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terça-feira, 19 de maio de 2020

Da invasão dos franceses…

José Acursio das Neves, «Historia geral da invasão dos franceses em Portugal e da restauração deste reino», 1810



«Lastimoso período da nossa História, que o homem sensível não pode discorrer sem lágrimas! É reservado às almas ferozes o verem com indiferença aproximar-se o momento de ser derribada às mãos da perfídia uma monarquia de 7 séculos, abatido um trono em que se sentaram tantos príncipes respeitáveis, perseguida e expulsa uma Real Família adorada de seus povos, destruídas as leis, os usos e a própria religião do Estado (p. 185).»




 O vol. 1 da edição da Afrontamento inclui os dois primeiros tomos da «História Geral da Invasão dos Franceses &c.» e versa a invasão, remontando os acontecimentos à ascensão de Napoleão, à campanha do Rossilhão e traição da Espanha, à Guerra das Laranjas, à diplomacia afincada do Príncipe regente D. João para apaziguar as tenções de Napoleão, até à preparação e fuga da corte portuguesa para o Brasil. Com mais miudeza dá conta da invasão, ocupação e saque dos franceses em Portugal e revoltas de Espanha, até Maio de 1808. Os dois primeiros tomos foram publicados em 1810, muito à data do que contam; de actualidade jornalística, poderia dizer-se. O estilo é claro e simples, em português genuíno, sintacticamente actual (a semântica há naturalmente de ser lida em contexto, como texto histórico que é) e nada eivado de galicismos nem (coisa muito hodierna) anglicismos. A ortografia é, naturalmente, a de 1945, com revisão cuidada, salvo, que me lembre, do topónimo Pirenéus, grafado Pirinéus.


 Li-o há décadas para um trabalhinho escolar e, talvez dele, não tirei o devido gozo da leitura.


 O benévolo leitor interessado em História bem contada que leia este volume da edição da Afrontamento pode passar as c. 130 páginas de estudo introdutório; mais não são que prolixidade académica, com «proposta de leitura», tiradas cheias de estilo como «interiorização da exterioridade» e «exteriorização da interioridade» e, uma ainda melhor: de que Acúrsio das Neves é «um doutrinador da sua época historicamente atrasado». Ser «da sua época» e «historicamente atrasado» em simultâneo é um achado só visto em doutrinadores de estudos introdutórios da sua própria época, mas historicamente adiantados, já o leitor vê!…

2 comentários:

  1. Mandarinia19/5/20 18:45

    Caro BIC,
    Essas 130 páginas introdutórias servem para demonstrar o que as faculdades de ciências sociais produzem: verbo de encher. É triste mas é verdade.

    Cumprimentos

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