Torno com esta para deslindar o enigma...
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Numas imagens da construção das avenidas novas que achei na Torre do Tombo, de que dei notícia em 23 e 25 de Julho, vêem-se uns alvenéis a levantar o que me parecia um gailoeiro (um prédio de rendimento). Das referências conhecidas visíveis (cúpulas do Campo Pequeno) ou mais ou menos familiares (um palacete na Av. da República) conjecturei que a obra seria dalgum prédio de gaveto na Av. Cinco de Outubro com as avenidas Barbosa du Bocage, José Luciano (Elias Garcia) ou Visconde de Valmor. O palacete à vista, em se identificando, daria a chave do enigma; era um trabalho simples de testar as hipóteses.
Uma moradia que em tempos houve no n.º 50 da Av. da República era uma delas, mas não se assemelhava, pelo que procurei se podia ser o n.º 52, logo a seguir; lembrei-me duma bela fotografia tirada da saída do Metropolitano junta à Av. de Berna que abarca todo esse último quarteirão oriental da Av. da República abaixo do Campo Pequeno antes de o camartelo tragar aquilo tudo. — Nada que se assemelhasse; o n.º 52 nem o 54 ou qualquer dos seguintes provava ser a moradia enigmática. A Av. Barbosa du Bocage, cujo n.º 87 o leitor José também começou por sugerir estava descartada.
Entretanto fui passando a pente fino imagens da Av. da República no arquivo fotográfico municipal à procura do que aparecesse. E topei com o n.º 42 da dita avenida, já demolido: uma moradia com r/c, 1.º e 2.º, três corpos — dois menores, recuados, marcando as entradas principal e de serviço, e um corpo central, de frontão e sacadas de cantaria triplas (1.º e 2.º andares), ladeado de janelas de peitoril em ferro, singelas no lado da entrada e duplas no lado da entrada de serviço.
Era a tal moradia.
A hipótese de ser na antiga José Luciano (Elias Garcia) caiu. De resto o quarteirão oriental da Av. da República entre aquela e a Barbosa du Bocage era (ainda é) quase todo ocupado pelo n. 46, um prédio de rendimento do arquitecto Ventura Terra. Fico por saber o que houve no n.º 48, mas pouco importa aqui.
Av. da República, 42-42A, Lisboa, 1959.
Arnaldo Madureira, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Confirmada a Visconde de Valmor, parecia ser então o tal prédio dos alvenéis o n.º 45, no gaveto com a Cinco de Outubro, e com frente para esta serventia sob o n.º 84 (um cuja fachada tem uns bonitos azulejos ornamentando a entrada do café Bola Cheia. Adiantei isto na resposta ao leitor José e cingi a data das velhas fotografias da Torre do Tombo a 1909-10, baseado na carta 10L (de 1908) do «Levantamento da Planta de Lisboa» em que não está desenhado nenhum do gaioleiros da Visconde de Valmor bem visíveis diante da obra; por outro lado a moradia do n. 40 da Av. da República (ao lado da enigmática n.º 42 que me serviu para localizar esta obra) estava ainda por começar quando a fotografia foi tirada e só foi começada em 1911 (C.M.L., proc.º 20036). Eis os limites para a datação.
Contudo, porém, algo me fazia espécie: nas fotografias da Torre do Tombo temos os alvenéis levantando, virada ao Norte, uma parede de alvenaria grossa e sem janelas. Ora uma parede sem janelas só pode ser uma empena. E para ter uma empena voltada ao Norte na Av. Cinco de Outubro, o prédio em construção não podia ser um de gaveto Sudeste, pois esse, voltada ao Norte, há-de ter uma fachada. Outra coisa que fazia espécie era a peculiar cantaria das sacadas em meia-lua: ora o prédio da «Bola Cheia» tem sacadas rectangulares. Havia de ver o que há ou houve imediatamente antes do n.º 84, na Av. Cinco de Outubro. Ora o que há antes é o n.º 72. E o n.º 72 que houve antes é isto…
Av. Cinco de Outubro, 72, Lisboa, 1979.
Gonçalves, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Elementar :)
ResponderEliminarHá nestas casas, moradias, andares, etc., um pormenor curioso que me espanta. Ou talvez não. Há imensos "escritos" por todo o lado. Lembro-me disto sem surpresa, apesar de tudo, porque tenho uma vaga ideia pelo que via e ouvia. Havia pessoas com possibilidade de adquirir uma moradia e não obstante viviam em andares alugados. Aliás as rendas eram acessíveis em muitos casos. Havia algumas excepções. Aqueles que se mudavam para moradias, anteriormente vivendo em andares alugados, voltando anos depois a habitar outro andar alugado. Em qualquer dos casos - e eu conheci três destes - dois dos casais vivendo em moradias mas em virtude da idade avançada a terem que se mudar para andares evitando escadarias cansativas; outro casal, com a independização dos filhos e a família reduzida a dois elementos, a não necessitar de tanto espaço para viver.
