Em menino, na véspera de ir para a primeira classe, andava angustiado com a escola. Falaram-me de ter que ir para a escola e ter de obedecer a quem lá mandava; professores, contínuas; e sobretudo devia estar quietinho e calado na sala de aula. Lembro-me de uns dias antes andar a treinar o 'a' num caderninho como que para espantar o medo. Lembro-me de num desses dias a D.ª Adelina, uma senhora rija, já perto dos 80, que visitava amiúde a minha mãe para tomar chá e conversar, me ensinar o 'e'; para o caderno não ser só 'aa'. Lembro-me de achar o 'e' feio; tão feio que nem devia ser uma letra a sério; devia ser invenção da D.ª Adelina.
Pois bem. No primeiro dia de escola a angústia deu em pânico. Soube que iria para a sala da D.ª Idalina. O Vijó, o meu amigo de brincar ao Bonanza, não era dessa sala. Era da da D.ª Maria do Rosário. O pânico deu num choro copioso, tanto que a minha mãe nesse dia já me não obrigou.
No dia seguinte, porém, levou-me com ela às compras de manhã (as aulas eram de tarde, da uma e meia às cinco e meia). Comprou-me uma tablete - eu gostava de chocolates. E lá me ia dizendo que a sala da D.ª Idalina também era boa; havia lá o Zezinho da D.ª Joana. Eu era amigo do Zezinho, não era?...
Era, mas era pouco. O pânico dava já em birra. Por conseguinte a minha mãe lá tratou duma troca e, por fim, no portão da escola só me disse: - "Tu agora vais para a sala do Vijó. Vais aqui com a D.ª Alda (a contínua). Mas ouve bem: se no fim ela me diz que te portaste mal, eu lá em casa logo te digo!..."
Sentença lida, lá fui. Quando se abriu a porta da sala o Vijó levantou-se logo acenado-me. Foi imediatamente repreendido pela professora: - "David Jorge, sente-se!" - E a mim mandou ela friamente sentar na carteira da Ana Maria que tinha um lugar livre. Sem mais, tornou à lição: estava a ensinar a letra 'i'...
O leite com chocolate foi na hora do recreio. Os meninos, íamos na forma à cantina onde a D.ª Alda e as contínuas nos davam um pão com mateiga e uma garrafa de leite com chocolate. Eu não gostava de leite, nem sendo com chocolate. Bebi-o todo, a custo, enjoado, e sem queixas. À hora do recreio tinha noção certa de que o crédito para caprichos se havia esgotado.
(Imagem em OLX Leilões.)
domingo, 17 de outubro de 2010
Leite com chocolate
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Belas recordações.
ResponderEliminarGrande abraço.
Recordações de menino mimado.
ResponderEliminarCumpts. :)
Também ensaiei essa do choro. Foi tempo perdido. E nem deu direito a chocolate nem nada. Com que então na carteira da Ana Maria, hem?! Olha que sorte. A mim tocou-me o Conceição, um puto assim meio campónio. Naquele tempo o respeitinho era muito bonito e não havia cá essa imoralidade das escolas mistas, pois então! E também não havia essa mama do lanchinho à borla com leitinho com chocolate e tudo. Quem não levasse a bucha de casa, bem fazia cruzes na boca.
ResponderEliminarA.v.o.
Todavia não se engane. Estas coisas que conto são ainda dantes do dealbar de Abril. O progresso, parece que não, mas chega a todo o lado.
ResponderEliminarCumpts. :)
Bic, também me lembro da minha ida para a escola com a minha irmã. Ela foi para a infantil dos quatro anos e eu para a dos cinco. Ela chorou copiosamente durante três dias e eu, assustada, mas contida, fui chamada a consolá-la na classe dos quatro anos durante esses três dias. No fim, ela arrebatou o Prix d’Excellence e eu (nunca me conformarei!) o mero Prix de Sagesse. Mas isto tudo para dizer que também compreendi, desde o primeiro minuto, que aquele não era o lugar para dar largas aos meus caprichos: o crédito era limitado. E a minha irmã também o compreendeu (deduzo, aliás, que muito melhor do que eu) ao terceiro dia. :-)
ResponderEliminarPois eu foi à 3ª letra do a-e-i-... E premonitoriamente em relação ao leite com chocolate.
