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sexta-feira, 10 de maio de 2024

Fotografia para rima óbvia

Encerro dos toiros, Vila Franca de Xira, 195…(A. n/ id — © Editions Lumière et Beauté, in Col. Fundação Portimagem)
Aguadeiras (Vindima no vale do Douro), Portugal, 195…
A. n/ id — © Editions Lumière et Beauté, in Colecção da Fundação Portimagem.


 





Deſcalça vai pera a fonte,
   Leonor pella verdura,

   Vay fermoſa, & naõ ſegura.


Leva na cabeça o pote,
   O teſto nas maõs de prata,
   Cinta de fina eſcarlata,
   Sainho de chamalote:
   Traz a vaſquinha de cote,
   Mais branca que a neve pura,
   Vai fermoſa, & naõ ſegura.
Deſcobre a touca a garganta,
   Cabellos de ouro entrançado
   Fita de cor de encarnado,
   Tão linda, que o mundo eſpanta:
   Chove nella graça tanta,
   Que dà graça à fermoſura,
   Vai fermoſa, & naõ ſegura.


Rimas de Luis de Camoẽs, Princepe dos Poetas Portugueses; Primeira, Segunda, e Terceira Parte. — Lisboa : na Officina de Antonio Craesbeeck de Mello, Impressor da Casa Real, 1666-1669, t. 3.º, f. 59 [i.é, 99].


6 comentários:

  1. Do tempo do Camões só mudou a touca e, talvez, a vasquinha de cote.
    Na Província da Guiné nos anos de 1960/70, descalças e peitos ao léu sem toucas ou vasquinhas de cote.

    Cumpts.

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  2. A touca não sei. O lenço sob, ou sobre, a rodilha, não descobre ele como touca a garganta?
    A vasquinha, saia de muitas pregas, ela lá está, de cote, necessàriamente, porque mulheres não usavam bragas como homens.
    Não se compare a Guiné. Era (mas talvez já não seja) outro mundo.
    Cumpts.

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  3. Sim, a Guiné era outro mundo.
    Em Bafatá quem fosse apanhado descalço, talvez maiores de 14 anos, pagava uma multa que era a compra de chinelos e sandálias plástico para mulheres e homens.

    No mundo de cá, não me lembro se havia multa para quem andasse descalço.

    Cumpts.

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  4. A lei do Pé Descalço remonta a el-rei D. Luiz. Não surtiu até c. 1928, quando foi forçada por postura municipal e dos governos civis.
    Em 28, justamente, houve n' «A Rambóia» a rábula do «Pé Descalço» pela Hosrtense Luz, que ilustrava o sentimento popular ante o caso:

    A própria Hortense Luz com outros do teatro levaram a cabo uma campanha para calçar os gaiatos cá do bêco
    O «Sempre Fixe», semanário humorístico brincou com isso:

    Um atavismo sério! Ainda em 47 foram mais de forçar estas leis, a par duma campanha nacional de vacinação contra o tétano. Não raro se viam homens pelos caminhos com as botas ao ombro que calçavam ao chagra à vila.
    Cumpts.

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  5. Então quer dizer que a fotografia de 195 e tal é enganosa. As pessoas gostavam de andar descalças, calçado não lhes devia faltar.
    Talvez seja assim, as chinelas, ou o calçado, estavam reservadas para ir à missa ao Domingo.

    Cumpts.

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  6. Isso do «enganoso» e do «calçado não lhe devia faltar» tem uma certa ressonância, se bem o entendo. Mas em geral, sim, é de crer que as pessoas haveriam geralmente qualquer coisa para calçar. O caso é que, somado ao atavismo, o calçado era coisa de prezar e daí o zelo com esse atavio. Tal como hoje não se vai ataviado para trabalhos do campo — ou pera a fonte — nos anos 50 também não. Portugal era em 1950, como sabemos, um país rural, tal como a maior parte do mundo.
    Uma coisa, pois, com séculos e bem razoável de entender. Todavia a cantigueirice de subúrbio hoje…

    Cumpts.

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