Nesta vida de turista, êste ano ligado à rede — ou apanhado na teia, que é mais correcto —, a dedilhar desabafos numa ardósia electrónica, perseguido de dentro dela e à saída pela agora chamada inteligência artificial.
Dois desabafos de nada com «Esta vida de turista!» em título saíram «Está (do verbo «estar») vida de turista!» Ainda agora, como escrevo êste parágrafo a explicá-lo, a raça desta inteligência artificial me emenda o primeiro título entre aspas para «está» (do verbo «estar»), que tenho de tornar a, de certo estùpidamente, eu, a emendar; e o segundo título em que aqui escrevo entre aspas «está» do verbo «estar» para mostrar o que me a inteligência artificial apronta a final em cada passo do que redijo, curiosamente, emenda-me ela, a inteligência artificial, ao contrário, mudando o «está» do verbo «estar» para «esta» que foi o que redigi, bem, à primeira e a dita inteligência artificial me pôs mal.
Ontem liguei para o hospital a marcar uma consulta à tia Mariana e atendeu-me uma cassette «eu sou a Lúsi, a assistente digital» com uma grande «conversa», a começar por «for english press five». Nem a martelar sucessivamente zeros, noves (agora emenda-me isto aqui «noves» para «Novaes») e cincos consegui chegar à telefonista. Tive de render-me a dizer à tal Lúsi balbuciar como um autómato, pelo telefone, à torradeira do outro lado da linha, as palavras «falar assistente; falar assistente». Cheguei até a tapar o nariz para me a voz sair como a do fundo do penico em que falava aquele cientista entrèvadinho que era muito inteligente e também muito artificial. Pus-me em bicos de pés ao fazê-lo, calculo, mas nisto é preciso a gente elevar-se, puxar dos galões até, nem que seja pela vaidade de salvar a honra à inteligência de carne e osso de que somos feitos.
La (agora não me emenda o «la» para «lá», está [esta] m… áquina de escrever — que bela inteligência!)…
Lá me atendeu uma assistente de segunda, de carne e osso como eu, e lá me agendou a consulta da tia por meio dum diálogo natural e, coisa muito saudável segundo as melhores inteligências, biológico.
Amanheceram algumas nuvens; correm de SO, de vagarinho. — Os algarvios vão de carro para a praia — diz-me a senhora.
Tenho de pôr esta gaita de lado. Tornar à [arre!] sêr animalógico, como o gato.

Inteligência animal, Algarve — (c) MMXXII
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