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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Da pureza de «tal [e] qual»

Sobre a pureza do uso da expressão tal qual ante tal e qual houve há semanas um comentário inesperado dum leitor.



Desculpai [...] tenho de vos corrigir: «tal qual» e não «tal e qual». Considero curioso como ninguém se engana em «tal como», «tal que» e outros advérbios, mas a patetice do «tal e qual» vai medrando. «Um erro mil vezes repetido...»



 Empreendendo na curiosa questão que me nunca pusera, reflecti. Não será antes uma questão de estilo, de ênfase? — A conjunção funcionando como reforço de realce. — Ou até de fonética, já que se interpõe como epêntese para dissimilar duas sílabas de vocalismo idêntico?
 Não obstante o uso corrente de tal qual desde a Idade Média e de Epiphanio Dias se lhe referir apenas nesta forma na sua Syntaxe Histórica, a locução comparativa tal e qual já nos surge em Rodrigues Lobo, no Diálogo VIII de Côrte na Aldeia e Noites de Inverno como arrimos, a que se pega ou encosta o que fala, quando as palavras lhe cançam,


[...] são mettidos na mesma pratica com alguns, que em cada palavra d'ella mettem um «diz», «assim que digo», «tal e qual», «sim senhor», «vae vem», «então», «senão quando», «espere vossa mercê», «assim que», «senhor», «estaes commigo»; e outros muitos [...] (p. 116)

... o que nos atesta o seu uso desta maneira desde os alvores do séc. XVII, pelo menos.
 Garrett também a aplicou tal..., em discurso directo, nas Viagens


— Tal e qual quando fazes essa cara. Olha: ahi estás tu na mesma. Vamos! ria-se e esteja contente (Vol. I, cap. XXIV).

 Há cousas que vareiam na voz do povo sem haver despachos nem decretos... Leixá-las assi bem variar.


É de feira em concrusão
e bailam-na cada dia
porque sai a melodia
tal qual fica o coração,
ao revés do que soía.

(Gil Vicente, Triunfo do Inverno.)

 


 


 


Os bonecos são d' A Farsa de Inês Pereira do Rafael que, parece, lê português, 
mas escreve num crioulo qualquer (quem lhe chamar português engana-se).

20 comentários:

  1. Anónimo4/9/14 15:52

    Que no tempo de Gil Vicente se usasse o "tal qual" era absolutamente normal. Como muitas outras expressões do português corrente entretanto alteradas com o decorrer dos tempos.
    Também concordo totalmente quando diz/disse que a conjunção está ali como uma questão de estilo mas sem dúvida, como realçou e bem, tem ali a função de uma partícula de realce.
    Não quer isto dizer que se não possa retirar a conjunção à expressão numa escrita corrente, mas, desculpar-me-ão os menos atentos, a dita fica como que coxa...

    Salvo melhor opinião, o grande, enormíssimo Fernando Pessoa empregava-a tal e qual:)
    Maria

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  2. O uso secular legitima ambas. Portanto sai a melodia tal qual fica o coração; opta-se hoje por estilo ou gosto. Ao revés do que se verá amanhã, em que a ignorância monolítica dos televisivos extinguirá uma delas.
    Cumpts. :)

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  3. Joe Bernard4/9/14 19:40

    Curioso, quando vejo a cambada política na televisão, lembro-me sempre de Gil Vicente e a farsa "Quem tem farelos?", que começa... Quem tem farelos, Quien tiene farelos, Ordonho, Ordonho, Ó fideputa ruim! Sapatos tens amarelos, já não falas a ninguém.
    Porque será???

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  4. M.Martins4/9/14 23:05

    E o pior é que dois séculos depois,continuam a ser os mesmos porcos...raras excepto algumas raridades!
    Gostava de escrever com a mesma subtilesa que o grande Eça de Queiroz,mas mesmo se fiz o exame da quarta classe numa escola ao lado da sua casa nas Janelas Verdes.Jamais não terei o grande dom do grande Eça de Queiroz.Bravo a voçês todos...é um prazer vos ler.Cumprimentos

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  5. Bic Laranja5/9/14 19:20

    Eça teve um dom muito, muito raro.
    Grato pelo seu apreço! :)

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  6. Inspector Jaap7/9/14 21:10

    Ou de como estou MUITO mais culto desde que tropecei nesta pérola cibernética!
    Obrigado pelas maravilhosas lições de "Bom Português", estas sim!
    Cumpts

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  7. Inspector Jaap7/9/14 21:13

    Impecável a sua observação e cheia de oportunidade!
    Será que Gil Vicente era da família de Nostradamus?
    Cumpts

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  8. Bic Laranja8/9/14 10:02

    Meras curiosidades, que também eu venho aprendendo.
    Obrigado!

