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domingo, 8 de março de 2015

Rio de Janeiro: factos e lendas

Ataque português ao Forte Coligny, Ilha das Palmeiras (Vilaganhão, R.J.), 1560 (Anónimo, 1567)



«Em 1 de Março de 1565 [Estácio de Sá] funda a nova cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro na terra firme, em lugar em que há água e com acesso próximo a mantimentos (História da Expansão Portuguesa, v. 1, 1.ª ed., Círculo de Leitores, 1997, p. 211).»



 É um facto. A data de fundação do povoado de S. Sebastião na baía de Guanabara foi em 1 de Março de 1565. Dele elaborei há 8 dias um tanto sobre aparentes contradições: Rio de Janeiro em Março; S. Sebastião, cujo dia se celebra em 20 de Janeiro, para orago dum povoado fundado... em Março; confusão de rio com baía (de Guanabara).



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 O rei de França teve pretensões a um império à custa dos portugueses e cobiçou o Brasil. Por 1555 Vilaganhão guiou uma expedição; com um punhado de colonos que não sabiam bem se eram calvinistas ou católicos, mas que eram na essência ex-presidiários, levantou uma paliçada na ilha das Palmeiras, uma ilha sem água na baía de Guanabara. A História chamou ao grande feito a França Antárctica.
 Da sua efémera história rezam as crónicas do fervor religioso de Vilaganhão que obrigava os colonos que se naturalmente juntavam com nativas a casarem-se catòlicamente e, ao mesmo tempo, forçava os Tamoios a acabarem com a sua tradicional antropofagia. Como reforços ao esforço civilizador recebeu de Genebra uma seita de calvinistas. As lutas religiosas entre católicos e protestantes em França replicaram-se na França Antárctica...


 Pois, Estácio de Sá foi lá e deu uma vassourada naquilo. Os franceses que se safaram fugiram para a mata (não rezam as crónicas de os Tamoios os cozinharem), mas para segurar definitivamente o lugar nas mãos dos que o descobriram e baptizaram em 1502, fundou então Estácio de Sá o povoado de S. Sebastião, entre a Cara de Cão e o Pão de Açúcar. Foi isto em 1 de Março, como já ficou escrito. Chamar S. Sebastião ao povoado talvez se explique nalguma lenda encoberta...


 Não curo agora de saber se é do tempo desta vassourada nos franceses a lenda das Águas de Março, mas sei que é dele a lenda da garota de Ipanema.
 A lenda é que foi um gaiteiro de Miranda que ia na armada do Estácio de Sá em 1565 que, enamorado da bela filha do chefe dos Tamoios, compôs a famosa cantiga. Como os marotos dos Tamoios andavam aliados aos franceses contra os portugueses foram todos colonialmente dizimados e aí o nosso gaiteiro desistiu das cantorias, desencantado de amores impossíveis. -- Càiu nà rèau, né! -- Os pergaminhos em que escrevera a notação musical da cantiga enterrou-os num baú no areal de Ipanema juntamente com um fio de cabelo da amada e umas libras de Tours pilhadas aos franceses. E lá ficaram até quando um cão desenterrou nos anos 60 o baú e apareceu com ele na boca diante do Vinicius e do António Jobim que desfaziam a sede e o calor com uns chopes no bar do Veloso, à esquina da Rua do Montenegro em Ipanema...
 As moedas deram à justa para pagar mais uma rodada.


Rio de Janeiro (A. Cicarelli, 1844) 




As imagens do ataque português ao forte de Vilaganhão (Autor anónimo, 1567) e Rio de Janeiro em 1844 (Alexandre Ciccarelli) são da enciclopédia coiso.

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