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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Jornaleiros

 Fez a jornalistagem um congresso em causa própria mascarado de altruísmo pelo bem comum. É a conta que fazem de si. Pretendem-se jornalistas e não passam de ardinas: distribuidores de notícias. Preocupam-se com «noticias falsas» (do ing. fake news) mas não se ralam de propalar boatos (do port.), se certificados por si; querem alvará exclusivo do noticiário que, só de emanar de si haverá sêlo de verdade. Só um jornalista define, portanto, o que é notícia . O jornalista é um pré-sciente da verdade e um sciente da novidade. Vem-lhe inato da carteira profissional. Calá-lo é censura. Desdizê-lo é heresia.


 Os antigos ardinas, agora que penso,  também eram assim: distribuíam notícias com a pré-sciente verdade das redacções e a sciência da novidade no colorido do pregão e no arremêsso matutino dos jornais às varandas da gente. Esta jornalistagem assemelha-se-lhe: atira pelo éter vocalizos que ecoam das pré-scientes centrais e arremessa-nos com eles à telefonia da mesa de cabeceira logo de manhã; fica-lhe mal é armar ao fino só porque o apregoa a falar na rádio, que, segundo consta, é chic a valer!


 As notícias...?


 Esta manhã a emissora nacional jorrou em contínuo: das oito às oito meia, dois noticiários e reportagem de permeio sôbre a trampa da América. Trampa noticiosa, por conseguinte, e de alvará, bem entendido, mas eco (nada mais) da central internacional, até na insinuação da trampa que o novo bama é — ou o fraco bama que a nova trampa não chega a ser. — Só parou de jorrar quando houve de meter noticiário do desporto da bola. O noticiário nacional é, nestes dias, a perigosa trampa da América. E quando assim não é, é o ex-bama da América, esse santo. Em suma, o principal noticiário da emissora nacional é o (o Marcelinho da Gente que se cuide) presidente da América. Com adjectivos que se não é «notícia falsa». Um monólito de maledicência com chancela de jornalismo. Se a central internacional não fornecer notícias, então notícia, cá, é o frio que costuma fazer no Inverno.


 Valha-nos que vamos em 20 de Janeiro e, como diz o povo, em 20 de Janeiro vai uma hora por inteiro e quem bem souber contar, hora e meia lhe há-de achar. Prenúncio de dias maiores, mais soalheiros, o que anima. Mas claro que este prenúncio só não será boato (ou «notícia falsa» como eles elaboram por défice lexical) se forem jornalistas a contá-lo.


Ardinas vendedores de jornaes, Lisboa (P. Guedes, c. 1900)
Ardinas vendedores de jornaes, Lisboa, c. 1900.
Paulo Guedes, in archivo photographico da C.M.L.


(Revisto às 20 para as 11 da noute. E mais um pedacinho em 21 às 11.)

2 comentários:

  1. Mandarinia21/1/17 07:02

    Tratam de seguir o modelo de William Randolph Hearst. A CNN e as suas 24h de "notícias" trataram de acabar com a possibilidade de um jornalismo sério e isento chegar até nós. The show must go on.

    Bom fim-de-semana

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  2. E sem esquecer o «caché» dos figurantes — figurões. Muito importante. Aliás, o cãogresso foi por isso.

    Bom fim-de-semana, obrigado!

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