Quando fui para o 7.º ano tive direito ao passo por causa de a escola ser longe. Senti-me então -- aos 12 -- como um pássaro a quem abrem a gaiola; podia descobrir livremente toda a cidade em qualquer autocarro ou eléctrico. Podia descer dum autocarro e apanhar o primeiro que viesse a seguir e ir aonde essoutro me levasse. E podia andar no Metro também porque, embora eu não precisasse para ir para a escola, o meu pai foi sempre generoso (sempre, se excluirmos um certo mês em que as notas que tive não foram suficientes para manter o privilégio) e comprou-me sempre a senha L que permitia livre trânsito no Metropolitano.
O que eu não soube logo e ainda demorou até o meu irmão me dizer foi que o passo da Carris também dava para os elevadores.
Abrigo e bilheteira do elevador da Glória, Lisboa, 1931 [1933].
Fotografia de Eduardo Portugal in Arquivo Fotográfico da C.M.L.
Nota à 2.ª edição:
Este verbete foi publicado originalmente em 17 de Setembro de 2007. Posteriormente publiquei outro com uma fotografia do mesmo lugar, mas referindo-me ao incêndio de 29 de Janeiro de 1929 no Palácio Foz, em que temos o mesmo terminal do ascensor da Glória doutro ângulo.
O ano de 1931 dado pelo arquivista à fotografia não parece, porém, certo. Desconheço em que se ele baseou. O filme em exibição no Central Cinema do Palácio Foz, «O Hotel do Amor», estreou-se em Portugal sòmente em 11 de Dezembro de 1933 [segunda-feira] (cf. Base de Dados de Cinema da Internete). A chapa foi batida na semana do Natal de 1933; o cartaz informa-nos claramente: 2.ª semana. Anteriormente a Dezembro de 33 não seria possível a fotografia.
(Revisto em 4 de Novembro.)
Era mesmo este que eu referia no comentário anterior.
ResponderEliminarGratíssimo, Caro Bic.
Abraço
Obrigado eu pela lembrança. Reeditei-o com nota só agora publicada (às 11h30) por falta de tempo ontem. Tive de repor a imagem porque a ligação à fotografia do arquivo se perdera. Graças a Deus que a mantêm pública, agora como maior resolução, apesar da aborrecida marca de água. Foi a maior resolução que me permitiu descortinar a falha da datação. A imagem original era mais reduzida não mostrando tanto detalhe.
ResponderEliminarCumpts.
caro Bic
ResponderEliminarCheguei a viver em Lisboa não muito longe deste terminal de elevador, um belo exemplo de design urbano.
Já lhe disseram que este blogge pratica um verdadeiro serviço público?
abraço
Obrigado! Tem dias...
ResponderEliminarCumpts.
Adoro estes toldos de vidro com acabamentos em ferro forjado. Este é Art-Déco com todas as letras. Ainda existem alguns destes exemplares em Lisboa, Porto, Aveiro e porventura em mais cidades, felizmente.
ResponderEliminarEste da imagem, como quase todos os toldos de vidro deste tempo, possui uma delicadeza de pormenor única. É lindo. Como linda é a bilheteira.
Qual o motivo que levou à destruição desta pequenina obra d'arte? É que quem foi que autorizou o 'crime'? Estamos perante um registo inequívoco de um estilo que marcou uma época. Inacreditável.
Maria
Bela imagem. É realmente impressionante a limpeza - diria cirúrgica - de Lisboa. Quando vemos o estado cloacal e o vandalismo deste nosso crepúsculo nacional, o coração aperta até não poder mais. Abraço amigo!
ResponderEliminarEsqueci-me de um pormenor que não é de somenos. O prédio da esquina oposta, onde ainda perdura o Palladium/centro comercial, que será certamente dos anos 30 e lá permaneceu durante todo o anterior regime, será certamente uma excepção à regra o facto de permanecer ainda de pé.
ResponderEliminarNeste despótico regime a Câmara de Lisboa tomou-se de uma fúria destruidora imparável (em mais um gesto estudado e não menos vil) cuja finalidade é levar os portugueses a distanciarem-se cada vez mais do 'faxismo') susbtituíndo o que arquitectònicamente de mais belo e sólido existia naquela avenida, sendo quase tudo substituído por caixas de fósforos de gosto mais do que duvidoso e de materiais do mais vulgar que a nula sensibilidade estética é capaz de conceber. Felizmente aquele edifício específico foi poupado à razia do camartelo! Viva o luxo! Os politiqueiros broncos (será mais correcto catalogá-los de mega-oportunistas) que têm passado pela Câmara de Lisboa desde 74, tiveram o bom senso(?) - ou porque existe uma proibição camarária ou porque foram travados no intento pelos proprietários do mesmo..., deverá ter sido mais esta última hipótese - de levar avante mais um crime urbanístico e com isso milagrosamente descontinuando a saga, pelo menos no que àqueles metros quadrados diz respeito, de desfeitear ainda mais um bocadinho uma das mais bonitas e nobres avenidas de Lisboa.
Não sendo este o exemplo acabado do que de mais belo se construiu naquela avenida, será pelo menos um edifício da mesma época ou próxima e isto é quanto basta.
Em qualquer dos casos, quem não permitiu o seu derrube está de parabéns.
Maria
Sim. Lisboa (Portugal) está um chiqueiro.
ResponderEliminarAbraço.
Talvez impedisse o acesso dos bombeiros à Calçada da Glória. Lembro que em Janeiros de 29 ardeu aquela ala do palácio Foz.
ResponderEliminarDigo isto por saber o resultado do «embelezamento» abecassisiano na Rua do Carmo.
Cumpts.
Houve há semanas algo sobre o Palladium que me não cheguei a inteirar...
ResponderEliminarCumpts.
Bem, aquela ridícula 'decoração' que no tempo de Abecassis a Câmara resolveu introduzir na Rua do Carmo para a 'embelezar', foi de uma piroseira que dava vontade d'arrancar os cabelos. E o resultado foi o impedimento do fluir normal dos transeuntes fìsicamente aptos e/ou com deficiências motoras, como, o que era muitíssimo mais grave, anulava (anularia) por completo o acesso rápido dos Bombeiros e das Ambulâncias.
ResponderEliminarÉ claro que aquele 'melhoramento' teve o intuito exclusivo de meter no bolso de mais um amigalhaço arquitecto/engenheiro umas boas centenas de milhar de contos.
Como, para não fugir à regra, neste e em milhares de outros crimes urbanísticos e arquitectónicos, tem sido a norma da Câmara de Lisboa desde há mais de três décadas até aos dias de hoje.
Maria