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sábado, 25 de abril de 2015

Post scriptum ao grande acidente nacional


Sede da DGS, Lisboa (A Cunha, 1974).JPG



P.S. — A história da despedida no quartel do Carmo, ao descer as escadas entre duas filas de soldados armados (que ninguém mandou combater...) é rigorosamente exacta. Todos eles me iam dizendo uma palavra de conforto e ânimo: «Adeus, senhor Presidente!», «Boa sorte, senhor Presidente!» e é verdade que alguns o diziam com lágrimas. Aliás, o comportamento das praças, dos sargentos e oficiais práticos (vindos de sargentos) foi excelente e correctíssimo. Quem falhou pela inércia (ou cobardia) foi o general e os oficiais superiores que o cercavam e que, se não estavam comprometidos com a revolução, pelo menos não a queriam hostilizar.
 Caso curioso: no quartel da Pontinha, onde depois estive preso até embarcar para a Madeira, também os soldados que me puseram de sentinela foram correctíssimos. Algumas vezes tive de atravessar um corredor onde eles estavam e nem uma só vez deixaram de se perfilar à minha passagem. Não sabiam do que se passava? Ignoravam a minha situação? Ou era o hábito adquirido e
ainda não perdido?
 Depois, no Funchal, é que assisti à rápida degradação da disciplina e aos mais indecorosos espectáculos de soldados anarquizados...


Marcello Caetano... in Maria Helena Prieto, A Porta de Marfim, Verbo, Lisboa/São Paulo, 1992, p. 284.




(Chapa do marinheiro no gab. de Silva Pais encenada por Alfredo da Cunha.)

2 comentários:

  1. Quer maior infelicidade que ter nascido neste dia?

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  2. Não tem nada que ver. A desdita de ver uma pátria a alegremente a suicidar-se calha por igual a todos que por cá andamos neste tempo.
    Feliz dia de S. Marcos! (Ou é já de Santo Isidoro?)

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