ResponderEliminarCumpts. :)
Pois. Parece que à Escola 28, na Picheleira, demorou mais. Talvez por ficar fora de mão, em território um tanto inóspito...
ResponderEliminarA.v.o.
Olhe que não! Olhe que não! Essa escola tornou-se mista em 73/74. E dava lanchinho.
ResponderEliminarCumpts.
Caro Bic,
ResponderEliminarExcelente texto. Não sei se é memória ou ficção.No entanto, há um promenor que me inclina para que a sua memória o possa ter atriçoado. Se o episódio foi antes do 25 de Abril de 1974 e se a escola primária era pública seria impossível sentar-se na sala de aula na carteira da Ana Maria, porque naqueles tempos as turmas não eram mistas nem tão pouco as Escolas. Havia Escolas para o sexo masculino e feminino. Creio que o ensino misto teve lugar algures no ano lectivo 74/75 ou 75/76.
Cumprimentos
Posso assegurar-lhe que foi em 73/74. As escolas 28 e 40 tornaram-se mistas nesse ano, ainda que fisicamente separadas. No ano lectivo seguinte demoliram-se umas paredes e ligaram-se as duas.
ResponderEliminarGrato pelo apreço.
Não me recordo da minha entrada na escola, sei que se chamava "O Lar dos Pequeninos" e ficava ali ao Campo Grande junto à alameda universitária, onde havia uma lojeca que alugava bicicletas. Mais tarde passou para a Estrada de Benfica, para uma moradia, hoje convertida em prédio de habitação. Desconheço se o colégio ainda existe. Não era míudo mimado nem dado a choraminguices (hoje sou mais), pelo que a ida para a escola primária passou sem problemas. Lembro-me bem da professora Guilhermina que me brindou com um castigo de virado para a parede e umas quantas reguadas de madeira com escala amarela, provávelmente por comportamento desviante, como agora se diz. Ainda tenho uma fotografia da turma da 4ª classe com a professora Guilhermina, e de vez em quando revejo-a para que ninguém caia no esquecimento.
ResponderEliminarAs refeições iam de casa num cesto de verga apinhado de uma marmita dupla de alumínio e normalmente uma banana para rematar.
Naquela época não havia essas modernices de se comer a meio da manhã (no intervalo era só pontapé na chincha) e à tarde o lanche já era em casa.
Apetecia-me continuar, mas não posso.
Cumprimentos
Efeitos da "Primavera Marcelista". Juntaram as florzinhas todas...
ResponderEliminarA.v.o.
Mais Outono marcelista, que as aulas abriam a 7 de Outubro.
ResponderEliminarE como lhe disse, o progresso chega aos lugares mais insuspeitos.
Cumpts. :)
Gostei do seu texto, que não cai na pieguice mas é saudoso o que deve ser.
ResponderEliminarAos comentadores espantados com a co-educação: estive no jardim-escola num colégio de freiras e tive colegas de carteiras meninas. A escola primária era de rapazes, mas o liceu, ainda nos anos 60, era misto, com turmas mistas.
Agradeço-lhe o apreço e a achega. Cumpts.
ResponderEliminarJá que fala nisso, também me recordo que com o avanço na escola primária o recreio se tornou mais importante e o lanchinho, mariquice da primeira classe. São os tempos.
ResponderEliminarCumpts.
Em 1952,no então chamado ensino secundário,a minha aula de física/química era frequentada, na mesma sala,por rapazes e raparigas. Fernando C.
