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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Annaes da aviação portug… guineense

 Não vem na Crónica de Guiné, mas é dos annaes da Guiné que a primeira aterragem dum avião dos Transportes Aéreos Portugueses em Bissau foi uma desgraça. Conta o Comandante Viegas que num voo de regresso de Lourenço Marques, nos primeiros tempos da Linha Aérea Imperial (*), ainda nos anos 40, o sr. Governador da Guiné instou o Governo, o Sercetariado da Aeronáutica Civil ou os T.A.P., agora não sei bem, para que o voo que vinha de regresso a Lisboa fizesse escala em Bissau. Fora para isso preparada uma pista com extensão e solidez, capaz para uma aterragem segura do Dakota dos T.A.P. Confrontada durante o voo com o alto pedido, a tripulação viu-se constrangida a escalar Bissau e tratou de se inteirar das condições do improvisado aeródromo e ajuizar por si a segurança daquela aterragem em escala não prevista. A resposta pronta foi que a pista fora bem terraplenada e melhor calcada com camiões, pelo que a sua consistência para o poiso do avião era grarantida. Ainda assim, o Comandante mandou o radiotelegrafista inquirir se chovera entretanto. — Negativo!
 Não fora bem. De Bissau esqueceram-se da morrinha que amolecera o terreno e, quando ao pousar a aeronave foi desacelerando e toda a sua massa se concentrou no trem, o piso cedeu e as rodas enterraram-se no chão travando subitamente o avião que afocinhou e, de ricochete, baldou com estrondo sobre a cauda que se elevara. A tripulação e os passageiros não sofreram mais que uns arranhões e um susto, mas as pás das hélices retorceram-se todas por baterem no chão quando o avião afocinhou. Aquele avião já não saía dali até que chegassem novas hélices e uma equipa de mecânicos para repará-lo.


 Na Guiné, como em todo o Ultramar, nisto como no resto, estava tudo por fazer: estradas, pontes, hospitais, cais, portos, aeroportos…  Alguém o fez. Alguém o pagou. Alguém pensou em pedi-lo de volta?


Aeroporto de Bissau, Guiné (S.E.I.T., ante 1974)
Aeroporto Craveiro Lopes, Bissau, ante 1974.
(Esp. do Cte. Amado da Cunha, Col. do Sr Ant.º Fernandes. S.E.I.T., n.º 237575, cx 445, env. 19.)




(*) Uma rota de mais de 20 000 kms entre Lisboa e Lourenço Marques e volta, 12 pontos de  escala (**), c. 50 horas de voo em 7 dias de viagem em cada sentido. Provavelmente a mais longa rota jamais operada com aviões DC-3 (C-47) Dakota.
(**) Casablanca, Villa Cisneros (Dakhla), Bathurst (Banjul), Robertsfield, Accra, Libreville, Luanda, Léopoldville (Kinshasa), Luluabourg (Kananga), Elisabethville (Lubumbashi), Salisbúria (Harare), Lourenço Marques.

16 comentários:

  1. É caso para dizer à outra "Vai-te Katar!" :)

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  2. Comentários na habitual tv da bola.
    E tal e coisa qu'a bola tem de ser devolvida à minha equipa, não senhor você é que devia levar cartão vermelho com expulsão directa.
    E, a grande interesse das audiências, foi a conversa da semana entre clubes que não contam para o campeonato.
    Agora a sério. Evidentemente, não se pode considerar que houve uma grande rapinagem de obras d'arte, nem grande nem pequena por nunca as haver. Vai que houvesse uma rapinagem a árvores de grande porte ou a dentes de elefante, ou a rapto de populações para a escravatura, ficou saldada com a edificação de infraestruturas ao longo de muitos anos.
    Mesmo nos últimos anos com o decorrer da guerra, nunca houve rapinagem feita pela tropa, antes pelo contrário, no mínimo poder ser comparável à escandalosa rapinagem feita por cá, pelas tropas do Junot, com o 'deixem levar' dos nossos amigos ingleses.

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  3. fernando antolin1/2/20 11:04

    Um DeHavilland Dragon Rapide, um Auster,um Piper Cub e (talvez) um Piper Tri-Pacer. Talvez fins dos anos 50. Em relação à Guiné, onde estive a visitar uma filha, que lá trabalhou, o ano passado, tudo continua por fazer...

    Cumprimentos

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  4. Também é caso para dizer o que o que o Ventura disse. Mas o ferrete é danado. Os tempos que correm são danados, de tanto arruído emocional e tanta falta de senso. Emoção por emoção (irracionalidade, leia-se), melhor fora o Ventura ter mandado a gaja prò c…! Tirando a ordem alfabética, ordem mais democrática e menos racista que essa não há.
    Cumpts.

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  5. Pode ser. Mas algo foi feito. E se mais se não fez foi porque o P.A.I.G.C. se empenhava ferozmente em tolher a obra. Como aliás depois livremente continuou.
    Cumpts.

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  6. O que diz está certo e faz sentido.
    Cumpts.

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  7. Fernando Antolin2/2/20 21:37

    Boa noite.
    Referia-me, no comentário que deixei antes, precisamente a tudo o que deixou de ser feito e ao que foi destruído, desde que da Guiné saímos.

    Obrigado pela sua atenção, cumprimentos

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  8. Anónimo3/2/20 23:01

    Como se lê, era como aterrar num campo lavrado para cultivo de milho ou batatas.
    Julgo que naquele tempo, anos 40, não havia escala na Guiné e a viagem era feita na Air France para Dacar e depois por terra, nada abonador para a chamada Linha Aérea Imperial.
    Coitada da Guiné.

