| início |

sábado, 3 de setembro de 2022

Zé da Comporta

 Não fôra a Sr.ª D.ª M.ª Luísa e seria eu um eremita. Viveria com certeza debaixo duma pedra. Dantes mexia-me mais.
 …
 No ano 2 fui de férias em Agôsto. Fomos. Coisa que nunca fazia nem faço, a não ser que prolongue o Julho. Mas, a Sr.ª D.ª M.ª Luísa estava no tribunal e, as férias judiciais…
 Bem! Gizei um itinerário. Além Tejo a baixo, pela costa, nada de auto-estrada; Algarve de barlavento a sotavento;  praia ao longo das jornadas. Sevilha, Nerja… Já 'qui falei dêle um pedacinho. É ver
 Pois bem! Na primeira jornada, uma quinta-feira primeiro de Agôsto, de Lisboa à Comporta pelo ferry do Sado, a Tróia, com tempo para ir à praia à tarde; seguir ao depois para Melide
s a pernoitar, resolvemos jantar antes ainda com boa luz do dia no Zé da Comporta. Isto em Agôsto do ano 2. Houje o Zé já não é bem o que era no ano 2; está bem lounge
 E o caso é bem êsse…
 Jantámos ao depois da praia e pagámos, naturalmente. Ou estaríamos para pagar; tínhamos dinheiro. Impensável não ter…
 Um casalinho na casa dos vintes (nós íamos já nos trintas), que era só quem jantava ali além de nós por essa hora, deu em reclamar. Em voz alta, a moça do casalinho: — Não têm Multibanco?! O quê?! Não acredito! Nem têm Multibanco!? — desdenhava em tom tipo morangos com açúcar, moderna, sofisticada.
 Não me recorda já como pagaram. Nós, foi como disse. E seguimos para Melides a pernoitar (mais outra história…)


 A historieta tem vinte anos. Passou-se. Passei eu agora há dias num grande centro comercial, jeitoso como são todos os grandes shoppings, e resolvi comprar pão numa lojinha com nome de reminiscência medieval — a cunhada já nos tem falado muito que o pão é assim, o pão é assado! — O pão, de feito, será outra história porque o não comi… A história agora é que nem tanto. Dá-se o caso de que a lojeca, a despeito do nome, é moderna, sofisticada, tipo morangos com açúcar ou para lá até. Para pagar três simples bolinhas não sei já de quê abri o porta-moedas e — Não àceitamos dinheiro — diz-me a «padeirinha» com o agora habitual sotaque tropical das novas rapariguinhas do shopping (prefiro dantes).
 Olhei-a desprevenido. Tive em fim rasgo de dizer: — E o ordenado, o patrão paga-lho como?
 — Não sei. É meu primeiro mês.
 Voltei as costas. Desisti de comprar ali. E não sei se o Zé da Comporta não deu já no mesmo, mas tanto me dá. Se não deu, dará e êsse futuro não é para mim, eremitão que tendo a ser. Daquêle passado e da jornada pela costa alentejana, porém, recordam-me magníficos dias atlânticos. Pese o desafinanço, vai que no tempo do filho do major era melhor, pois agora nem tutu, tututu…



Dias Atlânticos, Ban
(Ao vivo em Lisboa, 1991)


 

6 comentários:

  1. Ao que leio há uma pressão, no ocidente, para que se pague em electrões. As "entidades" ficam a saber quem paga, onde paga, o que consumiu e outros atributos que o fisco conhece ou fica a conhecer.
    Sem dinheiro vivo, o cidadão fica nas patas do estado e de patas para o ar.
    Há mais de 30 anos que não uso cheques nem cartões.