ResponderEliminarFísica/química sempre são ciências muito evoluídas...
ResponderEliminarAbraço! :)
Caro Bic,
ResponderEliminarNão quero ser teimoso mas há que destinguir o ensino público oficial do ensino particular e cooperativo. No caso do ensino público oficial, antes do 25 de Abril de 1974, tenho muitas dúvidas que houvessem turmas mistas (a lei impunha a segregação). Ainda que pudesse haver alguma excepção. No caso do ensino particular e cooperativo regiam-se por normas diferentes e aí cada caso é um caso. Não confundir com as escolas públicas que estavam divididas em sectores (no caso das primárias). Por exemplo, no Vale escuro a Escola de cima era para rapazes e a de baixo para raparigas. Mas as turmas não eram mistas. No Preparatório, Liceus e Escolas Industriais a segregação era total. As Escolas eram dedicadas a sexos diferente. A título de exemplo, Liceu Camões ou o Liceu Gil Vicente não eram frequentado por raparigas.
Esta divisão impunha-se por motivos ideológicos mas aos pouco o aumento da população escolar obrigaria a repensar a questão face à falta de instalações. Claro que após o 25A a questão foi recolocada em outros moldes e ficou consagrado o ensino misto na escola pública.
PS. Estou à procura da Lei que estabelece o princípio da segregação por sexos na escola pública oficial.
Que quer que lhe diga? É intrigante, não é?
ResponderEliminarCumpts. :)
Decreto-Lei n.o 482, de 28/11/1972. A coeducação fora instituída pela primeira vez em Portugal, durante a 1.a República, em 1919. Logo no início da ditadura militar foram decretadas as primeiras medidas no sentido da cessação do ensino coeducativo, tendo-se reinstituído o ensino separado, ao longo do Estado Novo,a todos os tipos e níveis de ensino.
ResponderEliminarNo Parecer, emitido pela Câmara Corporativa ao Projecto de Decreto-Lei que restabelecia a coeducação, afirmava-se que “A coeducação não se improvisa. (…)
A complexidade da função coeducadora excede a que
lhe corresponde em regime de separação de sexos,
pelo que o corpo directivo e docente deve possuir comprovada formação psicopedagógica”. Manifestava-
-se, assim, a consciência de que a coeducação era
uma modalidade complexa para a implementação da
qual era necessária formação adequada. O próprio
texto do Decreto-Lei que instituiu a coeducação alertava para as diferenças entre a coeducação e o ensino misto, sublinhando que aquela não se concretizava pela mera coexistência, nas escolas e turmas, dos dois sexos. Uma verdadeira coeducação exigia, mesmo, uma nova concepção das instalações escolares.
O Ministério da Educação Nacional publicou duas brochuras sobre as implicações específicas da coeducação a nível pedagógico. Nelas se procurava sensibilizar o corpo docente para o facto do regime coeducativo implicar objectivos bem definidos e processos de ensino-aprendizagem adequados: “Não se confunda a presença simultânea dos dois sexos com coeducação. Aquela é um simples facto; esta uma modalidade bem definida, nas suas intenções e nos modos”
Concluindo. É plausível que as escolas públicas começassem a adoptar o ensino misto a partir do ano lectivo 73/74, pelo menos as mais avançadas (embora não tenha visto o DL e se este impunha uma calendarização). Este processo foi gradual e variaável.É plausível, também, que a sua memória esteja total ou parcialmente certa.
Cumps :)
DL n.o 482, de 28/11/1972.
ResponderEliminar“É de salientar que não se trata apenas de
constituir turmas mistas, mas de realizar uma
verdadeira coeducação. (…) A turma mista,
só por si, limita-se a uma disposição material,
enquanto a coeducação é um ambiente
(…). Aliás, as futuras construções escolares
deverão ter em conta este princípio.”
E pronto! Salva-se-me a memória.
ResponderEliminarGrato pela pesquisa.
Cumpts.