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sábado, 7 de novembro de 2020

Antolhos


« Informação não é conhecimento. O primeiro termo descreve um conjunto contextualizado, e porventura filtrado, de dados, ao passo que o conhecimento é o desfecho de um processo sistemático de análise de informação, que tem por objectivo o entendimento de um determinado assunto. Os três conceitos – dados, informação e conhecimento – formam uma estrutura hierárquica, em cujo pináculo está a sabedoria (deixemos de fora a verdade, que só traz complicações desnecessárias).
   A criação de conhecimento exige trabalho e acarreta um risco: quem o tenta fazer, dá por si, com regularidade, nas regiões fronteira das suas capacidades intelectuais e vê-se forçado a lidar com o desencanto provocado pela percepção dos próprios limites. Quiçá seja esta a origem do progressivo descrédito do conhecimento e da tentação de confundi-lo com acesso à informação. Quando se promove o facilitismo, nivela na mediocridade e esconde o sentimento de frustração das gerações em formação, a máxima latina per aspera ad astra, que é como quem diz, sem sofrimento não há glória, é inadmissível. Para a sobrevivência das doutrinas hostis ao rigor, é fundamental que a palavra conhecimento seja expurgada do seu significado tradicional. Caso contrário, descobrir-se-ia que os mais bem preparados de sempre são apenas indivíduos permanentemente ligados a uma central de dados. »


Carlos M. Fernandes, «Ratos», in Observador, 6/XI/2020.




O artigo vai além da pequena introdução acima e merece a pena, está muito bom. Já o mundo… Bom (mau), é como vai!…


 





Portugal, [s.d.] (Portimagem, Saudade 388)
Antolhos, Portugal, [s.d.].
Portimagem, in Flickr.

4 comentários:

  1. Nem todas as pessoas sabem a finalidade dos antolhos.
    No tempo em que os veículos a motor começaram a circular nas estradas em simultâneo com os tradicionais muares e cavalos, os animais assustavam-se com o ruído e o vulto das viaturas.
    Assustados, os animais tinham diversas reacções muito nefastas para o seu bom desempenho .
    Assim, os correeiros começaram a confeccionar este assessório e acrescentaram-no à cabeçada (o arreio que suporta o freio).
    Deste modo, o animal deixa de ter a visão periférica, geralmente muito acentuada nos herbívoros, e passa a ver só na direcção dianteira.
    Como certas pessoas, que por teimosia ou ignorância parecem ver um dado assunto só numa única perspectiva não atendendo ao contexto, às implicações ou assuntos correlativos, diz-se que têm "antolhos".
    Como curiosidade acrescento que os burros são muito menos atreitos a assustarem-se e, geralmente, dispensavam os antolhos. De burros só têm o nome porque no resto percebem bem o que se lhes diz, e aceitam pacientemente ser "burros de carga"!
    Só destrambelham se por perto deles passar uma burra...
    Aí ficam desorientados de tal maneira que o corpo se lhes modifica a passam a ter mais uma perna: a quinta perna...
    Coisas da Natureza...

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  2. Cuido que já poucos reconhecem a palavra «antolhos» (dizem «palas») pelo que a sua explicação é preciosa. E faz mais justiça ao animal da imagem do fiz eu ao valer-me dele para ilustrar menção às cavalgaduras mais preparadas de sempre.
    Muito obrigado!

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  3. Joe Bernard9/11/20 12:29

    A-DO-REI os vossos comentários.
    Parabéns aos dois.

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