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terça-feira, 8 de agosto de 2023

De talões


 Pela lógica um talão será um talo, só que avantajado. Mas não. Nada disso. É antes uma tirinha de papel que sai da caixa registadora. Uma coisinha mínima e, a final, sem importância por aí além. Bem que lá terá o seu custo, como tudo, e o friamista onde às vezes a senhora vai ao queijo e ao friame bem lhe custa dá-lo às frèguêsas. Numas esquece-se, noutras faz-se assim esquècido, mas isso também não é caso…


 O caso é que o papelucho, o tal talão, bem entendido, dá-me jeito, já para conferir a despêsa, já para no verso fazer o rol das compras àmanhã, pelo que toma mais valor do que o que lhe o friamista dá, porque êle só lhe conta o custo.


 Meu pai também lhe dava jeito. Quando puseram os euros, fazia contas às compras no verso dos talões da caixa, em euros e em dinheiro (i.é, escudos); escrevia assim mesmo dois títulos — «euro» e «dinheiro» —, onde assentava por baixo o câmbio da despêsa e assim tomava noção do valor do que gastava.


 Eu, como digo, dou-lhe uso para arrolar as próximas compras porque isto a cabeça não dá para tudo e quando me cumpre fazê-las sem lista esquece-me a metade e compro a outra metade tôda ao contrário do que devia. Uma coisa prática, por tanto.


Talão do super (verso), Portugal — MMXXIII
Êste uso prático dos talões da caixa registadora é só o meu caso particular. Alguns pagãos agora aí, porém, tão devotos do culto de Gea — ou da preservação do planeta como dizem os jornalistas — acham-lhe porém elevada virtude se usarem o verso dos talões para evangelizar o comum cliente no rito da coisa e tolhê-lo de, de outro modo, poder pecar com róis de compras ou outros escritos blasfemos. É isto assim como estarmos postos em sossêgo e passar por nós um dêsses modernos automóveis a pilhas; sente-se-lhe cheiro de santidade…


 Pois tal é o caso do Lido. (Já 'gora faço um parêntesis: é isto mesmo assim, Lido, porque não há outra maneira de pronunciar em português um nome de sòmente quatro letrinhas em que três delas são consoantes; é uma possibilidade sonora só ao nível do grunhido; ora como não tenho o português por idioma de grunhos…)


 Porém êle há outros, não só o Lido. Normalmente multinacionais do género ou nacionais de nomeada — grandes superfícies, como dizem os jornalistas; catedrais do consumo, também dizem, e parece-me esta muito bem, porque no fundo são instituìções religiosas, como está bom de perceber…


 Sucede no fim de tudo que o pobre do friamista não é nada disto. Êle faz meramente as contas aos talões que gasta a imprimir na frente e que deixa de imprimir no verso sem mais devoção cristã ou pagã nem recados evangélicos aos frèguêses. Negócio para si é negócio, não há-de misturá-lo nem pôr-lhe água benta. Com êle, contas são contas, e as contas são simples, não fôssem elas de merceeiro.


 Eu, por mim, prefiro. É mais sincero e acaba-me por dar mais jeito. Mas tem é de se lhe pedir o talão.


*  *  *


Mercearias e cereaes, J. Martins & C.ª (M. Novais, s.d.)
Mercearias, cereaes, azeites, J. Martins da Silva & C.ª, [s.d.]
Mário Novais, in Biblioteca d' Arte da F.C.G.


 


(Revisto às 5 e 10 da tarde.)


20 comentários:

  1. Anónimo9/8/23 01:01

    O talão ou a factura simplificada ?

    Cumpts.

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  2. José Leite9/8/23 07:51

    Aproveito este oportuno post seu, a propósito de talões, para comentar o seguinte:
    "A bem" da ecologia os grandes fornecedores (energia, água, Tv por cabo, etc.) desataram a substituir o envio físico das facturas por CTT, e a enviar por e-mail. Quem quiser o papel tem de pedir ... Até aí, até aceito.
    Só que não fomos beneficiados na poupança substancial dessas empresas em correios, papel, tinteiros, impressoras, etc. Pelo contrário, servem-se do nosso e-mail para lguns deles (caso do meu fornecedor de TV por cabo e internet) para nos "bombardear" quase diariamente, repito quase diariamente, com e-mails de propaganda aos seus produtos, filmes, futebóis, etc. Não posso bloquear o endereço, a fim de não receber publicidade não solicitada, caso contrário não receberei a facturinha ... e eles sabem disso. Dirão alguns que "é a democracia a funcionar" ...
    Cumprimentos
    José Leite

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  3. Figueiredo9/8/23 10:58

    O «...evangelizar...» que refere tem um objectivo, fazer com as pessoas se fartem da propaganda enganosa que lá vem impressa no verso e mudem para os talões digitais, mas não resulta, porque para isso você terá que instalar uma aplicação digital no seu telemóvel inteligente («smartphone» em Inglês) que por sua vez – após a instalação – fica habilitada a aceder e utilizar diversos dados e ferramentas do dispositivo, como por exemplo, as fotografias, mensagens, registo de chamadas, localização, identidade do aparelho, e a tirar fotografias e efectuar gravação de vídeo através da câmara do telemóvel assim como proceder à gravação/recolha de áudio pelo microfone.

