sua opinião quando eles mijam fora do caco.
 Foi o caso dum mais ou menos sardónico:



[André Ferreira, engenheiro, de Lisboa.]
— Eu sou assinante do Observador. O jornalismo para mim é o oxigénio da democracia. Sou caucasiano [é branco], heterossexual, estou empregado, pago I.R.S., tenho filhos. Não sou jovem, não sou velho, e sofro de uma doença que… Sou fascista. Portanto preciso de ajuda.

 — Não consigo, não consigo contrariar. Eu tento ouvir, tento mudar a minha opinião, mas o que eu penso não bate certo com o que eu vejo, e o que eu vejo não bate certo com o que eu oiço. Portanto este triângulo está desfasado quando eu oiço comentadores, quando eu oiço os políticos e depois comparo com o que eu vejo e, depois, com o que eu penso.
 — E o que mais me irrita é: os estudos. Quando vêm com estudos científicos, não fizeram os estudos. A maior parte dos estudos, muitos deles estão errados.
 — Palavras como
dissonância, enviesado, madraças, racialização, este tipo de linguagem é da vossa bolha e eu, eu chamo a atenção para isto: existe uma, uma parte de nós, de nós doentes do fascismo, que eu tenho [de requisitar] umas pílulas no S.N.S. que me possam curar. Isto porque eu ando envergonhado, realmente!…
— Eu não digo a ninguém que sou fascista. Eu não digo a ninguém! Quando pedem para votar eu digo que voto na A.D. ou no P.S. porque tenho medo de não sei quê. Mas eu sou fascista.
 — Por exemplo, mandam pó verde para cima de um político — voto no Chega!
 — O Sócrates nunca mais vai ser, que… — voto no Chega!…
 — Um, um, uma pessoa de etnia cigana chega com um filhote de 18 anos no colo a passar à frente do… nos correios — voto no chega!…
 — Aparece-me a Inês de Sousa Real, peixe-balão na televisão com aquela, aquele ar de sonsa — voto no chega!
 — Portanto, eu sofro.
 — O, o Ricardo Araújo Pereira tem um programa que só lá foram políticos doutro lado fazer publicidade, fazer campanha; não levou o Chega — voto no Chega!
 — Mas eu não gosto de votar no Chega porque eu sei que o Chega é um partido vazio sem nenhuma, sem nenhuma… estratégia para o país.
 — Então porque é que eu voto no Chega? Sou fascista porque sou maluco, porque sou ignorante? Agora, acham que nós somos ignorantes?!…


 [O João Miguel Santos, dono do microfone, achou… que era de interromper.]
 — Já, já percebemos! Já percebemos o seu ponto de vista, André. Ficou claro. Agradeço-lhe muito obrigado por ter ligado […]


(Contra-Corrente, Rádio Observador, 21/V/25.)


 



 Silenciar os outros […] para mostrar que eu estou do lado de certo da história — foi como disse a convidada, não é verdade?!… 


 

terça-feira, 20 de maio de 2025

Amália Rodrigues em Paris, 1949


«Amália Rodrigues em Paris», 21/IV/1949.
(Jornal de Actualidades Francesas, ed. p/ o estrangeiro, in I.N.A.)


 



 Extracto da actuação de Amália Rodrigues em Paris, no Chez Carrère, em 21 de Abril de 49, promovida pelo S.N.I.
 No filmezinho, com cortes no som, Amália canta o fado «Não Sei Porque Te Foste Embora», de Frederico Valério e José Galhardo, acompanhada à guitarra [Raúl Nery] e à viola [Santos Moreira].
 Identificam-se o embaixador Marcello Mathias, a actriz Beatriz Costa (e o marido Edmundo Gregorian?), o escritor François Mauriac.

domingo, 18 de maio de 2025

O Sportem ganhou o campeonato

«O Sporting, hoje vencedor, ganhou o campeonato», Diario de Lisbôa, 6/IV/52
«O Sporting, hoje vencedor, ganhou o campeonato», Diario de Lisbôa, 6/IV/52.
(Fotocópia ajeitada da fundação do irmão do dr. Tertuliano.)


 


 O Sportem não ganhou nenhum bicampeonato, competição que não existe. Ganhou o campeonato pela segunda vez consecutiva. Por conseguinte, é bicampeão. Mas, bem, é uma maneira de dizer.


 Foi ontem.


 A vez anterior que sucedeu — ser bicampeão — foi em 1952. Há 73 anos. O Sportem fôra campeão em 1950/51 e tornou a ser em 1951/52. Tornou a ser campeão em 52/53, de modo que passou de bicampeão a tricampeão em 1953. E tornou a ser campeão em 53/54, no que deveio tetracampeão nesse ano e até 1955, quando tirou o campeonato a Os Beleneses nas Salésias, empatando 2-2, com o que ganhou o Benfica.


 Pois bem, voltando ao tema. 


 Quando se tornou tricampeão em 1953 deixou o Sportem de ser bicampeão e logo que se tornou tetracampeão deixou de ser tricampeão, como é lógico. Mas em cada uma das vezes (quando foi bicampeão, tricampeão e tetracampeão) apenas ganhou o campeonato.


 Portanto há 71 anos, em 1954, o Sportem ganhou o campeonato e era tetracampeão, não bicampeão, e muito menos bibicampeão porque um tetracampeão não é nenhum bibi…

sábado, 17 de maio de 2025

De camaradas carregados de livros (2616, para ser exacto)

«já [sic] é amanhã, camaradas» [arte cabotina], Palácio Galveias  (João Palmeira, 2025


 Um artista bom para contar livros. No sítio certo — a biblioteca das Galveias. Na profissão errada, porém. Era de o aproveitar melhor para assentar tijolo.