    Cumps

    ResponderEliminar
  2. Assim é. Na Caixa do Saldanha nem caixa têm. Sacar ou depositar dinheiro só na antecâmara, nas caixas automáticas. Se precisar duma contia superior a 40 contos, que vá buscá-la ao Totta.
    O cêrco aperta-se. Para disfarce vai-se estrondeando propaganda da tenebrosa P.I.D.E. do infame ditador Salazar
    O ovelhame é estúpido demais para entender. Tão estúpido que se perfila tão voluntariosamente de mordaça.
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  3. Anónimo4/9/22 02:04

    A questão dos pagamentos em dinheiro vivo começou por determinados valores por razões de branqueamento de dinheiro ilícito/negócio de droga p.ex.
    Lembro-me de em 2006 na troca do meu carro ter de sinalizar com 2.500 euros e foi um problema. Eu não usava cheques e o stand não tinha multibanco e em dinheiro tinha de explicar como arranjei o dinheiro. Uf, então como vamos fazer? E lá fui com o vendedor ao banco fazer uma transferência para a conta da firma do stand.
    Mas, nos restaurantes de praia e afins, centros comerciais e lojas de conveniência razão é outra: são os patrões que não autorização os empregados a receber em dinheiro, só pagamentos por multibanco. E porquê? Para não serem roubados pelos empregados.
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  4. Figueiredo4/9/22 13:10

    De facto, quer queiramos quer não, o dinheiro já é em quase toda a sua totalidade digital, são números/dígitos inseridos informaticamente na nossa conta bancária, sendo poucas as pessoas que recebem por exemplo o seu salário em dinheiro vivo.

    Com a «moeda» digital será impossível a lavagem de dinheiro, trapacear ou fugir às obrigações fiscais por parte de indivíduos, entidades, e empresas.

    O grande problema é que um país só pode adoptar a «moeda» digital se for soberano, se tiver a sua própria moeda, o que não acontece com os países da união europeia (ue) e aí é que está o grande perigo; se a união europeia (ue) decidi-se impor a «moeda euro» digital Portugal e os Portugueses ficariam subjugados à tirania do regime não eleito de Bruxelas e ao seu estado policial, onde a qualquer momento a fonte financeira do país ou de um cidadão pode ser cortada se não cumprirem com a sua agenda política, económica, e de engenharia social

    A Federação da Rússia (FR) e a República Popular da China (RPC) , como Estados soberanos, já estão a trabalhar para converter as suas moedas nacionais em «moeda» digital ao mesmo que tempo que idealizam um novo sistema financeiro mundial mais justo.

    Terminando o dinheiro físico, a Cidade de Londres («City of London», em Inglês) actual centro de controlo da economia a nível mundial e da lavagem de dinheiro, terá os dias contados assim como o seu corrupto, disfuncional, e injusto sistema financeiro e económico usurário.

    O regime da Inglaterra é o maior traficante de drogas do Mundo – respaldado pela Agência Central de Inteligência («CIA», em Inglês).


    Post-Scriptum: Se a «moeda» digital avançar grande parte das empresas privadas, estabelecimentos de restauração, entidades, instituições particulares de solidariedade social (ipss), fecham em Portugal.

    ResponderEliminar
  5. Para isso de os empregados meterem os garfos na caixa registadora apareceram agora uns cofres em que o freguês é quem deita o dinheiro. Dão demasia e tudo. Talvez resolva a angústia a patrões desconfiados e a ânsia a empregados desleais, mas não me agradam êsses cafés justamente pelo espírito do que descrevo.
    Menos mal ainda assim porque não deixam de aceitar pagamento de contado.
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  6. De facto o dinheiro em depósitos bancários não passa de cifras em computadores. O caso é complexo e o panorama não se vislumbra animador. Até porque os donos da brincadeira criam cifras do nada ou… — Dantes e por séculos dizíamos «contos de réis» para cifras da escala do milhão. Dissémo-lo por séculos e a pesar da desvalorização da moeda ainda muito no tempo da República tínhamos o escudo a valer mil vezes mais que o real e contávamos o dinheiro em tostões. Só já muito recentemente se tornou corriqueiro comprar e vender quotidanamente em contos de réis (leia milhões). Hoje tornou-se trivial vêr cifras nos jornais da ordem dos milhares de milhões e, ùltimamente biliões (na Inglaterra e na América chamam-lhes «triliões»). Em quanto isto, aos que se manifestaram em Otava contra as injecções e a pedir para serem ouvidos no parlamento, os que parece que foram democràticamente eleitos por si, congelaram-lhes, tais quais senhores de engenho, os electrões a que chamamos contas bancárias. Dá bem que pensar.

    Cumpts.

    ResponderEliminar