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domingo, 31 de outubro de 2010

Ruas de Lisboa

Gomes-de-Brito,-Ruas-de-Lis.jpg


Água forte: Martins Barata, Rua de S. Miguel (Alfama).

 É curioso que apesar da capa, nesta obra póstuma de Gomes de Brito não existe verbete próprio da dita Rua de São Miguel, embora lhe haja referências esporádicas ao longo dos três volumes. Uma delas a propósito do Beco do Mexias:  — « Não duvido que assim esteja nos dísticos, mas devem emendar-se, tirando-se-lhe o s final; Mexia é apelido de família antiga e desta forma se encontra no Itinerário lisbonense, de 1818: [o beco é] o primeiro à esquerda na rua de S. Miguel de Alfama, vindo do nascente e termina no chafariz de Dentro.» — Mexia e não Mexias, portanto, porque é nome de família antiga...


 Ainda por isto de mexias e da coisa de mexer [cá nos bolsos] e da sua muita antiguidade, logo na introdução (vol. I, pp. VII e VIII) da obra, António Baião dá-nos a descrição dum códice do arquivo da Câmara muito estudado por Gomes de Brito para dar corpo às Ruas de Lisboa:


« Em 1563, reunidas as côrtes n'esta cidade, prometteram os povos a el-rei, para satisfação de suas dividas, a quantia de cem mil cruzados (40:000$000 reis).
  Tratou a corôa de promover o desempenho da promessa, expedindo ás camaras do reino o alvará do lançamento, acompanhado do regimento para cobrança e mais diplomas inherentes a este serviço.
  Em Lisboa, os vereadores e procuradores da cidade e dos misteres d'ella, reunidos em sessão, elegeram os lançadores, nomearam os sacadores, attribuiram ao thesoureiro da cidade, André Luiz o encargo de arrecadar o cobrado, e commetteram, emfim, a Bastião de Lucena, futuro «procurador da cidade», em companhia do seu collega Alvaro de Moraes, que tambem estava a servir pela primeira vez, o trabalho de arrolamento, ou, como hoje [1897] diriamos, do recenseamento dos contribuintes [posteriormente, creio, muitos dirão sabiamente elencagem].
  Fez-se este arrolamento conforme o alvará mandava.
  Completo, bem encadernado e bem conservado, atravessou os seculos e suas vicissitudes, guardado no Archivo da Camara [...]»
 


Mais adiante (vol. II, p. 67):


« Nesta derrama não figura senão o povo. O clero e a nobresa tiveram processo áparte. Do povo, só não contribuia quem tinha praça de bombardeiro, quem tinha emprego na casa de Sua Alteza, quem era familiar do Santo Officio.
  Nos officios, os unicos mechanicos privilegiados eram os moedeiros. Privilegio do Estado, que aproveitava a funccionarios seus.»


 Um códice com toda a actualidade. É uma pena que não contenha uma certa notável fotografia dos velhos e novos Andrés Luizes, Bastiões Lucenas, e Álvaros de Moraes...


 




Ref.ª: J.J. Gomes de Brito, António Baião (pref.), Ruas de Lisboa: Notas para a história das vias públicas lisbonenses (3 vols.), Sá da Costa, Lisboa, 1935.

2 comentários:

  1. Carlos Caria31/10/10 18:45

    A placa do Beco consta como Mexias, conforme pude verificar na minha base de dados da foto efectuada vai para um mês.

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  2. Não duvido. Mas devia emendar-se, tirando-se-lhe o 's' final, porque Mexia é apelido de pessoa importante e desta forma se encontra na EDP.
    Cumpts.

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