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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Os Desmaias


« Subtis são os caminhos, insondáveis os desígnios…
  Escolhe-se seis dos mais desqualificados plumitivos da escrevinhação lusita e embute-se-lhes na cabeça o convencimento de que são dignos sucessores de Eça de Queirós. Como se adivinha, os escribas tão mais depressa se rendem quanto mais alarves são. Vai de escreverem um seguimento para Os Maias, nem mais. Um deles, belfo e acometido de gaguez psicossomática, já admitiu que vai "dar a volta ao texto" na "sequela". Outro, um inefável arvorado ao Parnaso da escória, promete entroncar a prosa na "questão colonial".
   É tão ridículo o propósito e tão desqualificada a trupe que com toda a certeza lerei essa Nova Ilíada. Eça, coitado, estremunhado desta horrífica traição à sua memória, cedo se refará e rirá através dos olhos de cada um dos leitores deste projecto "a doze mãos" (eu ia dizer vinte e quatro, mas contenho-me). Eu certamente terei aí um enérgico desopilante para o tédio estival.
  Subtis os caminhos: o engajador desta remonta de escribas quis certamente enaltecer a memória de Eça, com um maquiavelismo que lhe conhecemos de outros carnavais. Claro: depois de lermos as zambujices agualuzadas e as clarices apeixotadas que fervilharão no miasma impresso, com que devoção não regressaremos nós às delícias intelectuais do original?
   Insondáveis os desígnios: nem em sonhos Eça alguma vez imaginou vergastar com tanta violência essa burguesia semi-letrada, reles, molenga, sabuja, como ela mesma se auto-vergastará com este pífio e fraldiqueiro esforço de "desconstrução" e "reinvenção" e "actualização" de uma obra que afinal tem sobrevivido a tudo – até a estas mutiladoras homenagens do galinheiro.»


«Os Anti-Maias», in O Jansenista, 10/VII/13.



 Uma farsa de avental para encostar a grafia dos analfabetos numa edição para o rapazio do secundário. Não vem por lá uma introdução do farsola do Reis? Os outros farsolas são os utensílios à mão. Prestam-se a lavores assim.
 Siga prestes, pois, uma encomenda da garrida livralhada para as bibliotecas escolares. Não esquecer da factura.

Os Desmaias (in ecaagora ponto come)
Imagem d' Os Desmaias garridos em ecagora ponto come (CUIDADO! página em acordês).

10 comentários:

  1. Venâncio19/7/13 13:10

    Coube-me em sorte ler o que vai publicar-se de um dos seis, o J. RENTES DE CARVALHO.

    Se tudo o mais for como o Jansenista prevê, já a tentativa expressiana não terá sido em vão.

    Ide por mim, ó gente céptica!

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  2. Não compro o Expresso; não comprarei. Resta-me a esperança de que Rentes de Carvalho - esse, ao menos - faça publicar o que escrever em português de boa lei.

    Seja como for, há obras de génio que o elementar bom senso mandaria ficar, intocadas, onde o autor as deixou.

    Costa

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  3. "Os Desmaias"...Ahahahahah!
    Maria

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  4. Inspector Jaap20/7/13 15:23

    Eu quase que...
    Cumpts

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  5. E então, é ou não para arrimar o «acordês» ao Eça?
    Se o Jansenista previu bem o regresso aos Maias por desfastio dos Desmaias...
    Cumpts.

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  6. Senso é coisa que já não há. Nem bom nem mau. Há é espantalhos que a «desconstruir» para «reinventar» a roda.
    Cumpts.

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  7. Inspector Jaap23/7/13 13:01

    Estaremos nós em presença do
    Triunfo dos porcos?
    Ou,
    Desassombro da estupidez, ou ainda
    Maior do que o universo, só a mediocridade humana.
    Que venha o diabo e escolha!
    Cumpts
    P.S. Mas que notável verbete!

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  8. Não é caso para tanta indignação. O mundo desde que se criou tem destas coisas, por vezes o sucessor alcança maior sucesso que o predecessor. Mas não creio ser esse o caso - a busca do sucesso. É apenas um elogio, uma forma de honrar. Duvido que algum autor que se lançasse a uma ousadia destas tivesse o desplante de avançar em termos comparativos.

    E já agora, já se fez em ficção, para a TV, uma mini-série sobre a vida depois de E TUDO O VENTO LEVOU...

    É banal

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  9. Estamos perante algo que nem sei dizer o nome.
    Cumpts.

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  10. Dizer banal é dizer vulgar. Tem razão. Mas lá o propósito de arrimar o caco gráfico a obra tomo é indubitável. E como não bastasse usar Eça por muleta à degradação do português, pôr uma nuvem de caga-lumes como pirotecnia de tão glorioso feito é fazer de nós tolos. Quem os não conheça que os compre.
    Cumpts.

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