ResponderEliminarNa verdade no regime anterior havia essa facilidade extraordinária de uma família mudar de casa e de bairro a cada meia dúzia d'anos ou por aí, se tal desejasse. Inúmeras pessoas da minha família e amigos o fizeram. Depois veio este regime e foi o inferno. Os andares para alugar desapareceram. As pessoas com posses medianas ou mesmo nulas, para terem a sua casa, sobretudo jovens em princípio de vida, tiveram que a comprar sabe Deus como!, 'oferecendo' fortunas aos bancos e às imobiliárias, bem como aos políticos, advogados e intermediários com aqueles concluiados. Passados alguns anos a maioria deles foi obrigada a devolvê-las à procedência. E os que não o quiseram fazer ficaram presos a uma dívida insuportável para a vida e, gostando ou não dela, confinados à mesma residência para sempre!
Afinal o que significou tanta liberalidade para Portugal? A pobreza de parte da população; o desemprego galopante para desespero de milhares de jovens adultos e de adultos ainda relativamente jovens. Os primeiros, ao não poderem constituir família por não terem casa onde viver, obrigando-se a voltar ou a nem sequer sair de casa dos pais ou a emigrar aos muitos milhares. Os últimos, desempregados e sem hipótese de sustentar família e filhos, optando pela mesma via às centenas de milhar.
Feitas as contas o que é que este regime trouxe de tão grandioso e, segundo os aldrabrões, tão ansiado por este pobre povo? Pouco ou nada. Liberdade?!? Mas qual liberdade?!? De imprensa? De expressão? De reunião? De habitação para todos os portugueses? Estas são mentiras monstruosas - um slogan cediço por demais conhecido - a que há que pôr cobro e denunciá-las dia após dia, hora após hora, indefinidamente, enquanto durar este inferno.
O que, sim, este regime felizmente trouxe de bom foi colocar-nos perante a mais aterradora realidade. A saber: um desemprego inaudito; uma emigração como jamais se viu desde as Descobertas; uma violência e criminalidade gigantescas, desconhecidas dos portugueses até então; uma corrupção desenfreada que começa nos mais altos cargos estatais, atingindo a classe política em todos os seus patamares, percorrendo a escala social de cima a baixo e indo desembocar no mais humilde funcionário do mais insignificante departamento público e também privado. Para rematar em beleza a podridão em que nos mergulhou, ele, regime, empurrou-nos literamente para uma CEE sem termos sido tidos nem achados e pior, novamente sem a anuência do povo e já na UE pespegou-nos de chofre com uma nova moeda sem qualquer valor nominal que só nos trouxe carestia de vida e por três vezes a bancarrota. Além de encher em milhões de milhões, descaradamente roubados aos portugueses, as contas off-shore dos aldrabões que instituíram este maldito regime.
Feitas as contas eis o que a democracia nos trouxe: uma mega-corrupção como jamais existiu em Portugal; uma rede de espionagem de Estado um milhão de vezes pior do que a 'execrável' PIDE; uma censura férrea encapotada, pretendendo não o ser; outra rede, agora de pedofilia, na qual os portugueses difìcilmente podiam acreditar até lhes ser mostrada a verdade em toda a sua extensão, vergando-se com estupor perante a cruel realida
Caro Bic, com atraso, agradeço-lhe a informação que mais abaixo me deixou.
ResponderEliminarO mistério está resolvido e a localização que avança a correcta, pois, para além da moradia que refere, é também indubitável ser o gaioleiro que se vê em primeiro plano na fotografia o nº 38 da Visconde Valmor. Ainda está lá hoje em muito mau estado de conservação, mas ainda está lá.
:) Obrigado!
ResponderEliminarA sacrossanta liberdade deu-nos a riqueza de ficarmos penhorados aos banqueiros por vida e meia. Mas os escritos estão a tornar; recomecei a vê-los por aí. Notei uns num andar na Estephania por cima da Tarantela e outros no Areeiro, na torre oriental no cimo da Av. Almirante Reis.
ResponderEliminarCumpts.
De nada. Apraz-me descobrir estes enigmas. Está lá o 38 sim senhor. Tal como diz. Provàvelmente...
ResponderEliminarSim, sim, tenho reparado e quantas mais casas houver, tanto melhor. Parece que finalmente se alterou essa maldita lei que só permitia a compra de casa!! Quanto a alugar, tricles-nicles. Parece que os 10 milhões de portuueses eam multi-milionários... Lei essa, que só serviu para encher em centenas de biliões as contas de banqueiros pançudos, de industriais da construção civil glutões e de políticos gananciosos, que tanta desgraça trouxeram a estes infelizes país e povo. Até neste particular, que não é de somenos, foram criminosos com todas as letras.
ResponderEliminarTenho sempre esperança na mudança para melhor. Vamos ver o que faz este governo no qual alguns milhões de portugueses depositaram tantas esperanças. Vamos ver.
Maria
1965 sai da tropa e logo de seguida dei duas vezes o salto.O terceiro consegui sair legalmente para a Alemanha,fui um daqueles que teve sorte,viagei um pouco por varios continentes e vi como a maioria dos Lusitanos viviam.Nunca tinha visto como a real verdade tinha sido escrita.Chapeau, parabens, Junius quando disse que do pão e jogos deu uma ideia a Constantino de legalisar a religião para podêr continuar a comer os camêlos;ainda 2014 anos depois eles não aprenderam.A nossa progenitura ela graças a pais que viam longe,soubèram aproveitar 46 anos depois da sua nasçensa fiz a vasectomia,e não perdi a verilidade e ele é engenheiro o que não seria possivel em Portugal.Bravo
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