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quarta-feira, 22 de abril de 2015

Marcello Caetano, o bacalhau, a água-pé e o esgotamento da filosofia



 « [...] Entretanto a Amália chegou e com espantoso prestígio mobilizou portugueses e brasileiros para a ouvir [...].


  Não fui a nenhum dos espectáculos, temendo comprometê-la politicamente. Mas para Portugal, para matar a nostalgia do lusíada, coitado, há um ersatz do fado, diria mesmo um fado culinário — é o bacalhau. O português mata as saudades da santa terrinha engolindo a sua bacalhauzada. E é tal a crença da aliança íntima entre a nossa nacionalidade e o dito peixe seco que, quando os brasileiros querem homenagear um português, zás, dão-lhe bacalhau! Os brasileiros jantam cedo, aí pelas 6½ , 7 horas da tarde. Mas, quando vou fazer conferências fora do Rio, há, em geral, uma ceia, oferecida pela Universidade ou entidade convocante, depois da função. E o meu estômago delicado, que em Lisboa só tolerava um bacalhauzinho bem disfarçado ao almoço, já tem sido bombardeado depois da meia-noite com uma realíssima posta de bacalhau alto ou com um Gomes de Sá bem condimentado e acebolado. E não acontece nada... Há dois dias, justamente, um português que aqui vive há muitos anos, amigo da Amália, que andou a acompanhá-la e foi conduzi-la ao aeroporto, no regresso, telefonou-me com voz cava, a dizer que 'estava na fossa', só de todo, até os amigos tinham desaparecido naquela tarde... Faria eu a esmola de ir comer um bacalhau com ele? Devo-lhe atenções inúmeras. Claro que fui. Num restaurante português modesto banqueteámo-nos lautamente, eu com uma e ele com três suculentas postas de bacalhau, regado a vinho, que ele quis verde, porque é minhoto, mas eu, com alguma noção da decência em matéria vinícola, não dispensei de que fosse tinto e maduro. Estás a pensar, ó adorável adoradora do pensamento clássico, que no final discutimos algum profundo tema ligado ao enigma do destino humano ou pelo menos à falta de enigma da próxima bancarrota da pátria portuguesa. Ledo engano! A discussão travou-se, como convinha após um ágape tão carregado de inspiração, mas sobre as virtudes da água-pé e os processos de a fabricar com melhor aroma, sabor e conservação. E garanto que se Platão estivesse presente teria registado o diálogo com o mesmo apuro, a mesma exactidão, a mesma devoção com que deixou para a posteridade as palavras de Sócrates. Mas não estava. O que de certo modo foi pena. Porque a filosofia já está esgotada por milhares de sábios e dezenas de escolas. A água-pé, não. »


Marcello Caetano, «Rio. Julho. Inverno com calor», 16/7/1978, in Maria Helena Prieto, A Porta de Marfim. Evocação de Marcello Caetano, Verbo, Lisboa/São Paulo, 1992, p. 156-157.



(Bacalhauzada da Teleculinária.)

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