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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Qui mores hominum multorum vidit et urbes



  O professor Artur Anselmo Soares deu uma entrevista ao Nuno Pacheco («Para nós o normal é o respeito pelas ortografias nacionais», Público, 12/XII/16)  em que anuncia para Janeiro, por conta da Academia das Sciencias, uns «Subsídios para Aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico».
 Antes de mais, subsídios para o «Acordo Ortográfico» são tão precisos como o próprio «Acordo». O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita, diz o adágio. De modo que aperfeiçoar uma aberração daquelas tem o mesmo nexo de se pegar num troço de matéria fecal sólida pelo lado mais limpo. Erradicar a bosta é a única solução.
 O prof. Artur Anselmo parece-me bem intencionado mas meio perdido (ou talvez não...) Em tempos ouvi-lhe o desespero ante os deputedos duma comichão para lamentar que se entreteve uns meses a fazer ponto-cruz sobre o esterco cagalhográfico metido a ferros no Diário do governo por um ministro da República lacaio de Sócrates; contou gravemente o prof. Anselmo, então, que o ministro da área cultural no [XVII.º] governo ameaçou inclusive o presidente da Academia das Sciências [prof. Adriano Moreira] de extinguir a Academia — sim, sim, de extinguir a Academia! — pelo facto de ela não estar ao lado do governo nessa matéria.
 Foi uma notícia que nenhum jornal quis dar...
 Naquele auto-intitulado «grupo de trabalho» da Assembleia também não fizeram caso. Não estavam lá para isso.


 Custa que a Academia haja chegado a isto. Qualquer ignorante atrevido ou estrangeiro que balbucie lusofonês em crioulo tem autoridade na língua portuguesa.
 A Academia das Sciencias de Lisboa não.
 O que se nota da Academia nota-se no seu presidente.
 O seu tom desesperado então era a impotência ante a desgraça a falar. O seu tom melífluo agora é como uma rolha numa torrente de lama.
 Na entrevista ao «Público» tanto diz o certo como o desdiz. Sempre a bem do outro. É desesperante.
 Diz que «os angolanos têm todo o direito de escrever kwanza com k e com w». — E até de escrever cuanza em cubano, digo eu. — Os portugueses e a sua Academia das Sciencias parecem porém não ter direitos, porque, afirma, «para as situações dúbias só com uma reunião interacadémica — porque não há outra maneira de fazer as coisas.»
 Interacadémica é mais conversa com os imortais da A.B.L.?!...—  Para lhes dizer que os angolanos têm todo o direito de escrever cuanza com k e com w?!...
 Diz ainda que «há crianças que desde o primeiro ano seguem as normas do acordo». Omite um pormaior: há muitas mais «crianças» que desde a primeira classe seguem as normas do acordo de 1945.
 A Academia acha que não pode nada e teme querer poder o que seja. Arrenega-se. Pois para que serve? Sciente disto se mostra o prof. Artur Anselmo, cheio de pruridos, a lidar com luvas de pelica a bosta «ortográfica» que empesta Portugal e ilhas.


  Pois bem, anuncia: «o que vai ser apresentado é uma proposta no sentido de seguirmos a ordem alfabética de 1945, mas assinalando em bold (antigamente dizia-se negrito, ou normando) aquilo que foi alterado. Portanto, teremos concepção com o p em bold.  [Pois! Em bold...]  A pessoa quer saber como escreve hoje e vai lá.»
 Vai lá, vai...
 Cheira-me que estes subsídios são a vil Academia das Sciencias a estribar-se no mercado com uma no cravo outra na ferradura quanto ao imbecil «Acordo». Não anuncia, pois, ela por meio deles um novo dicionario para 2018?!...
 Subsídios destes dizem-se vulgarmente agora marketing. Antigamente dizia-se apregoar o peixe. Podre.


 


————
Retrato do II.º Duque de Lafões em C.M.L.

