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sexta-feira, 10 de abril de 2015

A faina da minhoca...

 A faina da minhoca, um passo na agenda, teve honras publicação metafórica. Na verdade houve lá honras a ministro... Uma surpresa.


 Salvas as estátuas de ministros passados que por aí bronzeiam ao sabor do defecar dos pombos, nunca me tal  acontecera: um passarão ministro poisar-me adjunto a menos de 100 (que digo?! 20! 10!...) metros. Eis no que me dá flanar por congressos da minhoca a que a faina de meus mesteres me encaminha. Tivera eu adjuntado a importância àquilo que realmente ministerialmente importa e olhado sequer o programa da minhoquice, não haveria hoje aí ministro de inconsciente resplendor por fortuitos encontros com este vosso atento venerador e obrigado. Valeu-lhe a honra de me haver por lá do meu descaso. Por mim, fintas do destino.


 Pois bem, mas da faina da minhoca acabei por guardar nuns linguados de papel umas larvas-chavão (palavras-chave duma concepção minhoca da realidade) do melhor que a cultura catedral-académico-empreendedoral -- e por fim, também, governamental -- destes espumosos dias produz. Isto por veneranda atenção ao benévolo leitor e pessoal desfastio, o que é quase uma redundância porque poucos além de mim lêem estes desabafos. -- Ah, e para memória futura, já que, de ligeiras, ligeirinhas, velozmente estas modas mudam e eu ràpidamente as esqueço, se as aprendo...


 Logo na 1.ª oração: maximização, inovação, competitividade, retorno de investimento, boas práticas, empregabilidade. -- Falharam na 1.ª, mas afloraram imediatamente na 2.ª oração, a inevitável pró-actividade e derivados (pró-activo, pró-activamente) e o infalível empreendedorismo. Mais vespertino foi um alavancar, não sem que antes as boas houvessem de passar a melhores e estas a óptimas práticas. -- Se não parece isto o Fukuyama e o fim da História... De entremeada, gorjeios espumantes de pseudo-anglicismos-chavão, que passo, a bem da sanidade do leitor benévolo e da santa paciência; e ainda porque esses pseudo-etc. promulgados no palreio exótico de araras e bípedes de garrida penugem nem inglês chegam a ser; o que aquilo é é amaricano pavoneado e emaitiano. Ou ISCTEiano, para figurar brios tidos por mais cá da casa...


 A oratória do ministro inspira-se nos mesmos ingredientes ISCTEianos, mas compõe-se dum quasi-protocolar porte institucional, vede se não... -- Competivividade e internacionalização da economia; economia inovadora e competitiva; perfil da economia e mobilização da dita cuja; investimento, conhecimento, qualificação, pessoas, em-pre-ga-bi-li-da-de... mobilidade e inclusão social, diz que são os factores decisivos para nos aproximarmos dos níveis europeus. -- Ou para, no fundo, doutrinar o indígena no saltitar alegre de (des)emprego para (des)emprego por devoção à tal competitividade.  Além de que aquilo dos níveis europeus serve desde logo para a diluição do que quer que seja verdadeiramente português.


 E bom, no fim, um trabalhador que por desnorte perca o tino ou por desventura o trabalho, graças às dimensões estratégicas da qualificação e da formação rezadas como quem reza o terço ao fim da tarde, achará a salvação, acabando criativa e inovadoramente colaborador. Tenho a fèzada que da mobilidade e inclusão social apregoadas lhe possa valer ainda um grande arquitecto universal com qualquer empregabilidadezinha. Nalgum partido governável, governabilizável, de governança ou de governo. Do rol de ingredientes discursivos aqui enumerados elencados, nem será difícil achar-se o trabalhador colaborador alocado como co-ladrador recheando de palavras os perdigotos -- necessàriamente bitolados nos níveis europeus -- dalgum candidato a ministro ou, eventualmente, de ministro acabado da eloquência de palavras feitas, candidato no fim da História a uma estátua maximizada, optimizada ou coiso, onde os pombos empreenderão certificada obra. Claro que o co-ladrador figurará ao lado, pela trela, à maneira do leão do marquês.


Rotunda, Lisboa (P. Correia, c. 1934)
Rotunda, Lisboa, c. 1934
Pinheiro Correia. in archivo photographico da C.M.L.




Revisto às nove e meia de onze.

2 comentários:

  1. Olhe, observo estas fotos lindas e refiro-me sobretudo às desta época, mas não só, que volta e meia aqui vai colocando e fico deliciada com tudo o que nelas vejo. O desenho e o traçado impecável das avenidas e dos passeios; o dos próprios edifícios, não sendo embora do melhor que se poderia ter feito na altura, eles são não obstante dignos o suficiente para serem apreciados (e então se os colocarmos lado a lado com a porcaria que desde há trinta ou vinte anos se tem vindo ininterruptamente a edificar, minha Nossa Senhora!, não há comparação que lhes possa valer...) não agredindo a visão de quem os contempla e enquadrando-se mais ou menos bem no espaço em redor e com resultados satisfatórios para os fins a que se destinavam.

    Bem, então aqueles pequenos blocos circulares de pedra - com postes d'iluminação naturalmente neles colocados para os sinaleiros poderem regularizar o trânsito em segurança - construídos com precisão milimétrica a meio do piso e no início de cada uma das cinco Avenidas a desembocar na Rotunda, são de uma beleza visual realmente rara.

    Parabéns por publicar fotografias tão belas. Tempos, como os retratados, que, por variadíssimas razões entre as quais se detecta, mesmo para quem não os vivei, reinar uma paz social e uma segurança incomparáveis, uma ausência total de violência e um respeito absoluto pelos bens públicos em geral e pela autoridade e pelos mais velhos em particular, tantas saudades têm forçosamente que deixar.

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  2. Realmente as pequenas ilhas marcavam o eixo das radiais, serviam de guia ao automobilista e tinham um efeito estético muito artístico.
    Os edifícios eram outro mimo. O bom gosto da época era o mais das vezes enobrecido por materiais e acabamentos de primeira (aqueles dois prédios de rendimento, sempre mal apreciados se comparados com os palacetes, no lado da Braamcamp tinham jardins de Inverno).
    Hoje é só sucata.
    Cumpts.

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