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domingo, 16 de março de 2014

Os bacongos e a água benta internacional


   Quando, em Luanda, fizemos o balanço do trabalho [de dia 15], ficámos desanimados. Evacuáramos apenas 106 pessoas. Estimavam que teríamos 600 a 700 pessoas para evacuar...
   Foi então que os ensinamentos e experiência da ponte aérea de Leopoldville pesaram! Porque não utilizar a vila de Negage como utilizáramos Brazzaville? De Carmona ao Negage gastaríamos apenas 15 minutos de voo. Menos gasolina necessária, mais capacidade de carga, mais viagens por dia!
   [...]
   No segundo dia da ponte aérea [...] reparei que, a meio da fila para embarque, se mantinha a mesma pessoa. Reparei nela porque, ao contrário das cacarejantes mamãs em permanente actividade para manter junto a ninhada, ela estava só. lnstalado no posto de pilotagem, assisti à explicação de tão insólito caso. Logo que foi permitido o embarque, afastou-se ligeiramente da bicha, e foi dando a sua vez. Suspenso o embarque, voltou a ocupar o seu lugar na fila.
    No meio de toda aquela luta para embarcar, porquê aquela atitude?
   Antes do carregamento seguinte, perguntei ao agente da D.T.A. quem era aquela senhora.
    Disse-me o seu nome. Que era viúva e fugira de uma fazenda no Vale do Loge. Contou-me a história da senhora. A Senhora Só.
   Fora recolhida por uma patrulha das milícias de Carmona, numa mata já próximo da cidade, completamente esgotada, esfarrapada e suja, quase sem fala. Depois de muito instada, com bastante dificuldade, acabou por contar a sua tragédia.
   No dia 15, como usualmente, levantara-se para preparar o «mata-bicho» para o seu homem e seus dois filhos. Estes já tinham ido para o terreiro a fim de distribuir as tarefas pelos trabalhadores da fazenda.
   Repentinamente, ouviu gritos e enorme vozearia, e correu à porta. O marido estava caído no terreiro, cercado por um grupo de trabalhadores que, armados de catanas, o crivavam de golpes. Tentou gritar, mas a aflição embargou-lhe a voz. Agarrada à umbreira da porta, procurou os filhos. Rodeados por numeroso grupo de negros que os atacavam, viu-os, um a um, caírem banhados em sangue. Desesperada, ia correr em seu socorro quando se sentiu agarrada e arrastada para as traseiras da casa. Era a criada, uma rapariga negra que a ajudava na lide da casa e que com eles vivia desde garotita. constantemente recomendando: «Nhora não fala. Eles mata gente toda. Não fala...», foi por ela levada para a mata.
   Lembrava-se de, pela mão da criada, ter andado pela mata, fugindo da fazenda. Quando escureceu, dormiram abraçadas, escondidas no meio do matagal. Quando nasceu o dia, a rapariga, depois de lhe recomendar que evitasse as «picadas» e seguisse sempre em frente pois acabaria por encontrar «gente de branco», desapareceu. Parece que na direcção da fazenda.
    Não se lembrava de mais nada. Que não, não tivera fome nem sede. Mas estava muito cansada...
   Andara mais de dois dias pela mata, descalça, porque perdera as chinelas que usava em casa, sem comer nem beber.
   Nem chorar conseguia...
   Fui buscá-la. Dei-lhe o braço e, saíndo da fila, levei-a para bordo. Vagarosamente, pois andava com dificuldade. Não reagiu, nem disse fosse o que fosse. O seu rosto parado e o alheamento não se alterou. Quando muito, teve um vago movimento de ombros, como que de resignação. Tanto se lhe dava...
   Não houve o mais pequeno protesto de toda aquela gente, apenas um opressivo silêncio. De respeito, pareceu-me. Sabiam, ou adivinhavam, que estavam perante algo de mais trágico que as suas próprias tragédias.


Eduardo Alexandre Viegas Ferreira de Almeida, «15 de Março de 1961», Quarenta Anos de Aviação, Martins & Irmão (impressor), 1995, pp. 219-220.


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Selvagens da U.P.A., Congo, 1961    Cabeças de bailundos, Uíje, 1961
«Heróis» bacongos (esq.) e cabeças de bailundos, (dir.) Angola, 1961.


20 comentários:

  1. M.Martins19/3/14 01:27

    Fui tropa na Carregueira no comèço dos anos 60,fui vêr os meus companheiros a partir para Africa.No regréso alguns que como eu viviam no mêsmo bairro contáram-me os horrores cometidos,eu tive sorte de não ter ido!Portugal não entrou na 2 guerra mundial,e rico como èra os seus filhos viviam numa pobrêza terrivel;os que tem duvidas è verem como viviam os que moravam nas cavérnas na serra de Monsanto nos arredores de Lisboa.È longo comtar a historia ,só que nos fins dos anos 80 estive a trabalhar nos Camarões em Africa ,e quando soubéram que eu éra d'origem Portuguêsa os Camaronêses me comtaram as chacinas feitas pêlos meus conterraneos,que éram as mêsmas contadas pêlos meus companheiros do mesmo bairro.Depois de 36 anos que brinco com o ordinator e não è nada "fun" o que encontro;nēsse momento em Portugal so havia o Sapo em Aveiro e o AEIOU.Por isso os jovens dos anos fim 60/prencipio 70 não sabem nem un quarto da historia.Talvês seja melhor assim?

