
Aguadeiras (Vindima no vale do Douro), Portugal, 195…
A. n/ id — © Editions Lumière et Beauté, in Colecção da Fundação Portimagem.
Deſcalça vai pera a fonte,
Leonor pella verdura,
Vay fermoſa, & naõ ſegura.Leva na cabeça o pote,
O teſto nas maõs de prata,
Cinta de fina eſcarlata,
Sainho de chamalote:
Traz a vaſquinha de cote,
Mais branca que a neve pura,
Vai fermoſa, & naõ ſegura.
Deſcobre a touca a garganta,
Cabellos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda, que o mundo eſpanta:
Chove nella graça tanta,
Que dà graça à fermoſura,
Vai fermoſa, & naõ ſegura.Rimas de Luis de Camoẽs, Princepe dos Poetas Portugueses; Primeira, Segunda, e Terceira Parte. — Lisboa : na Officina de Antonio Craesbeeck de Mello, Impressor da Casa Real, 1666-1669, t. 3.º, f. 59 [i.é, 99].
Do tempo do Camões só mudou a touca e, talvez, a vasquinha de cote.
ResponderEliminarNa Província da Guiné nos anos de 1960/70, descalças e peitos ao léu sem toucas ou vasquinhas de cote.
Cumpts.
A touca não sei. O lenço sob, ou sobre, a rodilha, não descobre ele como touca a garganta?
ResponderEliminarA vasquinha, saia de muitas pregas, ela lá está, de cote, necessàriamente, porque mulheres não usavam bragas como homens.
Não se compare a Guiné. Era (mas talvez já não seja) outro mundo.
Cumpts.
Sim, a Guiné era outro mundo.
ResponderEliminarEm Bafatá quem fosse apanhado descalço, talvez maiores de 14 anos, pagava uma multa que era a compra de chinelos e sandálias plástico para mulheres e homens.
No mundo de cá, não me lembro se havia multa para quem andasse descalço.
Cumpts.
A lei do Pé Descalço remonta a el-rei D. Luiz. Não surtiu até c. 1928, quando foi forçada por postura municipal e dos governos civis.
ResponderEliminarEm 28, justamente, houve n' «A Rambóia» a rábula do «Pé Descalço» pela Hosrtense Luz, que ilustrava o sentimento popular ante o caso:
A própria Hortense Luz com outros do teatro levaram a cabo uma campanha para calçar os gaiatos cá do bêco…
O «Sempre Fixe», semanário humorístico brincou com isso:
Um atavismo sério! Ainda em 47 foram mais de forçar estas leis, a par duma campanha nacional de vacinação contra o tétano. Não raro se viam homens pelos caminhos com as botas ao ombro que calçavam ao chagra à vila.
Cumpts.
Então quer dizer que a fotografia de 195 e tal é enganosa. As pessoas gostavam de andar descalças, calçado não lhes devia faltar.
ResponderEliminarTalvez seja assim, as chinelas, ou o calçado, estavam reservadas para ir à missa ao Domingo.
Cumpts.
Isso do «enganoso» e do «calçado não lhe devia faltar» tem uma certa ressonância, se bem o entendo. Mas em geral, sim, é de crer que as pessoas haveriam geralmente qualquer coisa para calçar. O caso é que, somado ao atavismo, o calçado era coisa de prezar e daí o zelo com esse atavio. Tal como hoje não se vai ataviado para trabalhos do campo — ou pera a fonte — nos anos 50 também não. Portugal era em 1950, como sabemos, um país rural, tal como a maior parte do mundo.
ResponderEliminarUma coisa, pois, com séculos e bem razoável de entender. Todavia a cantigueirice de subúrbio hoje…
Cumpts.