Sinais. Crónicas radiofónicas com as impressões de Fernando Alves acerca disto e daquilo que veio no jornal ou que foi posto a correr como notícia pelas centrais da homilia mundial.
As crónicas são datadas e continuam até hoje. Mas as impressões do A., jogos de palavras mais ou menos literários de intelectual de esquerda (passe a redundância) glosando temas de nada para moralização geral têm um fundo necessário, gramsciano, que fatalmente deve tomar as mentes. E daí continuarem até hoje. A missionação nos anos 90, como antes, era assim. 20 anos depois é pior. Fernando Alves é um espirituoso mais além das espécies camilianas: é um jornalista. A cada adjectivo ou aposto, uma ironia, ferrando o alvo a abater:
... E o inenarrável «site» da American Patrol. A «Internet» dá abrigo a tamanhas maravilhas, mas é muitas vezes a «Big» Orelha da bufaria da América borrada de medo [...] É aqui que se encontram os delatores [...]
Glenn Spencer, cidadão do mundo livre, criou, a partir de um escritório em Los Angeles, uma página de delação na «Internet». Lá encontramos lancinantes avisos: «Os mexicanos invadem o SO dos Estados Unidos. É a reconquista com apoio do governo mexicano e a tolerância do Estados Unidos.»
A página instala uma espécie de mccarthismo cibernético, não já contra os comunistas, mas contra os outros americanos.
Glenn Spencer [...] tem orgulho em colaborar gratuitamente com a polícia compilando toda a informação disponível sobre a entrada ilegal de mexicanos nos Estados Unidos.
No «site» da American Control o patriota Spencer recebe elogios de agentes da polícia pelo entusiasmo vigilante que contraria «a inutilidade dos esforços do governo norte-amerciano». Mas foi o governo norte-americano que criou o monstro, que instigou a sanha delatora [...].
Piadola final de pretenso antifascista sempre obrigado à clandestinidade pelo neofascismo, agitando a superioridade moral que lhe vai nas entranhas. Cuidado!
Pelo sim, pelo não, desligo o computador, não vá Glenn Spencer localizar-me na rede.
(«Big Orelha», Sinais, p. 56.)
Reler ou ouvir estas crónicas hoje é a prova dos anos que tem já a missa, mesmo que datada.
Vem com um disco compacto com 20 crónicas. É a parte em missa cantada. Quando comprei o livro em 2000 não me apercebia destas coisas.

Fernando Alves, Sinais, 1.ª ed., Oficina do Livro, [Lisboa], 2000.
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