    Só quem realmente não tem noção é que instala tal aplicações no seu telemóvel inteligente.

    Note-se que a digitalização não é um mal, até é útil e mais prático podermos aceder a uma quantidade de documentação pela via digital, o problema é que essa via só pode ser aplicada se o Estado criar o seu próprio sistema informático, as suas próprias aplicações digitais, que não violem a privacidade do usuário como acontece e obrigasse os privados a criar aplicativos que não recolham dados nem acedam às funcionalidades do dispositivo.

    Nenhuma aplicação para telemóvel precisa de aceder a qualquer tipo de dados ou funcionalidades do dispositivo para funcionar.

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  4. Figueiredo9/8/23 11:05

    Hoje existe uma ferramenta extraordinária para expor esse tipo de situações, o Livro de Reclamações digital, onde o Senhor desde o conforto da sua casa pode redigir uma exposição para resolver o problema que o afecta causado por terceiros.

    Experimente que vale a pena, não só nessa questão que o importuna como em qualquer outra da qual venha a sair prejudicado.

    O Livro de Reclamações digital não dá hipótese e deixa as empresas criminosas, que actuam de má-fé, numa situação complicada, porque antes as pessoas desistiam de expor e fazer valer os seus direitos porque não estavam para estar ali a pedir o Livro de Reclamações - que por vezes era negado - ou a ter de estar a escrever no local.

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  5. José Leite9/8/23 11:12

    Muito grato pela sua gentileza, sr. Figueiredo
    Cumprimentos
    José Leite

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  6. Eu sou como o Senhor seu Pai. Antes de comprar converto para Escudos para saber o preço real.
    A vodafode cobra-me pela factura em papel. Estou-me cagando. Se houver caca, o preto no branco é que vale.
    Não tenho algum smartfone; só tenho stupidfones.
    Quando me ligam por qualquer prurido (para eles) digo logo que escrevam as comichões. Nada aparece.
    Um paíseco de bosta — que saudades do preto mamadou baila ba que até era devedor ao fisco.
    Cumps

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  7. Essa de pedir por escrito é boa. Hei-de aplicá-la.
    Tôdos êsses adeantados empresariais cobram a factura em papel, como se fôsse um saco plástico. Como se não tivessem o dever de a dar ao cliente. Valem-se de electrões para verter o custo duma folhinha impressa sôbre o cliente. E espèculam margem de no prêco como se fôsse mais uma venda. Miseráveis!
    Isso dos telefoninhos e tudo o que são agora smarties é a teia em que nos envolvem. Em que nos amorfamente enredamos. Mas a P.I.D.E. eram os outros…
    Cumpts.

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  8. É uma questão muito bem posta. Esquèceu-me ela, todavia. Inteiramente. Como só uso os talões para contas de dona de casa e para róis, como disse, essa qualidade do talão boa para fiscais das Finanças passou-me.
    Aliás, foi justamente para pôr o contribuinte ingénuo a contribuir ainda mais para o esbulho geral que o simples talãozinho de caixa foi graduado há uns anos em factura por artes do Diário oficial e com direito a sorteio de cenoura tipo Totoloto.
    Não é como lidar com a gente. De maneira que quando me entoam como quem gagueja se é concontribuinte, respondo sempre baixinho como para não levantar suspeitas: — Fica só entre nós!

    Cumpts.

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  9. Oportuno o seu comentário.
    De feito, o dízimo ecológico por «amor a Deus» ou à deusa do planeta fica com êsse novo «clero» auto-eleito.
    Há coisas que nunca mudam ou sequer mudam de feição. Peor a cada dia, quando morreu a moral e se já perdeu a vergonha, como é o caso.
    Valha-nos o tal livro das lamentações, se se prova realmente eficaz. Hajamos fé!…
    Cumpts.

