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quinta-feira, 2 de julho de 2015

Da resistência ao aborto gráfico

 Quem me conhece sabe que não sou de militâncias. Não me embalo com democracias. Todavia há maneiras de prosseguir intentos.


 Há cinco anos, o surpreendente empenho do institucionalão saco de plástico apanhou-me num fim-de-semana na praia e tomei consciência de que o inacreditável estava a ir por diante com mão invisível ante a bovina atonia geral. Depois da petição das 100 000 assinaturas à Assembleia encabeçada por Vasco Graça Moura haver sido humilhantemente arquivada ao esquecimento por uma horda de deputados desqualificados, parecia-me bem que mais nada se haveria fazer por contrariar a ignomínia. O que era surpreendente! Porque todos a que falava na porcaria do aborto gráfico se mostravam tão contrariados e ofendidos como eu.


 Pois bem, no meio daquela resignação fúnebre animei-me quando descobri a I.L.C. e os seus mentores, que prosseguiam, afinal, o intento de atalhar ao vergonhoso aborto gráfico com um projecto definido. A I.L.C., com os seus mentores e colaboradores era o único porto de abrigo dos que, como eu, não desistiam, mas não viam bem o que fazer.


 Infelizmente a I.L.C. não teve êxito. Congregadora de vontades individuais, mas apolítica, apartidária e não corporativa -- uma verdadeira iniciativa de cidadãos -- a I.L.C. demonstrou que a democracia -- sempre incensada nos media e agitada panfletariamente contra ditaduras e fassistas -- há-de ser boa é para... gregos.


 O diário Público e o semanário O Diabo, que se assumiram e assumem militantemente contra o aborto, e outros que continuam a escrever em português sem caso de abortografias como o Sol, o I, os Económicos ou a revista Sábado, nenhum - NENHUM! -- se dispôs a encartar os impressos da I.L.C. para recolha das necessárias 35 000 assinaturas.


 Mas a I.L.C. perseverava. E era só o que mexia.


 Outros, por vaidade, ciumeira ou sei lá porquê, em lugar de congregarem a massa de descontentes que como eu andava à nora em 2010, dividiram-na. -- O espectáculo dos grupelhos rivais da I.L.C. no livro das fuças a maldizerem-na, com erros de português, foi desgraçado.


 Chegados aqui, o aborto gráfico tomou Portugal de presúria e, refastelado no diário do governo, alambazado aos dicionários, mina tudo para embrutecimento do indígena. Ele é ver o índex das asneiras compilado pelo confrade J.P.G. da I.L.C.. A única asneira que lá falta -- a pior, a meu ver -- é dos novos mentores do referendo que surgem agora, ou mais outra vez, a fazer melhor que a I.L.C.: recolher, não 35 000, mas 79 000 (!) assinaturas para propor um referendo àqueles deputados engajados a tudo menos às Belas Letras ou sequer à Gramática. Como o farão não sei dizer; sem o empenho de diários, semanários, pasquins ou folhas de couve com um encarte de impressos como descrevi em cima, e sem os voluntários que angariaram a custo e expensas próprias as c. de 15 000 assinaturas da I.L.C. ...


 E é isto, a resistência ao aborto gráfico. Cada um faz a sua. Eu, por mim, enquanto tiver caneta e força nos dedos vou assinando e rasurando. E evitando protagonismo.


 Isto foi só um desabafo!... --  E agora vou ver a corrida na monumental da minha terra.

Arte & Emoção.
(Imagem da Radiotelevisão Portuguesa, ex-programa «Arte & Emoção».)


 


(Revisto no intervalo da tourada.)

3 comentários:

  1. Caro companheiro de luta,

    Gostaria imenso de ser capaz de lhe dizer o que me vai na alma. Mas não consigo, na verdade. Embarga-se-me a "voz", isto é, atrapalham-se-me os dedos nas teclas, não me saem as justas palavras de admiração pela sua perseverança nesta longa luta e de respeito pela coragem que nela sempre demonstrou.

    Não quero, no entanto, deixar de ao menos lhe deixar aqui, publicamente, uma palavra singela que manifesta a minha mais profunda, sincera e, devo confessar, algo comovida gratidão: obrigado!

    Até sempre.

    João Pedro Graça

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  2. P.S.: com sua licença, tomo a liberdade de reproduzir este seu texto no meu "blog" pessoal, aquele mesmo "Apartado 53" que dantes era colectivo e apenas recebia e que agora é individual e somente envia correspondência.

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  3. Caríssimo João Graça, não há de quê. O que disse é de elementar justiça: o caso nos devidos termos.
    Um abraço e obrigado eu.

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