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terça-feira, 21 de junho de 2022

Comprei-o há quási 20 anos. Cuidei que podia ser interessante…


Eduardo Nobre, «Paixões Reais», 3.ª ed., Quimera, Lisboa, 2002
Eduardo Nobre, Paixões Reais, 3.ª ed., [Lisboa], Quimera, 2002.


 Levava-o aí a mais de meio quando o passei à senhora. Despertaram-lhe o interêsse estas «Paixões…»; pelo entusiasmo em que me via por elas fora e, do que lhe delas ia contando. Não no retomei ao depois senão agora ao cabo dêstes anos tôdos. E tomei-o agora do princípio com o gôsto de então, porquanto entre tanto me passara da memória o que já lêra.
 A trama genealógica da família real requere certa atenção à leitura (como as genealogias em geral, inclusivè a própria) e acredito poder não ser inteiramente fácil ao leitor médio actual. Ou talvez não, não sei… O estilo do A. é suficientemente claro para que se perceba, porém. Nalgumas histórias revelam-se barbaridades bem além de simples episódios picarescos. É o caso do imperador do Brasil que, diz, pontapeou a imperatriz Leopoldina na barriga achando-se ela grávida. Por má ventura veio o coice a acabar-lhe com a vida (à imperatriz, não à imperial cavalgadura). Legou esta imperial cavalgadura por fim o coração ao Pôrto ao cabo de o gastar com inúmeras mulheres. A alma, contudo, tinha-a com aquêle fundo de bêsta que ficou para os anais. Cuido que se haja arrependido, mas não sei haverá perdão…
 Outras paixões reais foram todavia mais serenas, passe alguma contradição aqui.
 Da de D. Fernando II já viúvo, pela condessa de Edla, desarrisco agora a rasura que pus em D. Carlos num apontamento de há anos sôbre a compra pela Coroa do Palácio da Pena deixado em testamento à condessa pelo rei D. Fernando. O que lá escrevi inicialmente (D. Carlos) e emendei ao depois (para D. Luiz) é que estava certo — flagrante caso de pior a emenda que o soneto. Foi de feito já no reinado de D. Carlos que a Coroa se entendeu com a condessa de Edla sôbre esses bens entendidos como nacionais e talvez tenha sido aqui que o houvesse lido.
 Fica algum amargor quando se encerra o livrinho, porém. A última historieta tem desfecho infausto nos amores do exilado infante D. Afonso, o popular «Arreda», irmão de el-rei D. Carlos, às mãos duma amaricana divorciada, contumaz caçadora de fortunas por via de casamentos interesseiros e, no caso, de nobilitação. A I.ª República não soube ou não quis atalhar-lhe e do Palácio da Ajuda logrou a «cabeça de víbora da americana» carregar várias galeras em 1920 com os bens do infante D. Afonso à guarda da Repartição de Património da Direcção-Geral da Fazenda Pública. Mas isto, porém, são já os desamores da República Portuguesa a Portugal…

5 comentários:

  1. Esperemos que seja só férias na Falésia.
    Desejo que não seja doença prolongada.
    cumps

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  2. Não. Bem de saúde, obrigado!

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  3. Precioso regalo, o de ir lendo aqui.
    A verve lhe não esmoreça.
    Muito obrigado, saúde e bem haja.

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  4. Generosidade sua.
    Grande abraço.

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