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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Av. da República, 37; notas soltas (obra 25.717)

Av. Miguel Bombarda, Lisboa (A.J. Fernandes, 1961)
Av. da República, 37 tomado da Av. Miguel Bombarda, Lisboa, 1961.
Augusto de Jesus Fernandes, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..



 Dos índices da obra nº 25.717 no arquivo da Câmara.
 O edifício pode ter sido iniciado em 1917 ou perto; há notícia nesse ano da construção de alicerces e dum certo António Castanheira de Moura ter pedida licença para fazer um barracão. Em 1917 uma «empreza panificadora» requere construção duma padaria. Em 1919 uma Soc. de Padarias pede para ampliar a construção. 
 A notícia de vistoria e a atribução do nº de polícia indiciam a conclusão do prédio; foi dado como pronto a habitar em 1924... Um dono parece ter sido um sr. Alberto Graça (já não a «empreza panificadora», portanto) até, talvez, ao fim dos anos 40. Consta em processos de obra de ampliação (1920), alterações (1922-23), indicação de nº de polícia e vistoria (1924), limpeza e reparações (1929 e 36), limpeza geral e pinturas (1942), reparação (1944) e colocação de andaimes e beneficiação geral (1945).
 Uma Soc. Americana, Lda. é referida como requerente de «junção de elementos» (lojas?), nos anos de 39 e 44 (23906/DSC/PG/1939, 31836/DAG/PG/1944).
 O café «A Cubana», onde os anais do Surrealismo em Portugal dizem que Alexandre O'Neill conheceu Mário Cesariny, era neste prédio. O encontro foi em 1944 (cf. Mª de Fátima A. C. M. Saraiva, O Surrealismo em Portugal e a obra de Mário Cesariny de Vasconcelos, Porto, 1986, p. 20). Seria a Soc. Americana a designação comercial d' «A Cubana»?
 Julgo que o dr. Francisco José Calheiros Lopes (de Benavente?) adquiriu depois disto o prédio. Há processos que o referem nos anos de 63 (beneficiação geral), 64 (pedido de instalação de elevador e obras de reparação), 65 (limpeza geral e obras de conservação), 66 e 67 (mais obras de conservação).
 O Banco Lisboa & Açores mutilou a fachada no fim dos anos 50, ou nos anos 60 (61?). — Alvores duma prática assassina que descaracteriza inúmeros edifícios doutras eras pela a cidade inteira e ninguém liga...
 Depois de tanta obra, não descurando um pedido de instalação dum elevador, a Câmara manda em 1969 (um ano após o passamento do dr. Francisco José Calheiros Lopes) o fotógrafo Artur Goulart documentar o prédio e arquiva a fotografia com um título sugestivo: «Prédio para demolir».
 O prédio tem resistido. Há intimações e processos por obras clandestinas em 1962, 64, 65, 77, 78, 80 e 86. Daí para cá...
 A florista (resiste ainda lá hoje) pediu parecer sobre o estabelecimento em 1981 (19894/DAG/PG/1981). Um eng.º Alberto Briosa e Gala figura em procº de obra (18830/DAG/PG/1967) como requerente de baixa de responsabilidade da obra. Um certo João Pedro Homem de Melo (?) figura em processo de obra; idem. — Só «lambendo» papel no arquivo se saberá mais. — Em 2004/05, uma Crunch (dentada?!) — sociedade de gestão de património imobiliário requer vistoria de propriedade horizontal.
 O prédio está devoluto do r/c para cima e tem uns ricos logradouros...

5 comentários:

  1. Attenti al Gatti6/10/11 00:44

    Crónica de uma morte anuncada: é mais um para ir ao chão. Admira-me como ainda sobrevive. O estilo arquitectónico deve ter agradado porque foi replicado em vários outros prédios da mesma avenida e também em outros locais, como já aquí foi dada notícia.
    Curiosa é a referência a Castanheira de Moura,provávelmente um dos maiores empresários lisboetas do século passado. Empresário ligado ao ramo da panificação, instituíu a Sociedade de Padarias, que controlava uma grande parte desses estabelecimentos em Lisboa. Entre outro património,teve uma quinta com cinema ao ar livre e local de merendas, perto do Largo do Lumiar. Creio que ainda lá estão as ruínas.
    Domingo bem passado para muita gentinha que vivia em Lisboa nos meados do século XX, era apanharem o eléctrico até ao Lumiar, carregando (elas!)cestos com tachos e panelas, talheres e "casqueiro", mais o "palhinhas" (eles!), paparem um almoço bem regado à sombra do arvoredo e depois baterem uma matiné, alí ao lado, também ao ar livre. Coisa impossível de fazer hoje. Não pelo pic-nic em sí, mas porque já não há eléctrico, Já ninguém leva tachos e panelas e muito menos o "palhinhas". Em contrapartida, não faltariam toques de telemóvel e música batucada em altos berros, pipocas de cheiro rançoso no cinema e brutinhos a beberem refrigerante como quem aspira a salvação
    A.v.o.

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  2. Caro amigo cada vez mais o seu recanto é uma delícia e como de vez enquando ando a passear pelas avenidas, me poderia informar o que existe agora no lugar deste prédio e da cerca anexa e dexar a sugestão de passar uma foto daquilo que é o maior buraco de Lisboa que é o local onde era a feira popular

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  3. É interessante o que conta de Castanheira de Moura. Desconhecia.
    Cumpts.

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  4. Note que o prédio a que se refere o texto é o que se vê na imagem. O lote com tapumes tem lá hoje um «stand» de automóveis japoneses, creio.
    O maior buraco de Lisboa é na Câmara. Se no cofre, se na cabeça do presidente, não sei agora dizer.
    Cumpts.

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  5. eu não me referia ao crónico buraco das finanças municipais, me refiro àquela fossa a céu aberta deixada aberta por Sacana Lopes e cujo problema nunca teve solução qual fosse as obras de Santa Engrácia

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