Algures aí para trás há um comentário dum leitor sine nomine, parece que apoucando o Prof. Hermano Saraiva como «depois de 'limpo' por Mário Soares» ou algo assim. — Seria remoque só de si àquele (até porque lhe aponta um erro numa tirada mais eloquente num dos Horizontes da Memória, sobre Paredes de Coura)? Seria projecção nele da limpeza vinda do tal Soares, que de água benta não teria nada, antes pelo contrário? Seria regimental veneração pelo irmão do dr. Tertuliano e vulgar aversão por José Hermano Saraiva? — O caso é que não entendi o pleno alcance da insinuação. Verdades insofismadas do nosso tempo, e delas não saímos, são sem sombra de dúvida, porém, que o Prof. Hermano Saraiva é do fachismo e o irmão do dr. Tertuliano é o patriarca da democracia e da libardade [*], senão o da Pátria — mesmo não sendo pai de D. Afonso Henriques, do Mestre de Avis ou de D. João IV. No caso de José Hermano Saraiva, o fachismo é o ferrete habitual e inquestionado dos democratas de alvará sobre qualquer vulto do Estado Novo; no do pater patriae é o estado a que chegámos.
Tornando ao caso da limpeza do Prof. Saraiva pelo dito Soares (que será purificação de água benta, ou não fosse o tal Soares filho dum padre), tinha para mim que havia um passo sobre isso no «Álbum de Memórias» de José Hermano Saraiva («Sétima Década; os anos 80», 1.ª ed., Sol, 2007, pp. 20-21):
Eu estava na primeira fila [na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro], em representação da Academia das Ciências de Lisboa, especialmente convidado pelo dr. Mário Soares para o acompanhar na visita ao Brasil.
(Faço um parêntesis para explicar que, surpreendido por tal convite, telefonei para a Presidência da República e disse que não via justificação para ele: eu não tinha funções públicas, não era político, não alinhava com a situação política vigente. Que razões tinha, pois, o Presidente da República para me convidar a acompanhá-lo numa visita de Estado ao Brasil? A resposta foi: o Presidente quer que no Brasil vejam bem que ele é o «Presidente de todos os portugueses» [**]. De todos, até de V. Ex.ª! A um convite destes não é possível dizer que não.)
Sobre tão peculiar predicado como o atribuir-se a alguém republicano, laico e socialista o dom de abençoar outrem para a vida, pública, política, profissional, o que se queira (limpar, no falazar do tal leitor anónimo), julgo que o excerto acima é expressivo q.b. da natureza de quem dita a democracia «a todos os portugueses» e de quem educadamente não deixa de reconhecer a dignidade do cargo de chefe de Estado, independentemente de regimes e do figurão que o ocupa.
Mas se mais dúvidas houvesse…
O prof. Hermano Saraiva relata em seguida o sucedido na sessão solene na Academia Brasileira de Letras e tem graça:
O dr. Austragésilo [de Athayde] [***] iniciou a sessão com estas palavras (ou com palavras semelhantes, porque não registei o que ele disse): «É com grande júbilo que esta insigne Academia abre hoje de par em par as suas portas para receber no seu seio essa ilustre figura de… estadista, de homem público, de pensador, de filósofo…, de homem de letras…, de intelectual ilustre…, de escritor brilhante…» (e ia-se demorando cada vez mais nas adjectivações elogiosas), «que é o doutor…» (e aqui suspendia-se interrogativamente, como se de todo em todo lhe não lembrasse o nome do académico que estava a receber), «que é o doutor…» (os membros da mesa sopravam-lhe aos ouvidos: «Mário Soares! Mário Soares!), mas ele, empolgado no discurso, parecia nada ouvir. «O doutor…» (e batia na testa, para lhe vir a lembrança à mente). Todos assistíamos, vexados e confrangidos, àquela indiscreta revelação da amnésia e decrepitude do velho patriarca Austragésilo. E de todos os lados lhe sopravam: «Mário Soares! Mário Soares!». E eis que de súbito se lembra. Bate com o nó do polegar na têmpora e conclui triunfalmente: «Que é o doutor António de Oliveira Salazar!»
Toda a sala, atónita, se fechou num silêncio de surpresa e espanto. Dos portugueses do Brasil, a maioria era admiradora do grande estadista. Mas ali não estava presente a política. Tratava-se de Portugal. Como interpretar o que acabava de se ouvir? Uma provocação? Um sinal de caquexia senil do velho Austragésilo? Uma brincadeira serôdia e deseducada?
