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domingo, 12 de janeiro de 2025



« […] Ressuscito pela política. Sou o Lázaro deste ministério [*]. Estive no túmulo, isto é, na solidão, o que equivale a dizer — na felicidade. Vi. Vi desfilar esta mascarada imensa, que, desde Janeiro [**] atravessa lentamente o país, rugidora e serena, flamejante e escura, tendo cabeça de deficit e atitude de imposto.»



 Deu-se há dias aquela rábula, a trasladação de Eça de Queiroz. Tinta correu (mais bits e bytes que tinta); não sei se muita, se pouca; o normal neste tempo, neste género de coisas. Normal igualmente, hoje, e com os meios, é que tantos botem opinião.
 Pois, eu também.
 Anão que sou — como os mais actores da encenação de St.ª Engrácia, de resto — ponho-me também aos ombros do gigante Eça de Queiroz, ele que me perdoe! Até porque o que de si transcrevo é doutro contexto, mas como é bom de ler e exprime o que penso do caso…
 Fica ao benévolo leitor se exprimirá também nalguma medida o que pensaria o próprio Eça.


 Em 1867, tinha 21 anos, Eça de Queiroz redigia o «Districto de Evora», jornal em que pelo meado desse ano escreveu o que cito acima e o que vem a seguir, como correspondente de Política na capital (Eça redigia sòzinho o jornal todo).



« O Governo é uma corte que é delicioso estudar: a caricatura política tem aí uma inspiração perenal.
« É uma corte completa: camarilha, cortesãos, bobos, lacaios, etc.; só a maioria daria, para preencher todos estes lugares honrosos, abundância de servidores. Tem também os seus arautos. Conheço-os para glória imarescível do meu coração. São dois. Foram ambos republicanos, no tempo em que o ser republicano rendia. Depois, compreenderam que a instituïção [sic] monárquica ainda que avara de liberdade, era abundantemente generosa de dinheiros públicos; vieram correndo, com as mãos em concha, colocar-se sob a fechadura dos tesouros monárquicos. Desde então tomaram aquela obesidade respeitável, que dá a convivência da fazenda pública.»



  É doutro tempo, mas há coisas que são perenais…


  Empreendo por fim no significado oculto do remexer mais esta vez com Eça de Queiroz no túmulo — trasladado que foi de Paris para o Alto de S. João em 1900, quando morreu; trasladado outra vez em 1989 de Lisboa para Santa Cruz do Douro, pelo estado de ruína de seu jazigo. E agora o fetiche destes mandaretes de turno em trazer o escritor para a igreja de St.ª Engrácia, a que só chamam panteão, cuido, por capricho de avental…
 Não sei se por isto que se me insinua no espírito, se por simples e descarada promoção pessoal e política — alguém me elucide — porque, pois, me parece que teria o mesmo efeito ao propósito enunciado e que está bom de ver, um mero cenotáfio com cerimónia oficial igual à levada a cabo na circunstância agora de se autopromoverem as figuras de pacotilha que se lá acharam, não havendo nenhuma necessidade de se lambuzarem com os restos mortais do próprio Eça de Queiroz.


 




[*] Modernamente diz-se governo.
[**] De 1867. Mas aqui, agora, em Janeiro de 2025, podemos pôr Tormes, ou Santa Cruz do Douro.


Excertos: Eça de Queiroz, Districto de Evora, [Mai.-Jul.], 1867, apud João Gaspar Simões, Vida e Obra de Eça de Queirós [sic], 3.ª ed., Bertrand, Amadora, 1980, pp. 154-155.
Fotografia: Eça de Queirós [sic], c. 1868. Henrique Nunes, in B.N., FEQ, Fot. 26, 2000.


 

4 comentários:

  1. A obesidade respeitável que dá a convivência da fazenda pública é uma das tais perenais...

    Quanto ao mais, cheguei à conclusão de que querem fundamentalmente fazer mal, seja porque razão for. Que, calhando, nem sabem bem qual é. Mas vem-lhes por intuição... Cheira-lhes que por ali satisfazem algum apetite negativo, destrutivo. Depois inventam um pretexto qualquer para que todos possam fazer de conta que é uma linda coisa.

    Um pouco como os picham paredes por aí...

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  2. Uns serão malevolentes; outros, uns estúpidos que nem percebem o mal que causam. A maioria, videirinhos amorais sempre em busca do próprio interesse.
    A pichagem é intriga em toda a linha. Chama-se-lhe jornalismo por convenção.
    Ano bom!

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  3. A desordem pulhitica nacional (a choldra instalada) segue os canones da camarilha global

    A rever de outro blog https://novomundo111.blogs.sapo.pt/a-nova-ordem-estupidologica-15582

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  4. Bem certo! A choldra instalada nada tem de nacional. Pulhas a soldo.
    Cumpts.

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