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  9. Manuel Alves4/2/20 01:07

    Bic Laranja:

    "estava tudo por fazer. ... Alguém o pagou. Alguém pensou em pedi-lo de volta?"

    Ora aqui está, resumida, em poucas palavras, a Verdade.

    Noutro Blogue escrevi, o que me ocorreu sobre este assunto:

    Querem o património de origem africana dos museus?
    Levem-no.

    Mas então, antes disso, paguem pelo seu justo e real valor actual, tudo quanto Portugal deixou feito por lá.
    E também, o que AINDA HOJE POR LÁ, E PELOS DE LÁ, faz em benefício dos autóctones!

    Os Povos de lá, ficaram a dispor de UMA LÍNGUA UNIVERSAL, um bem inestimável.

    Ficaram milhões de indivíduos autóctones com Cursos escolares primários, Cursos médios e Cursos universitários ministrados não só na Metrópole mas também por todo o Ultramar, pagos pelo Erário Público Português

    E o que lá ficou edificado?

    Ficaram todas as Províncias Ultramarinas, nomeadamente Angola e Moçambique, dotados de dezenas de CIDADES COMPLETAS, onde se incluíam toda a espécie de:

    Edifícios habitacionais
    Edifícios administrativos
    Edifícios religiosos
    Mercados Municipais
    Redes completas de abastecimento de águas
    Redes completas de abastecimento de electricidade
    Redes de efluentes
    Escolas primárias
    Liceus
    Duas Universidades
    Hospitais
    Quartéis e várias outras instalações militares
    Estádios de Futebol
    Unidades completas de Radiodifusão
    Cinemas

    Tudo isto feito com Qualidade, convenientemente apetrechado e a funcionar regularmente e, pago pelo Erário Público Português.

    Ficaram também disseminadas pelos territórios ultramarinos:

    Muitas Pontes e Viadutos
    Diversas Explorações Mineiras de relevo
    Barragens grandiosas e grandiosas redes de distribuição eléctrica (Cambambe e Cabora Bassa, por exemplo)
    -Inúmeras Estradas (só em Angola, mais de 5000 Km terraplanados e asfaltados de 1961 a 1970).
    Importantes Linhas de Caminhos de Ferro, incluindo todo o material circulante.
    Portos de mar
    Modernos (à época) Aeroportos e Aeródromos
    E um número elevadíssimo de importantes e completas Explorações Agrícolas (café, sisal, cacau, pecuária, etc.) criadas e desenvolvidas por particulares, explorações que, igualmente ficaram na sua quase totalidade, na posse dos autóctones.

    Tudo isto feito com Qualidade, convenientemente apetrechado e a funcionar regularmente e
    tudo pago pelo Erário Público Português.

    E hoje, se não fosse Portugal e toda a Europa, que seria desse povo africano que foge, por todos os meios, das suas terras por muitas e variadas razões, das quais, os desgovernos e o seu intrínseco racismo não são as menores.

    Eu tenho o maior respeito por aqueles africanos que humildemente trabalham por cá, muitos deles sujeitando-se aos trabalhos mais modestos mas vivendo uma vida honesta e diligente.

    Já não me merece qualquer respeito quem venha para cá só para fazer exigências sem contribuir em nada para quem cá está.

    Os meus cumprimentos e muito apreço por este Blogue.

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  10. Eu é que lhe agradeço as boas palavras e os melhores argumentos.
    Cumpts.

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  11. Anónimo4/2/20 22:24

    É como diz.
    Outra coisa é que seria de estranhar, afinal os territórios ultramarinos faziam parte da Nação.
    Não sei, e agora não vou indagar, como era feito o orçamento para as Províncias Ultramarinas, mas julgo que haveria receitas próprias (Angola e Moçambique) para muitas infraestruturas realizadas.
    Sobre o outro assunto, devolução de obras de arte, foi apenas uma 'conversa' nascida do mesmo propósito lançada pelo Presidente da França E. Macron.

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  12. No 1.º voo da linha imperial, Bissau foi sobrevoada em como em saudação aére. O chefe de redacção Norberto Lopes, em crónica para o Diário de Lisboa escreveu:

    Enfim! Se se inauguraram os voos para África ainda antes do fim de 1946, foi porque Humberto Delgado entendeu empreendê-lo e apresentá-lo na sua folha de serviços ao Governo. Quem lhe pôs o nome de Linha Aérea Imperial também não há-de ter sido senão ele. Os aviadores, a julgar do escrito pelo Ctes. Viegas e Silva Soares, chamavam-lhe «Linha d' África». O Cte. Viegas dizia até «a nossa T.A.P., a Air Portugal deles» ao referir-se a «proezas aéreas» já pós-abrilinas. É compará-las com as 1946-47.


    Cumpts.

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  13. O meu comentário foi relacionado com o que é escrito, agora com o testemunho do Norberto Lopes.
    O resto é outra conversa e, como diz, quer-se
    fresca, jovem e viçosa.



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  14. Claro, claro! Bem vejo os seus «louros» sobre a Linha Aérea Imperial que eu escrevi e descrevi (leu bem as notas de rodapé?). E bem vejo que o testemunho do Norberto Lopes lhe corrobora «avant la lettre» o fino comentário. Mas, menos fino e mais finório, a outra conversa é que lhe não cheira.

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  15. Sem a Metrópole, o Ultramar não tinha meios de sustentar a construção de infra-estruturas que se deu nos anos 60. Mas foi tendo. O orçamento do Ministério da Defesa suportou muita coisa.
    >Um tiro um pouco ao lado, mas sugestivo…
    Cumpts.

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