Foi na quinta-feira. É sempre. O que era e já não é, é a tradição antiga:
[…] O Dia da Espiga!.... Quando eu andava na escola primária, só havia aulas de manhã. À tarde levávamos um farnel e íamos com a professora apanhar a espiga. A espiga era um raminho que levava: papoilas, um bocadinho de ramo de oliveira, espigas de trigo, malmequeres amarelos e malmequeres brancos. Depois fazíamos um raminho com um pedaço de cordel que ficaria pendurado em casa durante um ano. E assim se ía substituindo o ramo, ano após ano. Cada componente tinha um significado: papoilas — saúde, vida; espigas — pão, fartura; oliveira — paz, harmonia; malmequeres amarelos — dinheiro, ouro; malmequeres brancos — dinheiro, prata. Esta tradição é muito antiga. Segundo sei chegou a ser feriado. Depois, para acabar o dia em cheio, fazíamos um piquenique. Durante muitos anos apanhei a espiga, mas hoje já ninguém se lembra.
Porém, o mote que deu introdução à memória destas coisas que já se ninguém lembra era a…
Adelina Fernandes a cantar uma canção de revista [Cabaz de Morangos], com uma voz bem timbrada e alegre. Lembro-me muito bem desta canção, cantada pela minha mãe.
Adelina Fernandes — O Dia da Espiga (da revista «Cabaz de Morangos»), 1926.
Gravação de 1926 no Teatro de S. Luiz, in RDZ — Radiodifusão Zonofone, 9/V/24.
Da tradição antiga ficou dito nas citações acima. Da tradição moderna, é como vai agora…
São as citações o comentário da Sr.ª D.ª Eduarda Gaspar à publicação do antifascizóide Sr. Vaquinhas, um oprimido da censura ainda agora, hoje, em cinquentenária libardade. — Há ironias do cara… ças!… — Mas, não remonta a revista Cabaz de Morangos a Setembro de 1926, o ano da Revolução Nacional?!… (Antes da seguinte…) — Pois a culpa há-de ser de Salazar, do salazarismo, do fascismo ou, do que seja!… E assim, lá vem o tal sr. Vaquinhas a dizer da cançoneta que teve como propósito principal a propagação dos ideais nazistas do Integralismo Lusitano, nos quais a Ditadura Militar e o Estado Novo iriam assentar as suas bases ideológicas.
Ideais nazis do Integralismo Lusitano?!… — Que raio de ideia!…
Há um ano e tal, é curioso, dizia ele da mesmíssima cantiga sòmente, e já não era pouco (embora fosse mero papaguear…), que teve como propósito principal exaltar o lirismo rural e fazer as delícias da ditadura militar.
Ora que de exaltar o lirismo rural que fazia (dizem…) as delícias da Ditadura Nacional de 1926, à propaganda dos ideais nazistas &c. é um salto que nem lembraria ao diabo! — Mas, bem! Há doidos para tudo! Até no Dia da Espiga que é a quinta-feira da Ascenção bem ao modo português.
Tornando à cantiga da espiga, a outra gravação é a que se segue:
Justina de Magalhães — Canção da Espiga (da revista «Cabaz de Morangos»), 1926.
Gravação de 1926 no Clube da Estefânia, in RDZ — Radiodifusão Zonofone, 9/VIII/22.
Da tradição ao disparate, sobra a música, que é de Alves Coelho, e os versos, que são de Silva Tavares, simples canção de revista à portuguesa.
Oioai
Esta vida é uma cantiga
E este dia de alegria
Vale um ano de afliçãoOioai
Porque este Dia de Espiga
É o arauto do dia
Em que o trigo há-de dar pãoJorra o vinho dos pichéis
Para os lábios das moçoilas,
Mais vermelhas que papoilas
Côas larachas dos ManéisHá merendas pelos prados,
Gargalhadas pelo ar
E à beirinha dos valados,
Ouve a gente murmurar:Maria, são teus olhos azeitonas!
Cachopa, são teus lábios qual cereja!
E os teus seios, cachos de uvas que abandonas
À vindima desta boca que os deseja!...Tomam todos os caminhos
um sabor de romaria,
e até mesmo os pobrezinhos
fingem de ter alegria...E, na volta, já sentindo
que foi tudo um sonho em vão,
inda há ecos, repetindo
pelo espaço esta canção:Maria, são teus olhos azeitonas!
Cachopa, são teus lábios qual cereja!
E os teus seios, cachos de uvas que abandonas
À vindima desta boca que os deseja!...
Mais um contributo inestimável para a CULTURA Portuguesa...
ResponderEliminarO que já fomos, e no que nos tornámos!!! Alguns de nós merecíamos (mereciam?) melhor.
De qualquer modo, um hino ao Portugal dos meus Pais que me fez desenterrar do baú das memórias enevoadas pelo tempo os dias felizes em que ouvia a minha Mãe a cantarolar (e nada mal, por caso) essa bela -também por simples - canção!
respeitosos cumprimentos!
A pressa é no que dá! Peço desculpa pelos erros ortográficos... Ela há dias...
ResponderEliminarNão vi erros. Eu é que os dou, segundo a cartilha dos últimos entendidos…
ResponderEliminarAbraço.
Mera recordação. O caso é que a riqueza hoje é vista noutras coisas e a verdadeira noção do valor delas é uma raridade, quando não um absurdo.
ResponderEliminarGrande abraço