O embaraço durou poucos segundos. Um vulto levantou-se e aplaudiu com entusiasmo. «Muito bem! Muito bem!» E dava palmas calorosas. Era o próprio dr. Mário Soares. Toda a assistência, em pé, o acompanhou num aplauso sincero e fascinado. As palmas não eram nem para ressuscitar a admiração por Salazar, que no Brasil continuava bem viva, nem para aplaudir Mário Soares, que era o outro lado da medalha. Era para o belo gesto com que este soubera ultrapassar um dificuldade que a todos constrangia.
Estes dois passos do que aconteceu em 1987, antes e na visita do Mário Soares ao Brasil (24 de Março a 5 de Abril), mostram o reflexo da verdadeira magnanimidade sobre o pretenso (e por uma vez real) magnânimo. Uma ironia, porquanto é o cronista adverso e subjugado, mas honrado e honesto, quem dele dá conta. De modo que da sua pena sai História e ninguém sai amesquinhado.
Notai também que o «Álbum de Memórias» foi publicado em vida de ambos: do autoproclamado «presidente de todos os portugueses» e do cronista desalinhado que, com respeito institucional adquirido noutro tempo, se conformou dignamente a tão magnânimo suserano; e nunca a história relatada foi contestada como desonesta ou falsa.
Pois que bem que se dela tira quem põe água benta e quem dá sota e ás!

Nota de 20$00 do bochechas — Ch. 8 v.: Garcia de Orta, Banco de Portugal, 1977.
[*] Corruptela desdenhosa da «liberdade» dos democratas reviralhistas, cunhada por Humberto Delgado (mais um democrata libertador…) no ano da plebescitada Constituição do fachismo, na sua Pulhice do «Homo Sapiens».
[**] Presidente com maiúscula e portugueses com minúscula. No original em forma de citação.
[***] Os do Brasil têm um desafecto insuperável com consoantes não articuladas do português como os «cc» de acção, afecto, director ou facto e com os «pp» de adopção, Egipto, excepção &c., já para não falar das maiúsculas nos meses e nas estações do ano, mas não lhes complicam nada o bestunto os «th» ou os «yy» gregos dos Athaydes.
Muito engraçado!
ResponderEliminarVexa desenterrou uma das melhores histórias do:
glorioso 25 ou do,
glorioso Benfica.
cumps
Então, visionando o 'Horizontes ...' sobre a RTP, em que apresenta o regresso de Soares, em vez de 'limpo' será o 'não gostar dizer mal de ninguém'.
ResponderEliminarQuanto ao resto. como de croché se tratasse, vá que existe filho de pai padre e filho do homem da tvcabo.
Não percebo.
ResponderEliminarBenfica?! Por bem fica?
ResponderEliminarVisione 'Horizontes da Memória', de Prof, José Hermano Saraiva, 'Imagens de Arquivo da RTP'
ResponderEliminarSim, mas que episódio? Sabe a data?
ResponderEliminarCumpts.
É um episódio (data ??) em que o Prof. apresenta várias reportagens históricas da RTP.
ResponderEliminarDesculpe a ignorância, mas o que significa a sua expressão "... dão sota e ás"? Será uma brasileirice?
ResponderEliminarMaria
Sair com vantagem. Ultrapassar com elegância, fineza.
ResponderEliminarÉ português.
Cumpts.
Que giro! Esta nunca tinha ouvido. Ou lido.
ResponderEliminar:)Maria
Bic Laranja
ResponderEliminarGostei sinceramente deste saboroso episódio que nos trouxe agora. Muito obrigado.
Para a Maria aqui vai transcrito o segundo parágrafo do Primeiro Capítulo de "As Pupilas do Senhor Reitor" de Júlio Diniz, na Edição Monumental ilustrada por Roque Gameiro:
"Em negocios de lavoura dava, como se costuma dizer, sota e az ao mais pintado." (sic)
Em meu entender, esta Obra maravilhosa saída das mãos daqueles dois grandes vultos da cultura Portuguesa, devia fazer parte dos currícula do nosso Ensino Médio.
Mas "Portugal morreu!" e não sei se algum dia se fará o GRANDE MILAGRE de ressuscitar...
Obrigado eu do apreço. E do abono de Júlio Diniz (com orthographia a condizer).
ResponderEliminarNo mais, é como diz, infelizmente!
Cumpts.