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sábado, 29 de março de 2025

Da piolheira cultural


 A propaganda está em todo o lado. Enchem os jornais com palavras que actuam à laia de mordaça. Por exemplo, este trampolineiro lírico vale-se do teatro vicentino para defender e saudar a «refundição» em curso e dizê-la inevitável. Num passe de mágica, até a usa para traçar o futuro das políticas culturais. Este descaramento, noutros tempo, mereceria um baraço.
(T.M.C., 28 de Março de 2025.)


 



Rui Lage, «Para um novo ciclo de políticas culturais no Porto (III)», J.N., 27/III/25.
Rui Lage, «Para um novo ciclo de políticas culturais no Porto (III)», J.N., 27/III/25.


 Cavalgar Gil Vicente ou quem seja que nos molda a essência e nos dá a identidade, portugueses que somos, e deturpá-lo com o fim que está à vista de todos, é a sonsice mais reles que vejo para aí sem rédea nem freio. Há entre nós muitos frades missionários e irmãos deste santo ofício sonso que é passado como moralizador pela propaganda vigente.


 O Lage é mais um.


 Só que aturar autoridades destas a tomarem-nos por tolinhos e a quererem pastorear-nos encavalgando-se toscamente nos nossos maiores para caucionar uma agenda alheia que nos quere é extintos e apagados de toda a nossa memória, mete nojo.


 E nestes desatinos, vir este frade Lage, dito escritor — logo erudito de alvará com assinatura reconhecida por Deus, presume-se — com uma converseta missionária de refundição dos portugueses e de Portugal numa caldeirada multicultural, enjoa mais.


 Refundição, extrapola o inteligente de frágua, em Gil Vicente com sentido de forja. E transpõe a forja para a invasão que nos andam impor como se uma rica caldeirada fosse, com basto de sardinha e de bacalhau a querer dar gosto. Chama-lhe integração, melhoramento mútuo, intercompreensão, mas no fundo, bota-lhe de cá petinguilha e pichelim de conserva, se for, a fazer que disfarça o mau saibo da receita. 


 Vale-se o trambiqueiro, enfim, levianamente duma encenação de «Frágua de Amor», drama de autoridade, Gil Vicente, representado na festa de casamento de el-Rei D. João III com a Rainha D.ª Catarina, em Évora, em 1524. Disso e da peça diz rigorosamente nada. Só a revolve num dos termos do título que lhe serve à aldrabice.


 Pois sempre vos conto.


 No auto há um negro com o desejo de ficar branco. Entra na forja e na verdade sai branco…



Faze-me branco rogo-te homem
asinha logo logo logo
mandai logo acendere fogo
e minha nariz feito bem
e faze-me beiça delgada te rogo.



 O Lage quere a forja agora a refundir ao contrário. Mas eis a autêntica refundição:



Já mão minha branco estai
e aqui perna branco é
mas a mi fala guiné.
Se a mi negro falai
a mi branco para qué?
Se fala meu é negregado
e nam fala portuguás
para qué mi martelado?



 Continua o negro refundido a falar à preto… A forja é uma treta. O resultado dela é pior que o anúncio de um preto de cabeleira loura e um branco de carapinha não é natural que, como propaganda acabava mais honesto: o que é natural e fica bem é cada um usar o cabelo com que nasceu.


 Seguido bem Gil Vicente, este Lage calha no entanto bem no papel do cupido ferreiro da forja:



No piensa lo que dice,
y su voz es como miel;
pero, cuando se irrita,
su espíritu es cruel

y está lleno de fraudes.


No dice nada de verdad el niño astuto,
y juega cruelmente.



 «Que não se caia, porém, no paternalismo» — remata no fim do textículo o figurão, com um paternalismo de que se nem dá conta e que era costume usar com pretinhos (e agora com pretos, brancos, mulatos e o restante da raça pegada).


 Toma-nos por estúpidos?!… Há lá ele maior paternalismo que ter cavalheiros deste jaez a querer, moralona e tutelarmente, dizer-nos, a nós, Portugueses com 900 anos de história,  o que culturalmente deveremos ser ou deixar de ser ou fazer?!


 Refundição? — Até o negro da «Frágua de Amor» já via a «Floresta de Enganos»…



Dá cá minha negro tornai
se mi fala namorado
a moier que branco sai
ele dirá a mi: bai bai
tu sá home ó sá riabo?


A negra se a mi falai
dirá a mi: sá chacorreiro.
Oiai seoro ferreiro
boso meu negro tornai
como mi saba primeiro.



 


(Excertos da «Frágua de Amor» de Gil Vicente colhidos por aqui e ali na rede. Conto ainda revê-los melhor ao depois com mais tempo.)


 

2 comentários:

  1. Não há muito mais a dizer quando parolos e videirinhos deste jaez são elevados a cronistas e acham na política o prolongamento do seu ofício de escribas. Toca de mostrar serviço aliando a pena borrada ao diktat de Bruxelas em que o lirismo justifica a realidade. Das coisas mais repulsivas que me foram dado a ler, sobretudo porque é um texto fanfarrão que faz dos leitores tolos enquanto pinta a realidade com o cor-de-rosa a que nos habituou o destrambelhado PS.

    Caso os leitores do Bic o pretendam, o JN tem um espaço para respostas e um correio do leitor para o efeito: leitor@jn.pt

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  2. Videirinhos. E é tudo. Realmente um nojo.
    Grato da sugestão.
    Cumpts.

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