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segunda-feira, 20 de julho de 2020

Toada de noutes mormacentas


Praia da Falésia, Algarve, 20200720-22h34


A toada do «Guardador de Margens» tem o langor de noites estivais. Como hoje. Sinto nela o mormaço de noites modorrentas em que para aqui estamos... — Grande poeta, o Tê. Estupenda interpretação ao vivo de Rui Veloso no já longínquo concerto do Coliseu. — 1987!... Onde ele vai... — O Jaime foi quem comprou o álbum. Passei os anos 80 desligado do Rui Veloso. Só lhe liguei lá pelo fim da década, em 88 ou 89, quando me soava o Rui Veloso ao Vivo da cassete que gravei do disco do Jaime e quando, também por esse tempo, ouvia as mesmas cantigas ao bonacheirão do Luís Duarte nas Noites de Luar e na Casa da Lina. Saudosos tempos!


  Deu-me agora aqui para isto; a soedade a bater deve ser do Agosto a avizinhar-se e do Julho a acabar-se...



*   *


 


Enquanto a cidade inteira vai digerindo o seu jantar
E todas as ruas e praças se lavam com essência de luar
Enquanto as estátuas famosas bebem brandies e aveledas
E as tílias se entreolham meigamente nas alamedas

Vou guardando as margens
Velando os lírios do jardim

Enquanto à meia-noite encerra mais uma sessão
E o senso-comum ressona tranquilo e pesado no colchão
Enquanto a cidade inteira lava os dentes e faz toilette
E os taxistas recolhem as sombras que restam da noite

Vou guardando as margens
Velando os lírios do jardim

Enquanto a luz do promontório ensina a costa ao barqueiro
E arde o rum forte no zimbório e traz lucidez ao faroleiro
Vou pondo malha sobre malha com o labor dum tapeceiro
Palavra, acorde, o som, a talha e a devoção de um mestre oleiro

Vou guardando as margens
Velando os lírios do jardim

Enquanto a cidade inteira vai feliz na sua faina
E o Sol boceja na ladeira ao som do martelo e da plaina
Saúdo a bruma e o orvalho e a luz do dia madrugado
Guardo as cartas no baralho, meu sono é enfim chegado

Vou guardando as margens
Velando os lírios do jardim  

2 comentários:

  1. pedro jaime26/7/20 12:11

    ainda hoje acho de grande valor imaginar estátuas a beberem aveledas.

    aquele abracinho, caro associado.

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  2. Ora aí está uma coisa que é bonito, não e verdade?
    Se as não derrubarem, bem entendido!

    Aquele abraço! :)

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