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quinta-feira, 9 de maio de 2013

O «convento»

Quinta do Vila.jpg

 Este é um verbete que tinha a palpitar havia muito. Faltava-me o móbil. Há anos que andava a ver se me aparecia o «convento». A rapaziada chamava-lhe «convento», talvez das janelas góticas...
 A minha primeira aventura por velhas quintas e lugares em vias de extinção foi a explorá-lo, atrás do meu irmão, do Príncipe (o filho do careca da leitaria), do Gabriel (que eu chamava Gabrião por não conhecer o nome) e dum Armindo que hoje bem pode ser comandante na TAP.
 O casarão estava em ruínas, sem soalhos nem telhado (ou talvez afinal o tivesse). Tínhamos de andar lá dentro em equilibrismo sobre as traves onde outrora assentaram as tábuas do chão. O que achei graça -- porque nunca então tinha visto igual -- foi a escada para o andar superior que tinha degraus em caracol numa volta de 180º a meio dos andares; ficou-me na ideia e não mai-lo esqueci. Das janelas neogóticas e do anexo à face da rua, tal como do aspecto geral da casa, confesso, já nada me não lembrava. Havia só aquela saudade -- nem sei que idade teria; cinco, quatro, talvez...




 Em tempo achei uma fotografia em que lá estava, ao longe, o «convento», ao fundo dum caminho que partia da Calçada e que veio a ser a Rua Faria de Vasconcelos. Era a quinta do Villaça, que se estendia dali, acima da linha férrea e, para poente até alturas da Ruade Olivença [Aquiles Machado]. Por essas terras fui tanta vez com minha mãe aos ovos, por um carreiro que levava a uma quinta [um casal na própria Quinta do Villaça] além da linha do comboio. Essoutra, hoje, a existir, jaz por debaixo do viaduto do metropolitano.
 Para trás (Norte) confrontava esta quinta do Villaça com a dos Machados e esta por sua vez com a das Olaias... [A quinta do Villaça também era conhecida como dos Machados.] O nome da dos Machados não vingou, sobrepondo-se-lhe o da quinta vizinha das Olaias que ficava mais ou menos onde hoje há um hotel e onde -- entretanto que a demoliram -- nos anos 70 houve uma serração; a chamada Encosta das Olaias -- empreendimento de Fernando Martins dos anos 80 com risco do badalado Taveira -- assenta muito mais nas terras da quinta dos Machados do que nos da das Olaias. Toda aquela encosta foi por séculos e séculos um declive suave para o vale da Maruja a montante do milenar Convento de Chelas (este um convento a sério, ao depois também fábrica da pólvora) onde o aterro da linha de cintura ainda no séc. XIX há-de ter sido o primeiro perturbador da orografia natural.
 O casarão da quinta do Villaça parece bem do séc. XIX, ele também. Tinha porte fidalgo, com as sete janelas da ordem, e frontão. A casa tem no Levantamento da Planta de Lisboa de 1904-11 um anexo grande no lado poente, que já se não via na fotografia aérea dos anos 50. -- Barracões de alfaias [?] entretanto desaparecidos com a desactivação da quinta? -- Com os aterros das obras de Lisboa do século XX despejados nestas quintas ao abandono, mai-lo parcelamento para urbanização dos anos 70 para cá, naquelas terras já se nada hoje percebe de que foram campos bucólicos. Na fotografia já temos o anexo do casarão visivelmente abaixo da cota da Rua Mira Fernandes ainda em embrião. Mas, das cortinas nos vidros, o anexo parecia habitado. Que histórias guardaram aquelas paredes?...


 


 A fotografia devo-a a um velho amigo que sabe o quanto me isto desperta interesse. Diz-me que a achou no livro das fuças no capítulo da escola das Olaias que, já vimos, devia com mais propriedade chamar-se escola do Villaça por assentar em cheio nos chãos desta quinta e não da outra.
 Não me identificou ele a senhora nem o fotógrafo que nos dava novas duma próxima chegada da cegonha por aquele tempo. Teria interesse. O que à partida pode ser tido por um fraco cliché para o álbum de família tornou-se um documento raro e valioso para a olisipografia.
 O mapa é o 13L do Levantamento da Planta de Lisboa; 1904-1911 (Lisboa, C.M.L., 2005), desenhado por Alberto de Sá Correia em 1908. Nele temos a calçada (ou azinhaga) da Picheleira, as linhas de cintura e de convergência de Xabregas, a estrada, a estação, o convento de Chellas e as azinhagas da' redondezas.

(Verbete revisto em 15/5 às dez para o meio dia.)

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