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quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Suspiros mudos, queixumes silenciosos

 



 Se os anjos cantam deve ser assim. E a partitura há-de ser de Bach.


 Não me canso de ouvir esta ária. Tôda a cantata. Ainda agora, com este dia escuro e chuvoso…
 Há um ano corria ainda a febre louca em que deu êste mundo… Pus-me de parte em Dezembro. O mês tôdo. Desterrei-me na província: Sol sempre radioso, tempo ameno, quis Deus, em Dezembro; pinhal em redor, paz, sossêgo. Na telefonia a emissora 2, companhia habitual a preencher os dias. Uma tardinha, já noite, antes de jantar ou por aí, um encanto: Bach, Mein Herze schwimmt im Blut, cantata BWV 199, Sabine Devieilhe.
 Sabine Devieilhe? BWV 199? Que sabia eu dêle?…
 De início não dei muita atenção, estava só com a rádio em fundo. Porém aquela voz celestial, a doçura do canto, o melodioso oboé, as pausas, a cadência, tudo… Encantei-me! Tomei nota no fim quando o locutor da rádio repetiu o título e… Passou-se.


 Seis meses depois, Junho, mesmo lugar, mesmo sossêgo, mesma companhia da rádio; soa-me outra vez na emissora a mesma cantata de Bach naquela voz celestial com a mesma desatenção inicial. E logo, dando-me conta — qual era a cantata? Qual o nome da soprano?
 Sabine Devieille; havia-lhe escrito mal o nome…


 Fica a ária n.º 2 completa, a alguém que aprecie. A cantata e tôdo o disco, dádiva do Céu, ouvem-se de graça.


 
Sabine Devieilhe, Stumme Seufzer, stille Klagen
(João Sebastião Bach — Cantata BWV 199 «Mein Herze schwimmt im Blut»)
Sabine Devieilhe, Raphaël Pichon, Orquestra Pygmalion, Bach e Handel, Erato/Warner Classics, 2021.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

A harpista


Cristina Pluhar — a Harpista, Maria (Sopra La Carpinese), 2010

Lisboa, 2022

 Espraia-se a miùdagem pelo jardim de ante o Lyceu de Camões. É natural. O liceu está esventrado das grandes obras que lhe fazem. Não fôra isso seria natural à mesma — espraiar-se a miùdagem do liceu pelo jardim. — O liceu é escola e o jardim sempre é melhor praia.
 Hoje estão sossegados. Não estão a reivindicar nem a activistar causa nenhuma, daquelas grandes, que apreendem do ensino oficial, da' redes sociais e das séries on demand. Nada, por conseguinte, de salvar as baleias — ou o planeta, que é causa ainda maior que das baleias. Nada de berrar fobiosamente contra preconceitos ou preconceituadamente contra fobias de todos o géneros. Nada! Sequer um parzinho de jarr@s de mão dada feitos pombinhos ali avisto. Sòmente vejo, digno de realce, um pequeno lilás tranjando todo de roxo, da cabeça aos pés. Tem o cabelo também tinto em roxo-azulado, a não destoar. Bebe qualquer coisa à porta do quiosque, de pé, atrelado na ponta da trela dum cão; nada tão trivial como uma bica, estou em crer. Muito menos um copo de tinto, valha-lhe Deus, se bem que pela côr do pêlo e dos trajos pareça haver derramado vários pela cabeça abaixo.


«Kilos Grafitti», Lisboa — © 2022

De galegos e alentejanos

 A Sara é uma marca galega e talvez dêle seja a muita atenção que dá às regiões de Portugal e a outros pormenores. Tem uma linha de lojas Sara Man para homens amaricanos. E tem uma linha de lojas Sara Home para homes alentejanos…
 Mandaram-me onte' lá comprar uma fronha e ainda bem que foi só, porque a almofada é à parte.


Fronhas e almofadas (Sara Home, 2022)
Fronha de almofada estampada de flores e folhas, in Sara Home, 2022.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Opus VI, n.º 1


Jorge Frederico Handel, Grandes Concertos, Opus VI, n.º 1 em sol maior (Allegro).
Marina Fragoulis & Dorian Baroque
Igreja da Epifania, Nova Iorque, 2015.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Portugal, 1973

1973APR23WILK0752cs.jpg
Combóio a vapor, Tua (prox.), 1973.
Martim Wilkins, in Base de dados de fotografia de Transportes.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

De cavalgaduras primazes

[Dez dias depois de investir um indiano como primeiro-ministro] Carlos II faz viagem especial para visitar [os] cavalos da rainha Isabel II (Caras — Famosos, 4/XI/2022)


 Ninguém diga que os ingleses perderam seu sentido de humor. Qualquer um proposto pelos comuns para governar a Inglaterra há imperativamente de se antes dirigir ao palácio para lhe o rei dar posse. Todavia há cavalos que impõem ser o rei a dirigir-se-lhes nem que seja só por especial visita. Nem o cavalo cônsul de Calígula foi tão importante.

Coincidência fabulosa, com milagre de Ourique e mais história pelo meio

Lendas de Portugal: Lendas Heróicas / Gentil Marques. — [Lisboa] : Círculo de Leitores, [1997]. — 428 p.; 23 cm. — Lendas de Portugal, 2



 É uma daquelas coincidências. Tirei um livrinho das Lendas de Portugal da estante para lhe proteger a sôbrecapa com polipropileno transparente. Ando aqui e ali a fazê-lo. Os amaricanos com aprêço por livros empenham-se em preservar da luz e do uso as sôbrecapas com que os publicam. Práticos que são têm até a coisa industrializada a ponto de venderem o artigo em rôlo para se cortar pelo comprimento certo e com uma tira adesiva pronta a ajustar como uma manga à medida da altura da sôbrecapa. Cá não no achei à venda, mas descobri que se vendiam rôlos de polipropileno de 70 cm de largura por 10 m de comprimento numa loja de decoração por um módico equivalente a 558$00 em dinheiro. Com o engenho dos meus 10 anos nas aulas de Trabalhos Manuais corto-o à medida (o polipropileno), dobro-o, vinco-o com uma dobradeira e colo-o com fita-cola em forma de manga a envolver as sôbrecapas que quero proteger. O que me até nem sai mal, mas não se dirija contudo ninguém à loja a pedir polipropileno; o artigo em questão é comummente conhecido do vendedor por papel de embrulho transparente, a-pesar de ser plástico.


 E bem, a coincidência fabulosa foi que ao depois de envolvida a sôbrecapa e reposta no livrinho das Lendas (é o vol. 2, o das lendas heróicas), dei em abri-lo a ler a primeira, a do «Belo suldório» que é sôbre o Viriato e, arejando as páginas, lá mais para o fim do volume havia um marcador com um calendário n' «O milagre de Ourique», sinal de que andara já eu pelo livro. — Quando? — O ano do calendário haveria de mo dizer. Só que o calendário, com publicidade a um Centro para Pequenas Empresas da multinacional Maricosoft (a do Kill Gates), não dizia o ano. Pus-me a olhar para a esperteza dalguém imprimir um calendário sem indicar o ano e vi que nêle o dia de hoje, 7 de Novembro, é uma segunda-feira. Descobri, pois, que a inteligência de quem fez tal calendário assim sem menção de ano, foi para ser êle achado nêste ano de 22. Porque se não fôsse assim, não calhava certo.


Calendário sem ano [Maricosoft, s.d.)