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domingo, 17 de novembro de 2024

De Ars Amatoria…

A Arte de Amar / OVÍDIO . — 2.ª ed. . — Mem Martins : Europa-América, 1998. — 121 p.; 18cm. — Livros de Bolso Europa-América, 84


 Uma leitura que arrastei por anos. Sem proveito, pois esquecia o que já lêra. Pegava-lhe, largava-o, e esquecia-o. Pegava-lhe, largava-o e esquecia-o. Por anos. Pelo meio as numerosas referências da época do A. foram ficando nesse grande mistério que são, nos nossos dias, os deuses da mitologia greco-latina e os heróis de Homero. — A trabalheira de parar a cada instante para esclarecê-las no dicionário, na enciclopédia; preguiça, empecilho à leitura, já de si pouco empenhada… Era o que devia ter feito, mas não havendo necessidade de estudo… Para abreviar valeu o breve resumo da mitologia que vem no prefácio. Quando valeu. — Assim, fui indo pelo livrinho uma migalha aqui, mais uma ao depois, quando ia calhando, muito, muito a descaso, por anos, como digo. A par disto, seguir às cegas quanto às referências aos deuses e figuras do classicismo, foi uma leitura perdida.


 Paciência!


 Mas também… Leitura serôdia para leitor ainda mais serôdio?!…


 Sobrou-me todavia, no fim, a ideia de que Ovídio era um gozão, mais do que um leviano, e muito mais do que um conselheiro do amor:


« Ultimamente, os meus sentimentos tinham-se preso a uma mulher que não correspondeu aos meus sentimentos. Doente como Podalírio, curava-me com os meus próprios remédios, e, confesso-o, fui um mau médico. O que me deu alívio foi ver com os meus próprios olhos os defeitos da minha amiga; fiz isto com frequência e senti-me bem. «Como são feias as pernas da minha amiga!», disse. Na realidade não tinham nunca sido feias. «Que mal feitos são os braços!», mas, para dizer a verdade, eram muito belos. «Como é pequena!», e, afinal, era alta. «Nunca se farta de pedir presentes.» Este, sim, foi o motivo que me fez tomar-lhe raiva.»

E para se dela livrar…


« Há ainda mais […] Observa, tanto quanto possível, pelo lado mau as qualidades da tua amante […] Se for gorducha, diz-lhe que é um pote; se for morena chama-lhe preta. Se for esbelta, acusa-a de magreza; podes chamar desavergonhada à que é sincera e hipócrita à que é honesta. Além disso, se a tua amiga é pouco prendada, insiste para que ela ponha à prova o que não sabe fazer. Pede-lhe que cante, se não tem voz; leva-a ao baile, mesmo que só saiba mexer os pés. Tem uma linguagem inculta? Mantém com ela grandes conversas. Se não sabe tocar lira, mete-lhe uma nas mãos. Se anda cansada, convida-a a passear. Não deixes que use um corpete para disfarçar que é avantajada de peitos. Se tem dentes feios conta-lhe alguma coisa que a faça rir. Chora com facilidade? Conta-lhe coisas que a façam chorar.»

 Um brincalhão, hem! Ainda por cima judeu com as namoradas.


 Tirei-o, pois, finalmente há dias do fundo da mesinha de cabeceira onde jouve esquecido por não sei quanto tempo. Passeei-o comigo nalgumas cirandas por aqui, por ali para acabá-lo de ler e, confesso, temi por aí algum embaraço em no abrindo na esplanada ou no jardim. — Que pensará quem está ou passa ao ver este maduro, lendo o título «A Arte de Amar»?… — Foi o que pensei.


 




A Arte de Amar / OVÍDIO . — 2.ª ed. — Mem Martins : Europa-América, 1998. — 121 p.; 18cm. — Livros de Bolso Europa-América, 84. Com Afrodite e Pan [Pã] invertidos na capa.

6 comentários:

  1. "..leva-a ao baile mesmo que não saiba mexer os pés.."
    Na antiga Roma havia bailes de homens a dançar com mulheres ?

    Só "ouvi" agora a Ovídio.

    Cumpts.

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  2. Não havia? De homens bailando com mulheres…
    Onde foi buscar que não? Só o agora «ouço» de si.
    Cumpts.

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  3. Na Roma antiga as mulheres não saiam de casa para ir a bailaricos.
    Podia haver "odaliscas" escravas a presentear nas libações, mas não propriamente para dançar com os homens.
    Não me lembro ter aprendido ou lido sobre bailaricos na antiga Roma
    Cumpts.

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  4. Acredito. Não sabia tal.
    Devemos estar perdidos na tradução.
    O texto latino é Fac saltet, nescit siqua movere manum (Remedia Amoris, v. 334). Ou seja fá-la dançar quando não souber mover uma mão; quando muito leva-a a bailar…, no sentido de convence-a a bailar / dançar… que é diferente de levá-la ao baile.
    E do movere manum deduzo que a dança seria mais de braços que de pernas.
    Cumpts.

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  5. Bom, lendo Remedia Amoris cai para o lado sem dançar.
    ahahah

    Obrigado pela oportunidade de ir tentar traduzir Remedia Amoris que não conhecia completo.
    Cumpts.

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  6. Tradução com pé de chumbo.
    Obrigado eu!
    :)

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