(Nesta agora mistura-se o comboio e a pontualidade por um cânone assaz extravagante — ou out of the box, como parece chic a valer louvar-se por aí agora qualquer imbecil extravagância...)
In illo tempore, conta Trindade Coelho o curioso e caricato caso que pregou na cadeia academica, em «paternal custodia», os estudantes Azevedo e Silva e Manuel Palma, que eram redactores duma folha, a Evolução, que publicavam em Coimbra. Aquilo é que foram tempos de censura e presos políticos...
« Este incidente do Palma e do Azevedo e Silva, foi dos mais interessantes do meu tempo de Coimbra. Foi por causa da Evolução, um jornal de que o Palma era também editor, e onde sahiu um artigo do Azevedo e Silva, irreverente para a Universidade! Foram julgados pelo conselho de decanos, que os condemnou a uns dias de prisão e á perda de um anno; mas os dias de prisão foram de um grande pagode, porque á porta da cadeia academica, na rua dos Loyos, tinham sempre musica á hora de jantar, e champagne e companheiros a rodos; e quanto á perda do anno, remediou-se com uma portaria que revogou o accordão do conselho de decanos, mas que foi arrancada a ferros pelo Eduardo d' Abreu, ao ministro que era então o Fontes! Farto já de telegraphar ao Fontes sem resultado, o Eduardo d' Abreu apresentou-se na estação de Coimbra, quando o rei D. Luiz vinha do Porto de inaugurar os Albergues Nocturnos; e depois de conferenciar com Sua Magestade, no salão do comboyo, como o rei, constitucionalmente, só lhe désse bonitas palavras, e o Fontes, que estava ao pé, nem isso ao menos, o Eduardo d' Abreu vem á plataforma do salão real, e grita assim para a Academia toda:
— Estudantes de Coimbra! Sua Magestade El-Rei acaba de me dar a sua palavra d' honra de que logo que chegue a Lisboa fará expedir uma Portaria readmittindo os estudantes Azevedo e Palma! — Viva Sua Magestade El-Rei!
A cara do Fontes não se descreve; mas caso é que logo que chegou a Lisboa, a Portaria foi expedida, e em Coimbra, durante uns poucos de dias, reinou um pagode real! Tenho todos os documentos, sem faltar um, d'esse longo e accidentado incidente, e formam um volume como um diccionario!
O Azevedo e Silva está advogado em Lisboa, e é um commercialista de grande nomeada, aliás justissima; — e o Palma, o Manuel Palma que era o rei dos rapazes, e a quem chamávamos o conselheiro por usar barba toda e ser o modelo da pontualidade e do apuro, esse está em casa no Alemtejo, acho que em Beja.
A pontualidade do Palma era tal, que cortava sempre o cabello no dia 1.º de cada mez, no Vaz que tinha loja de barbeiro ao pé da Feira; e como quer que uma vez alterasse a regra, e nos apparecesse na aula, no dia 1, sem o cabello cortado, e só o cortasse no dia 3, o Alfredo da Cunha fez-lhe logo estes versos:
Caso estranho e singular!
Singular e estranha ideia !
Venham sábios da Chaldeia
Tal phenomeno explicar!
Elle — o Palma — foi cortar
O cabello em dia três!!!
Mas porque é que d'esta vez,
Porque é que elle desvairou,
E o cabello não rapou
No primeiro d'este mez?!Trindade Coelho, In illo tempore, estudantes, lentes e futricas, Aillaud, Paris — Lisboa, 1902, pp. 152-153.
Pois deste caso tenho ainda que me meti hoje, eu, a ensaiar a tonsural pontualidade do Palma. Com uma diferença, que foi a de cortar o cabelo em dia 30 — o último do mês e não o primeiro — porque doutra forma não acharia como o fazer em tempo de aparecer na aula, no dia 1, com a lã tosquiada.
Imagens: Locomotiva D. Luiz, [s.l.], 1933-83. Mário de Novais, in Bibliotheca d' Arte da F.C.G.; Fradinhos, da rede...
Sem comentários:
Enviar um comentário