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quarta-feira, 13 de junho de 2012

Scenas contemporaneas em scenario d' aldêa

 Camillo castello Branco, «Scenas Contemporaneas», 2.ª ed., Cruz Coutinho, Porto, 1862, pp. 47-48.

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« Eram 8 horas. Na aldêa é esta a hora dos amantes. Manoel Pires enfiou as suas meias de lã até á cintura, calçou os sapatos confidentes de mil emprezas semelhantes, dobrou galhardamente o seu pau de carvalho ferrado de amarello, e partiu.
   Ás 8 e um quarto, estava Manoel Pires no quinteiro da Mariquinhas, esperando-a, com a anciedade propria da sua organisação nervosa. Maus fados quizeram que n'aquella noite, e a taes horas, andasse fóra de casa o tio João do Eiró. A rapariga entendeu que devia esconder em casa o seu boticario, em quanto o pai não recolhesse. Quiz primeiro sumil-o na córte das vaccas, mas lembrou-se que o pai, antes de deitar-se, costumava hir afagar a sua vacca castanha, pela qual na feira dos 8 rejeitára sete moedas e um quarto! Metteu-o, depois, na loja da egua, mas a bestinha, egoista e ciumosa da manjadoura, não comprehendeu que o snr. Manoel Pires era um racional, e jogou-lhe uma parelha de couces, que por um tris o não remetteu á galeria posthuma dos pharmaceuticos illustres. Introduziu-o no curral dos carneiros, mas a entrada do infeliz amante foi recebida com uma escaramuça de marradas, como se um lobo cerval os surprehendesse. Ultimamente, Mariquinhas, melhor avisada, levou o seu paciente amante para a cozinha, levantou um alçapão, fêl-o descer uma escada, e, quando descia mansamente o fatal alçapão, entrava o pai.
  ― Que fazes tu ahi, rapariga? ― bradou elle.»


Camillo Castello Branco, «Aventuras d' um boticario d' aldêa», Scenas Contemporaneas, 2.ª ed., Cruz Coutinho ― Editor, Porto, 1862, pp. 47, 48.

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