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  9. Anónimo8/9/14 21:13

    Ando à procura de uma frase ou pedaço de texto saídos da pena dos nossos dois maiores, Camões e Pessoa, sobre este particular. E até de Antero cujos poemas muito aprecio. Quando encontrar venho aqui transcrevê-lo/s.
    Maria

    Peço-lhe desculpa por uma pequenina observação. Escreve-se "mailo" e não mai-lo, como já aqui deixei nota há algum tempo, mas não terá reparado òbviamente. Sorry:)

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  10. Bic Laranja8/9/14 21:46

    O que me sucede é grave.
    Ainda há dias reli uma troca de impressões que tivemos por aqui sôbre uma destas pequenas questões de me não lembrava de todo. Pois além além do esquecimento e de recorrer no êrro que lá desbastávamos, esqueci-me totalmente agora do que era.
    Isto anda bera, hem!

    Porém do «mai-lo» vs «mailo» talvez me possa remeter ao que já empreendemos na questão para não empreendermos escusadamente no mesmo.
    Grato.

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  11. Anónimo8/9/14 22:21

    Correcto! Obrigada sou eu.
    Maria

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  12. De Camões há o soneto Se a Fortuna inquieta e mal olhada...

    De mai-lo / mailo, há-de-me fazer o favor de reavivar a sua nota pois não na acho.
    Queira desculpar.

    Cumpts. :)

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  13. Anónimo9/9/14 23:46

    Uma pequena maravilha esse soneto do nosso maior Poeta.

    Olhe, a minha minúscula nota incluída no meu comentário de há uns quatro ou cinco meses (sensìvelmente) resumia-se tão sòmente a uma única palavra "mailo", exclusivamente para chamar a sua atenção para o facto, dado o seu por demais reconhecido intelecto. Isto porque reparei que nesse seu escrito grafáva-a "mai-lo" e já o havia feito várias vezes anteriormente:)
    Mas quem sou eu para corrigir um Senhor que sabe infinitamente mais do que eu no que à Língua Portuguesa diz respeito e não só, senão fazê-lo com o mínimo de palavras e o máximo de discrição?

    Eis o que os meus dois Dicionários da Língua Portuguesa, da Porto Editora, 5ª. e 6ª. edições, dizem sobre este vocábulo. A 6ª., porém, acrescenta: "Corrigida e Aumentada".

    5ª. e 6ª. edições: (ant. e pop.) aglutinação de 'mais' (prep.) e 'lo' (art. arc.), com o significado de mais 'o', com 'o'.

    Maria

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  14. Peço desculpa, na penúltipa linha deve ler-se: "Mailo (ant. e pop.) aglutinação de... "
    Maria

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  15. Caro Bic Laranja
    Procurar exemplos para o Português em escritores passados ou presentes é um exercício perigoso: Fernando Pessoa defendia soluções mais absurdas para a acentuação que aquelas propostas no AO90, nas suas Bases VIII até à XIII. Sousa Tavares, ou aquela pessoa que escreveu um livro (?) com o título "Sei lá", poderão ser apontados como exemplos de utilização correcta da Língua Portuguesa? Y em 2414, já poderão sê-lo? (isto, partindo do princípio que ainda haverá tal língua nesse século). Escritor é alguém que tem a capacidade de utilizar as palavras para contar uma história, não é sinónimo de pessoa que sabe Português. É um utilizador da palavra, tal como nós. (reparai: "tal como" y não "tal e como")
    Devemos antes procurar a demonstração em pessoas que estudam estas matérias. Infelizmente (para mim) não fui capaz de encontrar a referência que procurava. Desde a TLEBS y o AO90, deixei de confiar em fontes da Rede escritas em português quando o assunto é especificamente referente à Língua. Mas recordo-me da explicação dada por um filólogo que tinha uma coluna no jornal "Tal & Qual", onde demonstrava porque razão "tal e qual" é um êrro. No fim dessa demonstração, ele explicava aos leitores os motivos pelos quais o jornal não iria mudar o nome - creio que é óbvio (ou óvio? dúvida cruel!). Peço desculpa à pessoa em questão y aos frequentadores deste espaço por não me recordar do nome do personagem (o texto que refiro terá sido escrito por volta de 1990). Resumindo, as locuções adverbiais que utilizam a partícula "tal" não utilizam "e" y quando alguém o emprega está a cometer um êrro, mesmo que seja um escritor renomeado.
    Na minha vida profissional, eu utilizo amiúde várias fórmulas físicas, eléctricas y matemáticas. Aprendi essas fórmulas na escola y para todas elas há demonstrações, que também estudei. Creio não ser necessário explicar que, apesar de eu ter esquecido as demonstrações de quase todas as fórmulas, consigo utilizar as fórmulas correctamente y, sempre que verifico que alguém as utiliza indevidamente, corrijo essa pessoa, não necessitando de demonstrar constantemente o acerto com que as utilizo.
    Tudo isto para explicar que, daquele artigo do "Tal & Qual", eu esqueci-me do acessório (o nome do professor, a data do jornal) y retive o essencial (a demonstração) y, tal cômo expliquei acima, não preciso de conhecer de cor a demonstração para empregá-la correctamente no código escrito. A partir do momento em que se sabe, deve utilizar-se a fórmula correcta y não ceder a populismos bacocos - aliás, parece-me ser isso mesmo o que vós defendeis aqui neste vosso espaço, não ceder ao analphabettismo actual. Quem sabe tem a obrigação de ensinar quem não sabe y quando todos souberem ninguém cometerá êrros (num mundo ideal...).
    (...)

