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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Invasão da Índia


« Quando foram afixadas as escalas de serviço fiquei surpreendido por não estar nomeado para a Índia. Fui ao serviço de escalas protestar pois, por rotação, era a minha vez. O funcionário pretendeu alterar a escala mas recusei, porque era contrário ao sistema de riscar e pôr outro nome. Deixei o aviso, para que na próxima viagem não se enganassem.
 Na viagem seguinte, as escalas estavam certas e lá estava o meu nome. Antes de iniciar a viagem tomei conhecimento de que Goa tinha sido invadida. O avião da T.A.P. estava lá e o aeroporto estava a ser bombardeado. Era a viagem que me pertencia, mas o destino quis que me fosse roubada, protegendo-me daquele martírio.
 Saí de Lisboa convencido de que iria aterrar em Goa, mas enganei-me. Em Carachi (Paquistão), fui informado que não poderia seguir para Goa, porque o aeroporto estava a ser bombardeado. Regressei a Lisboa, preocupado com os colegas que estavam em Goa. Quando cheguei, tomei conhecimento que durante a noite, o avião da T.A.P. aproveitando a escuridão e com alguns buracos na fuselagem, descolou de Goa. Dirigia-se para Carachi, a baixa altitude, para não ser detectado pelos radares. O voo foi executado com êxito e perícia, conseguindo chegar a Carachi são e salvo. Foi protegido pela sorte, mais uma vez.


 Passados uns bons anos, quando a T.A.P. comprou os Boeing 747, fui nomeado para ir para os E.U.A. frequentar o 1.º curso daquele tipo de avião, como chefe. A Boeing, conhecedora do caso de Goa tinha para frequentar esse curso pilotos de vários países, entre os quais indianos. Perguntou à T.A.P. se tínhamos algum problema em frequentar o curso com indianos. A resposta foi:
 
Nada temos a opor.
 Chegados aos E.U.A., começaram as aulas e lá estavam os indianos.
  Good morning!  e os indianos, um pouco comprometidos, lá respondiam: Good morning!
 Com o decorrer dos dias, nós e eles descomplexávamo-nos e começávamos a conversar cada vez mais, até que chegámos à amizade. Nós éramos dois comandantes e dois mecânicos [de voo] e alugámos uns apartamentos onde não faltava uma cozinha e respectivos apetrechos. Um colega meu era um bom cozinheiro e, um dia, resolvemos convidar os indianos para irem almoçar connosco. Aceitaram o convite. Durante o almoço, falou-se de Goa e viemos a saber que, aquando da invasão, eles foram os pilotos dos aviões que foram bombardear o aeroporto. Um dos mecânicos, que estava nesse avião da T.A.P. na altura dos bombardeamentos, volta-se para eles, rindo:
  Ah! seus malandros, queriam matar-me?! — Foi uma gargalhada geral até porque o álcool já estava a produzir os seus efeitos, a tal ponto que já se atiravam latas de cerveja vazias pela janela fora. Os indianos, eufóricos, já diziam:
  Vamos dizer à Indira Ghandi para dar outra vez Goa aos Portugueses, porque são uns gajos porreiros.


 Assim, terminou um encontro entre beligerantes.»


Miguel de Sousa Ferreira, Apontamentos da Vida de um Aviador e Agricultor, Ed. do Autor, Lisboa, 2001, pp. 43-44.



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(Recorte: «Transportes Aéreos da Índia Portuguesa», in Restos de Colecção, 12/IX/2011.)

2 comentários:

  1. Inspector Jaap24/12/13 17:31

    Surpreendentemente, acabadinho de chegar ao blogo , verifico que este verbete ainda não foi comentado; por que razão? Será que estes acontecimentos (já) não nos dizem nada? Se assim é, então, mesmo que a contragosto, terei que dar razão ao caro Bic quando repete que Portugal já não existe.
    Pelo meu lado, acho da maior importância que estes acontecimentos sejam lembrados e que se divulgue que em muitos dos territórios do antigo Estado da índia, Cananor, Angediva e Cochim incluídos, ainda se fale e cante em Português; disso tive testemunho ainda não faz muito tempo, quando ouvi um habitante de Bangalore pronunciar frases de razoável complexidade lexical em Português e até cantar a ária «Ó Rosa arredonda a saia».
    Vieram-me as lágrimas aos olhos, a mim que nunca lá estive.
    Cumpts

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  2. Bic Laranja26/12/13 20:07

    Estes acontecimentos já nem fazem sentido. Se fazem sentido resultam frustrantes, pelo esforço despendido, pelo custo em vidas, pelo respeito moral por isso tudo. Tudo alfim desbaratado por abrileiros moralmente superiores, ansiosos por aclamar o pacifismo do Nehru pela invasão do Estado Português da Índia. Tanto que foram a correr à O.N.U., talvez antes 26 de Abril de 74, só para reconhecerem a soberania do invasor sobre os territórios portugueses invadidos.
    Cumpts.

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