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domingo, 15 de dezembro de 2024

Questão de rótulos

 O meu estimado eng.º S., pessoa de espírito e trato delicado. Tanto que o bonacheirão do eng. N. para descrevê-lo dizia dele.
 — O S. é tão educado, tão educado que a pior asneira que diz nem é m****. É m***inha.
 Numa vez que conversávamos, falávamos de vinhos.
 — Não percebo nada de vinhos. Comprei um Cartuxa e não lhe percebi nada extraordinário dos que compro de dois a cinco euros — disse-lhe.
 O eng. S., grave e sério, responde-me assim:
 — Os vinhos, para mim, olho para a garrafa, vejo-lhe o rótulo. Se gostar do rótulo, é garantido que o vinho é bom.
 Não medi logo o alcance do que me disse o eng.º S…



 


 « Nós exportávamos sobretudo para os países da E.F.T.A. e para a Alemanha. Os alemães compravam quase só vinho branco, à volta de 150 000 hectolitros por ano, para misturarem no seu Mosela, abaratando assim o custo de produção do seu vinho e aumentando significativamente a quantidade — um grande negócio à custa da boa qualidade e baixo preço dos nossos brancos —. A Suíça, por seu lado, importava vinho tinto, também 150 000 hectolitros anuais, para misturar com a zurrapa do seu Valais, vendendo-o depois ao copo, em Genève, onde isso é tradicional, como Bordeaux — outro grande negócio à custa dos nossos bons tintos —. Os nórdicos e os ingleses importavam de tudo, mas em muito menor quantidade.
 « Nunca consegui que dessem localmente designações dos nossos vinhos, com excepção dos ingleses para os engarrafados […]
 « Duma vez, num jantar em honra da delegação da Suécia, em que dei um branco excepcional, um sueco, que o apreciara e ficara ao lado do eng. Santos e Castro, presidente da Junta do Vinho, perguntou-lhe o que seria melhor, se o vinho branco ou o tinto. Santos e Castro, que não apreciava particularmente os brancos, fez que não ouvira. Como o outro insistisse, acabou por lhe responder assim: meu amigo, de todas as bebidas que eu conheço, a que mais se parece com o vinho é o vinho branco. O sueco fez cara de sueco e, quer tenha percebido quer não, tragou a resposta com mais um golo de branco, o que me fez rir com gosto.»


Carlos Fernandes, Embaixador, Recordando; o caso Delgado e outros casos, 1.ª ed., Universitária Editora, Lisboa, 2002, pp. 131-132.



 


Longa tradição da qualidade, Sogrape («Expresso 15 Anos — ed. comemorativa», Lisboa,  Expresso, 1988, p 68)
Longa tradição da qualidade, Sogrape, 1988.
(Anúncio em «Expresso 15 Anos — caderno comemorativo», Lisboa, Expresso, 1988, p 68.)


 

5 comentários:

  1. Numa vez nos Países Baixos, fui convidado para jantar na casa de uns amigos dos meus familiares, que fizeram questão de ir comprar vinho para acompanhar.
    E compraram Mateus Rosé, desculpando-se Portugese wijn had dit alleen (vinho português só havia este).
    Eu respondi, obrigado mas eu só gosto de beber vinho, que depois traduziram.
    Depois, serviram um tinto da Argentina cabernet sauvignon que sabia a vinho regional de Lisboa da mesma casta.

    Cumpts.

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  2. Ficamos agora na dúvida se não era Bucelas com rótulo argentino, não?
    Rosé há-de ser a segunda coisa mais parecida com o vinho. Depois do vinho branco.
    Cumpts. :)

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  3. Eu explico melhor.
    O vinho rosé "Mateus Rosé" é considerado vinho devido a uma grande propaganda.
    Tomara que fosse de Bucelas, o arinto branco é de boa qualidade.
    O vinho argentino, chileno e americano, aparece nos supermercados europeus, de países sem produção de vinho, mais baratos que os vinhos "cabarnet" franceses, italianos e espanhóis, que de portugueses há poucos e de "marcas" de exportação desconhecidos por cá. Os nossos bons vinhos e até os de qualidade média são caros para o mercado europeu. Só temos mercado para o "Vinho do Porto" (ou Oporto) que não falta em nenhum supermercado.
    Cumpts.

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  4. Obrigado! Tomo nota do Bucelas que, cuido, não anda barato.
    O Mateus é, portanto, uma questão de «rótulo».
    Mas põe-se-me a questão: se os nossos bons vinhos e até os medianos (os tais de marcas de exportação?) são caros para o mercado europeu, que andarei eu a comprar por cá?

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  5. Essa é boa.
    Duma vez, andava a escolher um vinho num supermercado e um comissionista/vendedor andava a comparar qualidade/preço nas prateleiras.
    Ele disse-me que o nosso vinho de baixo preço, já foi há cerca de seis anos, na ordem dos 2/3€ a garrafa 75cl, 12º era de melhor qualidade que vinhos espanhóis, italianos e franceses da mesma gama.
    Agora não sei, por motivos de saúde eixei de beber mesmo às refeições, mas antes bebia um copo às refeições de Pegões Touriga Nacional.
    Cumpts.

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