10 comentários:

  1. Não tem a ver com o tema. Recebeu o meu email enviado ontem?
    Maria

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  2. Pois, não me admiro. Deixo-lhe por este meio o que quis informar por email. Passa-se qualquer coisa de muito esquisito com o servidor que nem sequer consigo perceber lá muito bem. Se puder responda-me para este novo endereço electrónico que fui forçada a criar, só para me dizer se tentou contactar-me para o anterior e-mail, se calhar não. Porque se o fez não recebi nada. Inacreditàvelmente o Google apagou-me todos os e-mails e outros dados que me faziam falta, sem me pedir autorização e o pior é que não consigo recuperá-los! Este facto parece-me muito estranho, além de o considerar absolutamente inadmissível.
    Maria

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  3. Comeco a nao ter vontade de por os pes nessa canto da Iberia.

    O Minho e o Douro Litoral vistos do aviao sao as zonas mais desordenadas que conheco na Europa. Onde havia carvalhos no seculo XIX ha agora eucaliptos e acacias. Nao conheco nada assim no Velho Continente.

    As casas tradicionais deram lugar a mamarrachos. Os alemaes dizem que os portugueses sao como os turcos. Vivem em apartamentos.

    Tudo o que vejo me fere o espirito. Os matagais de eucalipto dispersos na paisagem. Os mamarrachos. As marquises, os aluminios, os toldos e as cadeiras de plastico, os platanos destruidos com podas radicais, os sobreiros a morrer no Alentejo com uma praga importada. As casas devolutas, as fabricas em ruinas. Chamam ao Porto a Detroit da Europa.

    So faltava mexerem na Lingua, fizeram no criminosamente na Primeira Republica e agora vao faze lo de novo.

    Desde a derrota de D. Miguel que esta forca estranha destroi Portugal.

    Peco desculpa pelos erros mas o teclado e ingles.

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  4. Desde que acabou, Portugal anda assim: a saque. Tudo o que refere serve à descrição do saque.
    Salvo com o idioma.
    Isso é prostituição.
    Mas…
    Feliz Natal!

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  5. E, apenas para saber, quando é que acabou Portugal?
    Em 1580, em 1834, em...

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  6. Não é "apenas" a Língua, peço desculpa pela insistência. Cavalgando o AO90 e "ao abrigo" da suposta "uniformização" que o dito propagandeia assiste-se já a uma campanha, metódica, sistemática e altamente peofissionalizada, de apagamento da História e da Cultura, de qualquer resquício, em suma, daquilo a que dantes se chamava Portugal.

    A "língua universal" de Malaca, Cavaco, Santana, Sócrates e demais mercenários não consiste em "apenas" eliminar umas quantas "consoantes mudas", não é "só" a "adoção" da norma ortográfica brasileira. Pelo contrário, isso é que é apenas a face mais espectacular e evidente de uma operação incomensuravelmente mais vasta, abrangente e sinistra: erradicar, eliminar, exterminar toda e qualquer marca histórica portuguesa, seja o que for que de cultural, patrimonial e identitário sequer "cheire" a português.

    O AO90 não implica "só" a abolição de uma "classe" lexical informática (CHCP 860), abrange também todos os sistemas de indexação, pesquisa e dicionarização electrónica. Veja-se, por exemplo, o que sucedeu a todas as entradas da Wikipedia portuguesa (evidentemente, já erradicada): foram substituídas por equivalentes brasileiros (p.ex., a ilustração de "palácio" era o de Belém, agora só lá está o do Planalto). O Google ou qualquer outro "motor de busca" devolve hoje apenas resultados brasileiros à cabeça e apresenta como erro qualquer critério de pesquisa em Português-padrão.

    Os nossos jovens (e outros parvalhões não tão jovens como isso) já vão macaqueando as expressões idiomáticas brasileiras e até as (básicas, primitivas) construções frásicas daquela banda.

    E assim por diante.

    Até a arquitectura em Portugal já vai perdendo o C...

    http://cedilha.net/ap53/?p=4635

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  7. Tem razão. O aborto gráfico é somente um dos pratos do prostíbulo em que Portugal se tornou, onde o crioulo entremeado de «amaricano» saloio segue livremente o seu curso.
    Um país deveras perdido; uma nação cega e órfã totalmente à deriva.
    A «arquitectura» é outra representação da curteza de vistas que povoa o prostíbulo. Até nas casas de putas do Conde de Abranhos havia melhor decoração e gosto, não sei se me entende...
    Paupérrima pobreza de chancela oficial, esta. Que miséria de regime, p.q.p.!

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  8. Vostos de feliz Natal e melhor ano novo.
    Abraço!

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