A propósito do interesse que A Peste, de Albert Camus, despertou aquando da descoberta do vírus da moda: em Março de 2020, as vendas do livro, em Portugal e no resto do mundo, tiveram uma expressão significativa. Especula-se que os leitores procuravam, no relato das angústias vividas pelos habitantes de Orão durante um surto de peste, um consolo e um guia para a reclusão que os aguardava.
A comparação da conjuntura actual com a peste é exagerada […] Além do mais, se se tiver em conta que a crise sanitária, na sua eclosão, foi equiparada a uma guerra – como se a geração floco de neve, que se ofende com o sarcasmo e os contos de fadas, tivesse estofo para pegar em armas –, o risco de amplificar o medo com analogias fortes não é assim tão sério […] Segundo uma das exegeses mais consensuais, A Peste é uma representação alegórica do totalitarismo.
[…] Passaram-se alguns meses e cresceu a suspeita de que, a pretexto de uma doença que se revelou muito menos letal do que as profecias asseguravam, está em curso a concretização de um programa autoritário e global. Quando as primeiras notícias e imagens sobre abusos de poder em várias regiões do mundo começaram a romper o cerco imposto pela comunicação social, alguns leitores viraram-se para outras obras literárias, como 1984 e Admirável Mundo Novo, e A Peste regressou ao seu exílio na sombra do cânone.
É pena, pois o livro de Camus, ao contrário dos de Orwell e Huxley, não estuda o facto consumado; prefere concentrar-se na alienação e submissão ao avanço do totalitarismo. A Peste é uma fábula sobre a discreta e inapelável emergência de uma força oculta que se instala no seio de uma comunidade desprevenida e a submete à sua vontade. Começa com um rato morto e acaba numa cidade sitiada, sem esperança, privada de todas as coisas que nos definem como humanos: a liberdade, a dignidade, o amor, a família, os rituais fúnebres […]
Confundir liberdade com democracia é um descuido infantil e cego a um século de História.
Primeiro, foram as restrições à circulação e reunião: no início devidamente cumpridoras das leis fundamentais, são hoje impostas, em determinados países, sem qualquer respeito pelas respectivas constituições. Depois, como numa avalancha, vieram as quarentenas de pessoas saudáveis, os testes compulsivos a indivíduos sem sintomas da doença, as invasões de domicílio sem mandado, as restrições à liberdade de culto, a repressão de manifestantes, os processos disciplinares a médicos dissidentes, a perseguição a professores e investigadores cépticos, a vigilância pidesca de declarações públicas e privadas, a denúncia popular de comportamentos «desviantes», as autuações a casais que se beijam na rua, a lei seca, a intimidação anónima dos críticos, a manipulação da opinião pública pelos jornais e televisões, os logros estatísticos, a censura científica. A sociedade viu-se privada de todos atributos que a distinguem de um formigueiro e ficou reduzida ao trabalho: as fábricas laboram, as livrarias fecham. O campo de concentração de Auschwitz tem, à entrada, um título adequado para este quadro.
Transversal a tudo isto, e silencioso como a peste de Orão, está o pior dos atentados à liberdade e dignidade humanas: a nacionalização da morte. Para salvar alguns – e os serviços de saúde –, condenam-se outros.
Dando de barato que a suspensão da liberdade pode ser justificada pela necessidade de uma defesa do direito à saúde (seja lá o que isso for), nada justifica a censura, a intimidação e a manipulação: a liberdade de expressão não é um meio de contágio de doenças respiratórias, nem sequer no estranho mundo inventado pela «ciência» pandémica […]
Lamentavelmente, para a saúde de muitos e para o orçamento de um sem-número de famílias, é tarde demais. Resta-nos esperar que a epidemia de demência e o consequente tsunami económico que nos deixará depauperados represente também o fim dos novos ratos e dos seus encantadores […] Shakespeare, que foi contemporâneo da peste bubónica, nunca escreveu sobre a praga que lhe condicionou a vida e a carreira. Preferiu esmiuçar o exercício discricionário do poder e a construção da tirania. O inventor da personalidade humana sabia de onde vinha o verdadeiro perigo.»Carlos M. Fernandes, «Ratos», in Observador, 6/XI/2020.
Imagem: Alberto Camus, «A Peste», Círculo do Livro, [s.l.], 1983, in Jornal de Vila do Príncipe, 22/VI/20.

Um texto muito lúcido.
ResponderEliminarEncaminham a Humanidade, à força, para a tal Nova Ordem Mundial que até levou o Dr. Almeida Santos a escrever um livro todo cheio de encómios a essa criminosa aberração.
Tudo pensado e encaminhado pelo pessoal do tal Clube que se reune anualmente, para dar, sob sigilo, as ordens tácticas preparatórias, destinadas conseguir tal desiderato no futuro.
Espero já cá não estar quando vier o tal "chip" obrigatório, como o das ovelhas e dos canitos, embora já o traga no BI...
Meus cumprimentos.
Esse chipo há-de ser recebido com placidez bovina e júbilo mediático até, tanto quanto posso ver.
ResponderEliminarEspero também já não estar para ver, porém.
Cumpts.