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  2. Que horror. O que se vê na imagem da direita traduz tanta malvadez que nem consigo olhar para ela mais do que uma fracção de segundo. Realmente o ser humano é capaz de praticar as acções mais sublimes, quase Divinas, como igualmente o é dos actos mais cruéis e desumanos sòmente concebíveis por mentes gravemente afectadas por doença do foro psicossomático ou possuídas pelo espírito do Diabo. Ou ambos.
    Maria

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  3. Na minha vida li e ouvi tanta coisa sobre a guerra do Ultramar que por vezes penso quem era pior: os portugueses ou os nativos

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  4. mujahedin19/3/14 10:13

    Pense, mas não se engane.

    O que aqui se mostra não é senão uma pequena, ínfima, amostra.

    Nem faz sentido falar em nativos. Nativos eram muitos, brancos e pretos. Havia, isso sim, tribos. Particularmente as da zona do Congo que eram hostis aos brancos como aos pretos das tribos do Sul; tribos às quais pertenciam, muito provavelmente, os donos das cabeças que aí vê expostas.

    Quanto a chacinas e atrocidades da parte portuguesa, pois hão-de ter havido muitas, em tantos séculos que lá estiveram. De 61 em diante? Tenho dúvidas que tivesse havido mais do que episódios pontuais e pessoais, e desafio seja quem for a provar o contrário. Particularmente depois de se implantar o dispositivo militar nas zonas afectadas e controladas as represálias e vinganças que, com certeza, as gentes que sobreviveram não deixaram de infligir aos bárbaros assassinos que puderam apanhar.


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  5. mujahedin19/3/14 10:17

    Que chacinas foram essas de que lhe deram conhecimento?

    Onde e quando se passaram?

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  6. Sim. E há-de ser a imagem mais odiosa que aqui publiquei.
    Cumpts.

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  7. Inspector Jaap20/3/14 23:41

    Isto é só porque não viu as fotos do livro por mim mencionado antes; acredite, caro Bic, que eram piores.
    Cumpts

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  8. eu estava a falar das atrocidades pós-1961 como o caso do ataque dos portugueses aos muqueques (acho que é assim que se escreve) de Angola e aos massacres feitos pelos separatistas da UPA nas fazendas que eram de portugueses, entre outras e as atrocidades portugueses antes 61, nem é preciso pesquisar muito; basta ver as chamadas missões de pacificação pós- tratado de Berlim

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  9. Desculpará, mas fotografias daquele teor num "blog" podem ser interpretadas como de muito pouco gosto e senso.

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  10. Bic Laranja22/3/14 20:33

    São documentos. Fotografia (no sentido do gosto que o seu comentário refere) é outra coisa.
    Quanto ao senso, é como queira.
    Cumpts.

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  11. Bic Laranja22/3/14 20:41

    Tron, selvajaria como a que Holden Roberto se vangloriou é de requinte antropológico raro em gente colonizada. No entanto o odioso recai sempre na colonização, ou seja nos portugueses. Tudo o resto é abafado.
    Cumpts.

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  12. Bic Laranja22/3/14 20:44

    Claro que há documentos piores. Aqui, o que está é mais que suficiente.
    Cumpts.

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  13. O facto de serem documentos não os torna publicáveis - e de uma forma imediatamente acessível para quem aqui entre.

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  14. E é mesmo neste tipo de atrocidades que eu falava e além dos casos conhecidos como os massacres feitos pela UPA também existem os massacres feitos por tropas especiais ou "irregulares" de origem portuguesa e quem eram os mais violentos eram os próprios negros que faziam coisas que ainda eram piores que os americanos no Vietname

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  15. Bic Laranja23/3/14 18:41

    Há-de fazer o favor de indicar o seu contacto para de futuro submeter eu o conteúdo a publicar ao seu exame prévio.
    Muito grato!

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  16. Onde pára o meu pequeníssimo comentário enviado ontem a propósito desta sua ironia impagável?...

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  17. Marcos Pinho de Escobar24/3/14 21:55

    Mas o que interessa é que agora, sob as botas do Mêpêlá, o tal bando de terroristas marxistas e ladrões, o povo vai muito bem e recomenda-se. A comer lixo e a tomar água dos esgotos, enquanto a cleptocracia passeia-se por Lisboa e Cascais em Ferraris e Bentleys, a comprar o pouco que resta de Portugal com o dinheiro roubado aos portugueses, nesta grande liquidação nacional. Sem o 25 da abrilice nada disso teria sido possível. Para o mês vão comemorar à grande e à francesa.
    Um abraço, Caro Bic.

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  18. Bic Laranja24/3/14 22:52

    Quere lá ver!... Perdeu-se no exame prévio.
    Cumpts.

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  19. Bic Laranja25/3/14 10:49

    Sim. Mas ela já para aí anda, a babugem abrileira. Uma felicidade!...
    Cumpts.

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  20. Ahahahahah!
    Fartei-me de rir com a sua ironia requintada e de cada vez que ao longo do dia me vem à memória a sua resposta rebuscada não consigo conter uma pequena gargalhada.
    Maria

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