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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Bárbaros, judeus e mouros

Moço judeu marroquino (Photo Flandrin, s.d.)


« A raça hebraica existia na Peninsula antes da invasão de Tarik e Musa; existia nesta região, como em toda a parte onde o christianismo se tornara dominador, opprimida e aviltada; mas em paiz nenhum a legislação, quer romana, quer barbara, fôra inspirada por tendências tão perseguidoras e de tão profunda malevolencia contra os israelitas, como nesta provincia da Europa durante os últimos tempos do domínio dos godos. O código wisigothico, onde se acham compiladas as leis dos diversos reinados ácerca dos judeus, é nessa parte um modelo de feroz intolerância. As resoluções dos concilios de Toledo, colligidas em grande numero naquelle codigo, tendem a reduzi-los ao christianismo por todos os meios, sem todavia os fundir na população hispano-gothica, ou a extermina-los judicialmente pelo ferro e pelo fogo, o que fez dizer a um escriptor celebre, senão com absoluta exacção, ao menos com agudeza, que as maximas e os principios da inquisição estavam escriptas no codigo dos wisigodos, e que os frades se tinham limitado a compilar as resoluções dos bispos contra os judeus. As particularidades dessa legislação, e até que ponto durava a sua influencia no berço da monarchia, aprecia-lo-hemos no devido logar. Na epocha da conquista mussulmana ella tinha produzido o seu effeito. O desejo de sacudir o duro jugo em que viviam lançou os judeus no partido mussulmano. Já no reinado de Egica (687 a 701) elles trabalhavam por induzir os sarracenos a invadirem a Hespanha, empenho em que os ajudavam os seus correligionarios d'Africa, ácerca dos quaes os chefes do islam haviam seguido o systema invariavel de deixar a liberdade do culto aos povos que submettiam. Descoberta a conspiração, a raça hebraica fora reduzida á escravidão, privada dos bens, e obrigada a abandonar os proprios filhos á catechese christan. Estas providencias, severas até a barbaridade, produziram o que sempre produzem as compressões violentas. Quando circumstancias favoraveis trouxeram a realisação dos desejos da raça proscripta, os invasores mussulmanos encontraram nella ardentes e leaes alliados. Compunha-se o exercito de Tarik em grande parte de judeus bereberes, que pouco antes haviam abraçado o islamismo, talvez simuladamente e com o unico intuito de virem salvar seus irmãos. Era mais um motivo para ligar estes indissoluvelmente aos conquistadores. Assim vemos que, em regra, os sarracenos, para não desfalcarem as diminutas forças com que avassallaram a Peninsula, entregavam a guarda e defensão das cidades que submettiam a guarnições hebreas, o que não só prova quanto os judeus contribuiram para assegurar o dominio mussulmano, mas também quanto avultavam em numero no meio da população.»


Alexandre Herculano, Historia de Portugal, T. III, 2.ª ed., Viuva Bertrand & Filhos, [Lisboa], 1853, pp. 208-209.


Moura judia de Marrocos, s.d. (Greg, Flickr)




(Fotografias: Mocinho judeu marroquino, Photo Flandrin, s.d., in e-Bay; Moura judia de Marrocos, por Greg, in Flickr.)

11 comentários:

  1. Por ironia, toda essa gente veio acorrendo ao chamamento de uma facção visigótica, em guerra contra a outra.
    A grafia é um pitéu.

    Abraço, Caro Bic

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  2. Mudei-a. Portanto fico na dúvida: qual delas?
    Cumpts.

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  3. A coisa só se complica quando vemos que os últimos estudos dizem-nos que grande parte das tribos berberes que invadiram o território peninsular eram cristãs. Exactamente, não leram mal, cristãs.
    Ou que grande parte da ocupação militar de certas regiões, especialmente Valência, tenha sido entregue a eslavos acabados de converter ao islamismo.

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  4. Além de que, aquilo que a típica dinâmica da Lei nestes tempos nos diz é que, pela recorrente necessidade que os reis godos tiveram de incrementar medidas restritivas aos judeus e à sua liberdade de culto é somente sinal de que essas medidas não eram reforças, na prática, com acção das autoridades.

    Ou seja, possivelmente a razão pela qual os judeus ibéricos prosperassem na Península, mais do que outro sítio qualquer da Europa Ocidental e apesar de toda essa legislação em contrário fosse simplesmente porque a lei não era aplicada (porque ignorada, quer pela incapacidade da Coroa para as fazer cumprir quer porque eram esquecidas).

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  5. A entrega de terras a recém convertidos compreende-se bem. Dos berberes serem cristãos, porém, não tinha notícia.
    Cumpts.

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  6. A feitura de leis de resposta a um caso atesta o caso, não prova a eficácia da lei sobre o caso, isso é verdade. Mas daqui não garanto que a lei era ineficaz em toda a medida.
    Cumpts.

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  7. Inspector Jaap24/11/12 13:09

    Concordo com o PCP (ele há ironias!) referindo-me à que está no verbete; suculenta, de facto!
    Cumpts

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  8. Muito interessante.

    Mas as coisas complicam-se mais ainda que entendermos que não houve "invasão" nenhuma, que ela faz parte da leitura catastrofista da História, muito española, feita de rupturas, embates, conquistas e... invasões. Os berberes estavam "cá" desde há muitos séculos, e ainda estão. Ainda estamos.

    Houve, de facto, uma deslocação de tropas berberes, em 711, que cruzaram o Estreito, em auxílio de quem as chamou. Mas não conquistaram nada de substancial. Foram, sim, um detonador de sublevação das gentes do Sul contra o poderio germano. O creme árabe e islâmico em cima do bolo é que não estava no programa. Teve coisas excelentes, teve coisas deploráveis.

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  9. Corrija-se:

    mais ainda SE entendermos (claro)

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  10. Ó diabo! Somos berberes?! Só se for naquela teoria da passagem de África à Europa pelo Estreito ainda no Paleolítico. Aí sim, estaríamos cá havia muitos séculos. Milénios. Mas neste caso em que ficamos com o menino do Lapedo?
    Entendo-o, porém.
    Muitos ou poucos (berberes, árabes, eslavos recém-islamizados, ou judeus nalguma cabala), o facto é que islamizaram as hespanhas. Fôrça, de certo, haviam de ter: militar, cultural. Mas nem precisariam de muita pois que a Hespanha era sôbre tudo um ermo.
    Cumpts. :)

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  11. Não, caro Bic, não "somos" berberes. Somos portugueses, e é um pau.

    Dizer-me, eu, "berbere" é um gesto polémico, para chatear os meus essencialistas contendores galegos que juram ser "celtas". E que, propagando uma Portugaliza, asseguram serem-no os portugueses também.

    O facto é que qualquer baixo-alentejano que chegue a Marrocos (o meu caso) dá de caras com tios, primos e mais gente chegada, de Tânger a Ouarzazate. Tem de haver um parentesco étnico. Ou, jogando pelo seguro, facial.

    Admito que já assim era há três, quatro mil anos. Somos, ali em baixo, gente moura. Como há gente eslava, gente celta, gente germânica.

    Mas tem razão, a Hespanha era um ermo. Ainda é. Se vir aquelas fotos do espaço com a iluminação pública da Península, verá uma orla iluminada, Madrid iluminado e uma imensidão no escuro.

    Abraços.

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