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  16. A um outro nível, se "vox populi vox Dei", então teremos que passar a aceitar cômo certas quaisquer formas de expressão que qualquer um utilizar, tais como "prontes", "quaisqueres", "a gente vamos" y outras bojardas do estylo . Teremos de aceitar como válidas graphias do género "inda", "inté", "tábem", "tálá", "cagora", "tô", "tékimfim", "memo", "tabém" y tamém". Conheço gente que pronuncia "ocalito" y "gurte" há anos, mui antes da aplicação à fôrça desta assôrda horto grahphica vigente. Devemos aceitar isto cômo certo? Y que dizer daquela senhora que apareceu na tvi afiançando que um vizinho tinha patite? Estará ela certa? Quantas pessoas são precisas para tornar certo o que as regras da língua afirmam ser errado? Uma das palavras que agora está na moda é "juiza". Um analphabetto qualquer arrotou isto y os analphabettos do costume aceitaram tal coisa. Mas afinal estará certo? Se "vox populi"...
    Teremos, por coherência com esse princípio, que aceitar o acôrdo horto grahphico de 1990. No cine-theatro Joaquim d'Almeida, no Montijo, um interessante panphleto de 1916 anuncia que naquele espaço se "realisam espètaculos". Possuo uma revista de 1912, intitulada "Ilustração Portugueza", que aplica o AO90, com graphias curiosas cômo "Hespanha", "diretor" y "director", "Suissa", "arquitetos", "emtanto", "redator", "aspetos", "aspéto", "excecionaes", "Alemquer", "espétaculo", "abril", "fevereiro" y "Fevereiro", "afetuoso", "primavera", "atriz", "hombros", "reação", "refração", "proteção", "puchado", "laticínios", "selecionando", "atividade", "direção", "caraterísticos". Será que o acôrdo do babaca marteleiro é, afinal, de 1890?
    Boas pedaladas.

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  17. Lembro-me do seu comentário e de começar a empreender numa resposta. Sucedeu passar-me o caso da ideia. Pegando agora no fio à meada, os abonos que achei dum e doutro caso são:

    Mai-lo

    Mailo
    Não adianta enumerar mais. A grafia não está definida, é a única certeza. No entanto cuido achar ligado o advérbio ao pronome mais vezes com hífen do que aglutinado. E parece-me aquele uso mais consentâneo com a tradição moderna do português. Veja o caso de ei-lo em que me não consta haver dúvida com eilo.Cumpts.

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  18. V. dispersa-se, perde-se.
    Peço-lhe que torne a ler o verbete. Há-de ver que lhe ali dou, claras, a raiz e a vergôntea da locução e, nas entrelinhas, talvez alguma da razão que V. há-de ter. Mas não pretendo, como o vejo a si, vergar hábitos de linguagem que perduram na voz dos portugueses desde o tempo da «Corte na Aldeia».
    Fico-lhe porém grato pelo mote, obrigado!

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  19. Nem precisava de ir tão longe nos exemplos:) o que agradeço imenso, mas estou perfeitamente consciente que os tem sempre à mão de semear, felizmente para si (nem imagina como me vejo e desejo p/ encontrar determinado volume ou edição, no meio da minha biblioteca que ultrapassa os mil volumes), assim como estou bem ciente da sua consabida sapiência e vastíssima cultura.

    Muito bem, que me desculpem os que não concordam mas eu estou mais inclinada para o "mailo", talvez por uma questão de habituação e também baseando-me no que diz o meu querido Dicionário da Porto Editora, 5ª. edição.
    Maria

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