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sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Ritos

 Comprei um rato desses sem fios. Coisa para um conto de réis, já com duas pilhinhas e tudo. Pareceu-me um preço muito em conta…
 Na caixinha achei três folhetos em letra miùdinha que são todo um evangelho:



  • um, sobre o comprido (80 x 10 cm), de instruções só com bonecos, mais uns textos nas mais desvairadas línguas além do Português; dizem da exclusão de garantia por mau manuseamento, fazem declaração de conformidade (ámen!) e dão nota de protecção ambiental (duas vezes ámen! e uma benzedura) com remissão em forma de credo para as directivas e regulamentos que directivam e regulamentem a nova salvação das almas e do planeta sob pena de pecado ambiental — os consumidores estão obrigados a…! —, no caso de não sujeição ao rito da reciclagem.


  • outro, desdobrável até ao tamanho A3, reza só em línguas bárbaras, inclusive em brasileiro, sobre serviço e assistência, com: a) informações importantes num paràgrafozinho introdutório; b) informações gerais de segurança (de certo também importantes, mas só a seguir às do paràgrafozinho introdutório) transmitidas em modo imperativo — utilize…, nunca utilize… nem exponha…, proteja…, mantenha…, elimine…, nunca deixe… nem submeta…, nunca introduza…, nunca abra…, nunca tente… — ou… e; c)  Aviso — Pilhasencimado por uma imagem do São Todos-os-Perigos ⚠️ com, em nota final, uma alegoria ao santo pai a tirar o brinquedo ao menino porque pode fazer mal; parece-me esta última imagem alegórica muito bem — nada, pois, de meninos brincarem com pilhinhas!




  • o terceiro é como se segue; manda ritos de romagem fúnebre (quando se o rato finar) à capela mortuária do vendedor ou peregrinação sepulcral à déchèterie, mandamentos estes na língua franca da Diplomacia internacional até aos anos 70 do séc. XX, acompanhados de iluminuras dalguns santinhos da reciclagem segundo o livro da Raccolta Carta, cap. 22, v. 1.0.

    Remarque relative à l'élimination des déchets et de la proteccion de l'environnement :




 A somar ao descrito, entalado na caixa, um pedacinho de plástico com ranhura interior recortada para se a poder enfiar e dependurar a preceito no escaparate da capela comercial com todo o rigor do apostolado litúrgico que acompanha o produto — o dito rato sem fio, bem entendido; — o plàsticozinho vem religiosamente prensado com um baixo relevo a rezar Raccolta plastica, cap. 01, iluminado da imagem sagrada da santa reciclagem. ♳ 


 E, bem!… Porquê esta ladainha agora à conta duma coisa tão corriqueira como a compra e venda dum cangalho informático?
 Pois, porque é exemplo do frenético missal que acompanha toda a cangalhada que se acha à venda, não apenas a informática, e que venha embalada em caixa, pacote ou saco. Escapam ainda a esta consagração uns bens avulsos como laranjas, alhos ou cebolas, mas até esses já estão na calha, para salvação das nossas almas e do mundo. Os bispos deste culto lançaram faz tempo um interdito sobre os sacos, com pena de excomunhão de quem os ofereça, nem que seja como prenda de Natal. Por isto estamos como quando se sai da farmácia; toda a gente vê o remédio que lá vem: ritos de apóstolos que agitam com fervor um evangelho de lixo, reciclado.
 Sem obrigação de tanta missa, ficava o rato por metade do tal conto de réis.

11 comentários:

  1. Imagine-se quantas vezes os fabricantes responderam em tribunal, para haver extensa literatura a avisar um simplório procedimento.
    Conheço casos que o cliente vai comprar uma maquineta para cozinha paga a pronto pagamento, mas tem de assinar uma nota de compra com uma série de avisos no verso desse documento.
    Isso de haver a garantia obrigatória de dois anos é bem difícil uma substituição.
    Aquela de 'se encontrar mais barato devolvemos a diferença' nem com serenatas acontece.
    Cumpts.

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  2. Já me fartei de rir.
    Lembrou-me que é o mesmo que ir à loja “Agrafes” comprar uma lapiseira e à saída entregarem uma factura/recibo com 120cm de comprimento. Ainda para mais, impresso naquele papel térmico que devia ter sido proibido há muito, já que ao fim de uns dias em cima de uma secretária, tudo o que lá está escrito desaparece por artes mágicas, obrigando a quem não quiser arriscar por questões de garantia, a ter de gastar tempo a digitalizar o “lençol” e eventualmente gastar mais papel e tinta para imprimir o dito.
    Cumprimentos.

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  3. E agora que as garrafas de plástico têm a tampinha presa ao gargalo? Parece um cordão umbilical, tão lindo que é! Dou-lhe um puxao forte e a tampa fica desumbilicada da garrafa. Quando termina o líquido, a garrafa vai para a reciclagem sem a tampa. Faço isto para os da seita econazi perceberem que a invenção umbilicar não lhes adianta nada.

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  4. Os «amaricanos» é que fazem da litigância judicial um negócio, como fazem de tudo. Está-lhe no sangue. Connosco a Justiça é coisa de despachosalva a divina, que é doutro fôro: assim, fazemos dela um tropêço como fazemos com tudo o que seja coisa de despacho. Daí que todos estes avisos de mais não sirvam entre nós que de adorno, fogo de vista geralmente sem consequência; dão jeito para enganar tolos e escapar a alguma multa, quando muito.
    Cumpts.

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  5. Sou dos seus e mais: o rito das garrafas no vidrão, do plástico no plasticão &c. mais não é que dádiva de matéria-prima aos industrais do respectivo negócio, e com mão-de-obra graciosa na separação do trigo e joio. Mas é precisa cautela por causa dos zelotas de turno a coagirem-nos com suas directivas e regulamentiras; os fariseus da religião do lixo não tardam em desmascarar-se de bufos da Stasi e a coisa há-de ficar pior do que com os animéis da E.M.E.L.
    Cumpts.

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  6. :)
    É tudo uma palhaçada, é o que é. Mas não saímos disto.
    Cumpts.

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  7. No RU é bem pior que por cá e nos Países Baixos também.
    O lixo sempre foi um grande negócio, em Itália está entregue a máfia que faz como bem lhe apetece, como aconteceu há anos com a greve na recolha durante semanas.

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  8. Sim. Há-de ter que ver com o puritanismo protestante daquela gente. Mas acaba por arribar aqui, tal a adoração por essa estranja neste cotovelo das Hespanhas.
    Cumpts.

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  9. Não me parece ser por razões religiosas, toda a zona sul dos Países Baixos é católica e os britânicos católicos e anglicanos, quase, com um "papa" real.
    Os britânicos e os neerlandeses até são bem porquinhos mas têm um sentido apurado de bem estar que não liga com conspurcar a via pública.
    Eles não criminalizam vomitar na via pública mas o mesmo não acontece em urinar, cuspir ou deitar lixo ao chão que é punido com grande multa.

    Cumpts.



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  10. Não criminalizam o vómito na rua porque sabem bem que são todos uns grnades bêbados e precisam de se aliviar rapidamente na rua!

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