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  10. O caso parece-me mais complexo, mas o resultado será à mesma a saturação da gente e a cedência, a final, a essa panóplia de meios subreptícios que nos invadem e perscrutam a vida pessoal.
    A propaganda explícita e saturante à beatitude
    destas grandes empresas nas causas promovidas pelo Poder e pela burocracia é em muito para lhe serem reconhecidas certificações, licenças e privilégios e/ou para se livrarem de multas e seguirem no negócio sem contratempos burocráticos. Isto, pondo em termos muito, muito simples.
    No fundo, o Poder e as grandes andam bem entendidos e a gente é mero joguete para si, para êles.
    Cumpts.

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  11. Será que o talão fica mesmo mais ecológico com tanta tinta esparramada em cima do papel?

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  12. É como o litro. Interessa é apregoar o peixe.
    Cumpts.

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  13. Também, e que dizer, à 'a continha é pra já' no restaurante feita no papel toalha.

    E, como não foi feito desconto, lá se vai, ou melhor dizendo lá fica o IVA no armazém.

    Cumpts.

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  14. Entendo. Mas por mim, fica melhor assim que na thesouraria da Fazenda.
    Cumpts.

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  15. Manuel da Rocha21/8/23 12:17

    Mão vale de nada.
    É que as operadoras de serviços básicos (internet, tv, água, gás e electricidade) possuem aqueles 50000 alíneas que as pessoas subscrevem ao aceitar a factura electrónica (e a ERC permite a cobrança de, até, 4 euros mensais, caso o cliente queira a factura física, enviada pelos ctt). Várias dessas alíneas incluem o envio de publicidade. MEO e NOS (que conheço ambas) aproveitam o envio da factura electrónica, para os chico-espertos que não colocaram o certo nos 3 quadrados seguintes, impedindo a operadora e enviar promoções de terceiros, para enviar a "newsletter", em que promovem tudo e mais alguma coisa, que não está ligado aos serviços subscritos. Já reclamei, de várias formas, e a resposta foi sempre a mesma "a empresa cumprem as normas de privacidade e marketing". O mesmo para quem tem cartões telefónicos daquelas operadoras de pré-carregamentos, em que as operadoras incluem o "envio de publicidade de terceiros", que a Wizink, seguros de saúde e empresas de créditos, tanto usam para "recrutar clientes".

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  16. Manuel da Rocha21/8/23 12:25

    Outro problema é quando precisa de ir trocar algo.
    Numa loja dessas de multinacionais, tenho a app, que permite optar por receber só o talão electrónico. Um dia, com a namorada, fui comprar uns produtos, usei a app mas, devido a falha do serviço de internet, o talão não ficou completo (faltou o código QR). 3 dias depois, fui lá para trocar um dos produtos, não pude trocar. Sem o talão não podem fazer a troca. Como o talão digital não dava para passar na máquina, para validar que a compra era aquela, não me trocaram o produto. Tive de fazer uma reclamação e um pedido de segunda via do talão (que tinha todos os dados, na app, menos o QR), que demorou 18 dias. Quando corrigiram a falha, dirigi-me lá, queriam descartar-se, pois só tinha 7 dias para poder trocar e receber o valor. Só depois de pedir o livro de reclamações, o chefe lá aceitou devolver-me os 144 euros, como se estivesse a fazer um favor do tamanho do mundo.
    Desde o dia seguinte, renunciei ao talão electrónico, apaguei a app, sendo que já realizámos algumas devoluções e trocas, usando os papéis, em que ninguém impôs obrigações.

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  17. Cá está! Bem dizia outro leitor. O papel fala mais alto. Os vindouros dirão se o digital não passará, a final, dum monumental apagão.
    Cumpts.

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  18. Não sofro do problema, portanto não saberei dizer. Todavia, numa contenda doutro género com a minha companhia dos telefones, só se resolveu com reclamação manuscrita no livro autêntico, o de papel. E foi a conselho do próprio empregado vendo a minha razão, quando levava já um par de meses em que ele por canais internos tentava sem êxito que as instâncias de sua empresa me resolvessem o caso. Assim, de sexta para segunda resolveu-se que foi um regalo.
    Cumpts.

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  19. Pedro Baptista17/9/23 19:09

    Certeiro! Eu também utilizava o papel do "Lido" para as minhas listas futuras de compras...
    Estes "evangelizadores" muito devotos esquecem-se, no entanto, que reutilizar é um dos "3R" da regra dos gurus da ecologia. Reutilizar e depois reciclar é melhor que só reciclar.
    Abraço

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  20. Cheira-me cá que aproveitaram para se mostrarem virtuosos porque o cheiro de santidade ambiental lhe torna a vida mais sustentável: ou traz subsídio ou, no mínimo, os livra dalguma falha nalguma auditoria.
    A lógica que aponta está certa, mas não há-de ter sido por ela, cuido.
    Cumpts.

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