No relatório dos intendentes de S. Bento ao caco gráfico aparece a pp. 18-19 (4.2 -- Argumentos favoráveis ao Acordo) que «os defensores [do dito] consideram que há uma mudança linguística (fonética) em curso que tem vindo a ocorrer desde o princípio do séc. XX, evidente na forma como certas pessoas ainda articulam consoantes mudas e outras não. A dupla grafia agora admitida poderá vir a desaparecer.»
Este parágrafo, só por si dava um tratado. Se fosse sério.
Primeiro, a única defensora que alguma vez vi propor este argumento foi uma Helena Topa Valentim num artiguelho no Público em 19/2/2012 (cf. «Uma Helena tola no Público»).
Depois, se há mais defensores, desconheço. Duvido, mas pode haver. Seria interessante sabermos deles para conhecermos em que se baseia a sua tese de que há uma mudança linguística (fonética) em curso -- não uma de devir lento e indefinido como é das leis do uso natural da linguagem, mas antes uma bem definida cujo rumo inequívoco é a síncope de consoantes dos grupos cç, ct, pç, pt, e mais alguns por aí que possam vir a calhar...
Uma afirmação daquelas, pois, é duma barbaridade capciosa.
- Qual o corpus científico em que se baseia?
- Qual o âmbito humano, geográfico e histórico da recolha?
- Qual o método de estudo dos dados recolhidos que concluiu ser evidente [a] forma como certas pessoas ainda articulam consoantes mudas e outras não? [ E daí a poder-se acabar com elas...]
E naquela inquestionada evidência quais afinal são os vocábulos ou famílias de vocábulos em que as ditas consoantes mudas
- nunca se articularam?
- se articularam, mas deixaram de articular-se, e/ou vice-versa?
- sempre se articularam?
E onde, a que povos, quando e, se possível, como, sucederam tão evidentes fenómenos de mudança linguística (fonética)?
Pois bem, enquanto o inventário dessa apregoada mudança não for dado a conhecer estamos perante publicidade enganosa, ou reles ciganice, como com maior propriedade se diria antes de tanta mudança em curso.
O respaldo no relatório dos srs. deputados duma particular excrescência intelectual da activista de caprichos fracturantes Helena Topa, mai-la generalização operada com ele no remate do ponto 4.2 -- Argumentos favoráveis ao Acordo é artifício de propaganda. Não tem validade científica, procura só inculcar subliminarmente no leitor, como verdadeira, uma ideia de que não há uma chispa de prova. Uma contumaz falácia dos poderes políticos que regem Portugal.
(Imagem da I.L.C. contra o Acordo Ortográfico.)
(Revisto às 9h10 da noite.)
Adenda em 21/III/15:
Caro responsável pela autoria deste post,
Sou Helena Topa Valentim. Um amigo, numa busca que fez procura de algo referente a mim, descobriu este seu texto e aí menção ao meu nome. Alertou-me e, com espanto, constato que o senhor se terá equivocado. Nunca me pronunciei publicamente em nenhum artigo do Público relativamente ao A.O. e acontece que, exactamente em virtude da minha formação e desempenho profissional, tenho uma posição crítica em relação ao mesmo. Sei o que se terá passado para que tenha incorrido nesta confusão: o artigo que refere é da autoria de Helena Topa, uma prima minha, mas não meu. Agradeço, por isso, que, por esta razão, elimine este post. Peço-lho por favor e agradeço muito a sua compreensão.
Cordialmente.
Excelente constatação dos factos. E uma crítica igualmente rigorosa e inteligente, como sempre aliás. Nunca será demais repisar estes argumentos válidos em defesa da lindíssima língua portuguesa. Abaixo os abastardadores da nossa língua. Parabéns mais uma vez.
ResponderEliminarMaria
:)- mailos:))
Generosa, como habitual.
ResponderEliminarObrigado!
:)
Subscrevo inteiramente!
ResponderEliminarCumpts
Um assombro de exposição; acrescento eu: onde é que essas alimárias colocam palavras do género, homem, humidade e afins? O que é que estas consoantes mudas têm a menos em relação aquelas (para já)* que foram o alvo da sanha persecutória desta cambada? Gostava de ver a cara do malacaca e “su muchacha” a explicar isto.
ResponderEliminarIsto mais parece um manicómio gigante ou, em alternativa, um lupanar intelectual em que tudo se vende. Que nojo!
Cumpts, caro Bic e que nunca a pena lhe doa, pois seria mesmo uma pena!
*= cheira-me que os feitores de além-atlântico se estão a preparar para não ficarem por aqui; a ver vamos, mas que a coisa fede, lá isso fede.
Nos trópicos não se gera português; só crioulo.
ResponderEliminarCumpts.
Caro responsável pela autoria deste post,
ResponderEliminarSou Helena Topa Valentim. Um amigo, numa busca que fez procura de algo referente a mim, descobriu este seu texto e aí menção ao meu nome. Alertou-me e, com espanto, constato que se o senhor se terá equivocado. Nunca me pronunciei publicamente em nenhum artigo do Público relativamente ao AO e acontece que, exactamente em virtude da minha formação e desepenho profissional, tenho uma posição crítica em relacção ao mesmo. Sei o que se terá passado para que tenha incorrido nesta confusão: o artigo que refere é da autoria de Helena Topa, uma prima minha, mas não meu. Agradeço, por isso, que, por esta razão, elimine este post. Peço-lho por favor e agradeço muito a sua compreensão. Cordialmente.
Se bem entendo, a Helena Topa é a autora do escrito no Público. Pessoa diferente da Helena Topa Valentim que me corrige neste engano.
ResponderEliminarNão imaginei que pudesse haver duas helenas topa. Lamento o equívoco e agradeço-lhe eu a compreensão do engano.
Não eliminarei o verbete mas revê-lo-ei nos termo da devida verdade.
Muito obrigado do esclarecimento.