 Caso não, não se perdia tê-lo nas cargas e descargas, a lidar com paletes de livros, de tijolos, o que fosse.


 De MDF não sei o que diga, mas de ferragens parece-me este camarada bem capaz: às bestas, não é o que se faz…?


«já [sic] é amanhã, camaradas» [arte cabotina], Palácio Galveias  (João Palmeira, 2025
«já [sic] é amanhã, camaradas» [arte cabotina], Palácio Galveias (João Palmeira, 2025).


 


P.S.: a arte em primeiro plano é o que se vê: lombada à mostra, só a spinolada que deu o mote ao fim de Portugal; de resto, só o corte do miolo da livralhada histórico-política do séc. XX português — corte do miolo que bem assalta esta arte e estes artistas; de histórico, a política dá agora mais em mostrar ser isto do que o que os azulejos de Leopoldo Battistini em segundo plano ilustram, cujo holofote se vira muito sintomàticamente ao contrário, encobrindo a representação do combate da nau Chagas com os corsários ingleses ao largo dos Açores em 1594: desta memória esquecida, que quere-se lá agora saber, podemos achar um perdido relato pelo Capitão-Tenente da Armada, Francisco Maria Bordalo, n' O Panorama, n.º 42, de 21 de Outubro de 1854, pp. 332-333.


 

De caso e descaso

 Há aqueles letreiros «é proibido afixar anúncios nesta propriedade». Normalmente em edifícios públicos. Deve haver leis, despachos e decretos, cuido, que cuidam do caso. Os meninos rabinos não fazem caso.


 


Muro do Instituto Nacional de Estatística, Lisboa — © MMXXV
«Baixar as rendas» [propaganda no muro do I.N.E.], Lisboa — © MMXXV


 

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Concessão aos meninos rabinos


Meninos rabinos, mas muito asseados,
A cara e os dentes lavados.




 Meninos rabinos como o verso era dantes. Os meninos rabinos hoje são outra coisa. A mancha de fundo denuncia-lhes o vício da pichagem, mas oculta-lhes as ejaculações murais anteriores. Ontem, nova prova de amor às palavras de ordem mural coladas com o cuspo democrático com que sempre salivam, estando ou não para haver eleições.


 De ontem para hoje alguém pintou por cima. Urgência por outro alguém ter tirado a prova?


«Baixar as rendas», Picoas — © MMXXV.jpg
«Baixar as rendas» [propaganda na fachada do mercado do 31 de Janeiro], Picoas — © MMXXV


 

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Trampa a um conto de réis

Trampa, casa sueca — (c) MMXV
Trampa, Alfragide (Casa Sueca) — (c) MMXV


 

sábado, 10 de maio de 2025

Concessão à bola

 Ainda não foi champanhe. Abri aqui uma garrafita de verde. Alvarinho. Pus meio copito. E a seguir mais um nadinha. De vagarinho. O verde quere-se fresco mas, como a coisa está, tem de se ir com vagar. Uma semanita… Ao depois, não se pode pôr muito porque logo aquece, que é como diz do verdinho o tio Júlio — por sinal um grande benfiquista; o benfiquista que mais prezo.
 Menos mal ainda para si porque a esperança é a última coisa… 
 Melhor para mim nesta minha concessão à bola, contente que estou sem estar feliz, como me disse agora ali há pouco a senhora.
 Cuido que nesta fase da vida me posso dar este tanto às mundanices de que Portugal ainda existe. Não à toa, fado tenho posto para aqui com fartura; futebol é como digo; e Fátima, bem, estamos em Maio, não é verdade?!…
 Vai a propósito uma novidade antiga?
 


«O Sporting derrotou o Benfica numa partida pouco brilhante», Diario de Lisbôa, 23-3-941
«O Sporting derrotou o Benfica numa partida pouco brilhante», Diario de Lisbôa, 23-3-941.


 


P.S.: a final ouvi gritarem os golos [dos quintais, não dos cafés]; talvez dele esta agora… Haja esperança!…


 

quarta-feira, 7 de maio de 2025

A Avenida pelo ano de 36 (não digo o século)

 Dês que dei em escrever por aqui alguns dos meus desabafos, já vai para cima de vinte anos, que volta não volta digo que Portugal acabou. É verdade. Normalmente situo-lhe o fim em 1974. Do que não fazia ideia até há pouco é que mesmo acabado ainda faltava o resto. Os escombros do portugalinho que restava invadidos insidiosamente e eu, portuguesinho de coração e raça, sitiado na minha casa.


 O mandarete de turno falava há semanas de «novos portugueses». É verdade! Há novos portugueses. São estrangeiros. Dizê-los «portugueses» é desde logo usurpação de identidade. Dizê-los «novos» manifesta confirmação do propósito: tornar os portugueses em novos apátridas. Na sua própria terra.


Avenida, Lisboa (J. Benoliel, c. 1936)
Avenida, Lisboa, c. 1936.
Judah Benoliel, in archivo photographico da C.M.L.


 


P.S.: sábado há um Benfica-Sporting que decide o campeão nacional vencedor da I.ª Liga de futebol. Não conto ouvir gritar golo de nenhum deles nos cafés da minha rua.


 

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Saüdade dum certo Portugal. De Portugal…


Edmundo Bettencourt — Saudades de Coimbra
Gravação no Teatro Taborda, Lisboa, 1930.
Ed. em 78 r.p.m. de 1936, in [outr' hora] RDZ — Radiodifusão Zonofone, 14/III/18.