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domingo, 21 de abril de 2024

De ardências


« Há nas grandes transformações políticas ou sociais uma hora inesquecível de euforia: é aquela em que se celebra o triunfo como termo de todas as coisas injustas e erradas do passado e ponto de partida para as grandes realizações futuras. Na posse de uma doutrina, os triunfadores pensam que a vida vai agora correr por novos trilhos, amoldar-se a modelos novos e enquadrar-se inteira nos princípios redentores.
« A própria natureza espectacular da revolução, o seu fundo profundamente emocional, os vivas, os gritos e os cânticos criam na mentalidade dos revolucionários a crença de que tudo vai daí por diante processar-se num clima de alta e excitante beleza mediante a sucessão de uma série de rápidas mutações em que  o mal cederá o passo ao bem e todas as misérias e crimes serão varridos da face da Terra.
« Ai de nós! Mal se recolheram as bandeiras e calaram as fanfarras, os chefes encerram-se nos gabinetes, a máquina do Estado retoma o seu andamento pesado e austero e pouco a pouco o delírio da vitória, as dores do combate, a paixão das ideias, a veemência dos propósitos reformadores, tudo isso entra a ser triturado nos cadinhos do Direito para originar a inevitável rotina.
« A rotina… E por mais que a palavra nos choque e até repugne, o certo é que encobre uma das mais fortes realidades de toda a vida social: a transformação das grandes paixões e das avassaladoras ideias em princípios de comezinha aplicação quotidiana, capazes de se transformarem em hábitos, de se traduzirem em ritos e de assim, através de meios irracionais, se generalizarem e transmitirem no tempo e no espaço até serem aplicados por mero automatismo.
« Os homens não podem viver a vida inteira na excitação e no delírio; é condição humana que só perdure aquilo que se acalma e regulariza. O resto passa como labareda fugitiva.»


Marcelo Caetano, na conferência promovida pelo Gab. de Estudos Corporativos, realizada na Soc. de Geografia, em 23/III/1950, sob o tít. «Posição actual do Corporativismo Português», in Páginas Inoportunas, Bertrand, Lisboa, [1958], pp. 116-117.



Ardeu Portugal.


 


Peter Glay, «Le MFA guidant le Peuple Portugais [Comic Strip]», 1975. Óleo [s/ tela?], 96 x 78 cm.
Peter Glay, O M.F.A. guiando o Povo Português, segundo Delacroix, 1975.
Óleo [s/ tela?], 96 x 78 cm, in Réalités, 356, Setembro de 1975.

6 comentários:

  1. Desconhecia o Óleo (s/tela?) da imagem, imitando Delacroix, mas sem os milhares de mortos.
    Noto que falta Spínola e o não ter ficado pedra sobre pedra é sentido metafórico em relação ao derrube do governo do Estado Novo.

    Cumpts.

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  2. Deve ser tudo metafórico menos as guedelhas do M.F.A. a careca do Rosa Coutinho.
    Ah, e a falta do de Spínola, que em 75 tinha cavado.
    Cumpts.

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  3. Pois, há coisas do diabo.

    Cumpts.

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  4. Foice. E acho que já não volta...

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  5. Não volta. Ecoa-lhe a memória. Só até lha esquecerem.
    Cumpts.

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