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sábado, 8 de junho de 2013

«Vim saber cá se certo é que pariu Vossa Nobreza?»

 Resolvi aqui dirigir-me à senhora D. M.ª Luísa tratando-a por vós. Ando agora aqui em casa como que declamando. Falar assim não é natural, soa a encenação. E bem má, tendo em conta cá o farsante. Não sou dado ao teatro. Sou-o, porém à História e por isso...Roque Gameiro, Gil Vicente na Côrte de D. Manuel



« Em a noite de 8 de Junho de 1502, nesta cidade de Lisbôa, e na própria câmara da rainha, nasceu o teatro nacional. Nessa noite, mestre Gil,


um que não tem nem ceitil
e faz os aitos a el-rei,


representou, em castelhano, o seu Monólogo do Vaqueiro, ou da Visitação, que ides ouvir, vertido á letra, em português.
[...]
« A obra de devoção seguinte — diz a rubrica de Gil Vicente — procedeu de uma visitação que o autor fez ao parto da muito esclarecida rainha D. Maria, e nascimento do mui alto e excelente princepe D. João, o terceiro em Portugal de este nome.
« E foi — continua a rubrica — a primeira coisa que o autor fez e que em Portugal se representou, estando o mui poderoso rei D. Manuel, a rainha D. Beatriz, sua mãe, e a senhora duquesa de Bragança sua filha, na segunda noite do nascimento do dito senhor.
« E estando esta companhia assim junta — conclue a rubrica — entrou um Vaqueiro…
« Senhoras e senhores: o teatro português vai nascer — e Gil Vicente vai entrar em scena!



Monólogo do Vaqueiro


 Ouve-se, fóra de scena, o vozeio dos guardas do paço, e entra logo, vestido de briche e ceifões de pele, manta do Alemtejo ao hombro, e cajado de azambujeiro na mão, o Vaqueiro:


 


Vaqueiro:

Apre!, que sete impurrões
me ferrarram á entrada,
mas eu dei uma punhada
num de aqueles figurões.
Porém, se de tal soubera,
não viera;
e, vindo, não entraria;
e se entrasse, eu olharia
de maneira
que nenhum me chegaria.

Mas, está feito, está feito;
e, se se fôr a apurar,
já que entrei neste lugar
tudo me sae em proveito.
Té me regala ver coisas
tão formosas,
que se fica parvo a vê-las!
Eu remiro-as, porém ellas,
de lustrosas,
a nós outros são danosas.

«Fala á Rainha»

Meu caminho não errou?
Deus queira que seja aqui,
que eu já pouco sei de mi,
nem deslindo aonde estou.
Nunca vi cabana tal
em especial
tão notavel de memória:
esta deve ser a glória
principal
do paraiso terreal!

Seja que não seja, embora,
quero dizer ao que venho,
não diga que me detenho
a nossa aldeia já agora.
Por ella vim saber cá
se certo é
que pariu Vossa Nobreza?
Crei' que sim, que Vossa Alteza
tal está
que de isto mesmo dá fé.

Mui alegre e prazenteira,
mui ufana e esclarecida,
mui perfeita e mui luzida,
muito mais que de antes era.
Oh!, que bem tão principal,
universal!
Nunca se viu prazer tal!
Por minha fé — vou saltar!
Eh!, zagal,
diz' lá, diz' lá: — saltei mal?

Quem queres que não rebente
de alegria e gasalhado!
De todos tão desejado,
este princepe excelente,
oh!, que rei terá de ser!
A meu ver,
deviamos pôr em gritos
a alegria e a esperança,
que até os nossos cabritos
desde hontem, co'a folgança,
não cuidam já de pascer.

E todo o gado retouça,
toda a tristeza se quita;
com esta nova bemdita
todo o mundo se alvoroça.
oh!, que alegria tamanha,
a montanha
e os prados refloriram,
porque agora se cumpriram
cá nesta mesma cabana
todas as glórias de Espanha.

Que grão prazer sentirá
a grão côrte castelhana!
Quão alegre e quão ufana
a vossa mãe não estará,
e, á uma, toda a nação!
Com razão,
que de tal rei procedeu
o mais nobre que nasceu:
seu pendão
não sofre comparação.

Que pai, que filho, e que mãe!
Oh!, que avó, que avós os seus!
E suas tias, tambem!
Bemdito o Senhor dos céus
porque ell' tal familia tem!
Viva o princepe logrado
que é o bem aparentado!

Se agora vagar tivera
e depressa não viera,
maldito seja eu então
se aqui a conta não dera
de esta sua geração.
Será rei Dom João Terceiro,
o herdeiro
da fama que nos deixaram,
nos tempos em que reinaram,
o Segundo e o Primeiro
e ind'outros que passaram.

Mas ficaram-me lá fóra
uns trinta ou mais companheiros,
pastores, zagaes, porqueiros,
e vou chamá-los agora;
elles trazem p'ra o nascido
esclarecido,
ovos e leite fresquinhos,
e um cento de bolinhos;
mais trouxeram
queijos, mel--o que puderam...

E ora os quero ir chamar,
mas, por via dos puxões,
agarrem os figurões
p'ra gente poder entrar.

Ouve-se ao longe, uma gaita de foles.

«Entram certas figuras de pastores e oferecem ao princepe os ditos presentes.»

[...]



Afonso Lopes Vieira,
Gil Vicente. Monólogo do Vaqueiro vertido do Castelhano, representado no teatro D. Maria II, Lisbôa, 1910.



2 comentários:

  1. Anónimo9/6/13 02:25

    Que maravilha, já quase esquecia. Um Mestre e digno cultor da mui Nobre e Gloriosa Língua Portuguesa. Brilhante poeta e dramaturgo cujos polimento, criatividade, beleza e respeito que à mesma dedicou, muito a engrandeceram. Por mim agradeço-lhe este pequenino mas lindo momento de poesia vindo do longínquo séc. XVI, que tanto prazer dá relê-lo ainda hoje.
    Maria

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  2. Bic Laranja9/6/13 15:34

    Grato pelo apreço.
    Cumpts.

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