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sábado, 29 de agosto de 2009

Do decoro

  No adro da igreja do Carmo dois rapazolas com um patinete (o bárbaro consagrado é skate) macaqueavam para lá e para cá. — Pás! Pás! — faziam naquela macaquice mesmo nas barbas da Guarda do quartel do Carmo.
 Abeirei-me da sentinela (vamos lá ver o que isto dá, pensei com os meus botões) e perguntei-lhe serenamente porque permitia a Guarda aquilo ali.
 — Não sei... — balbuciou — Não tenho ordens... Mas o senhor fale com o cabo da guarda — e tocou uma campainha.
 Veio o cabo e procurei—lhe então à mesma se à Guarda lhe não incomodava aquela macaquice ali ao pé.
  — Ali onde estão é o museu. Desde que não venham dali para cá — e apontou o pau da bandeira — não fazemos nada.
 — Mas o museu é monumento nacional... — e fitei-o.
 Hesitou, admirado, e repetiu a arenga: — Desde que não venham dali para cá... — Ao que depois aduziu: — Na verdade até agora ninguém se queixou. Mas se o senhor quiser pôr o caso ao comando... — e virou-se fazendo face ao quartel sem contudo me voltar as costas.
 — Não é caso para isso. Muito obrigado — despedime.
 Mais tarde calhei passar a S. Bento e pus-me a questão se ali a Guarda fará mais pelo decoro ou se será como no Carmo, meramente decorativa.


Convento do Carmo, Lisboa (C.A. Cunha, s.d.)


Convento do Carmo, Lisboa, [s.d.].
Fotógrafo não identificado [Carlos Alexandre da Cunha]. Arquivo Fotográfico da C. M.L.

(Texto revisto: 0h56. Imagem e legenda repostas: 12/VIII/18 às 18h00.)

6 comentários:

  1. Eu sou da teoria que primeiro as pessoas e depois as coisas (os monumentos incluídos aqui). Se os "skaters" não estavam a estragar património (público ou privado), se não estavam a interromper a passagem, nem a incomodar ninguém (o barulho do "skate" não conta, porque se contasse... muita coisa tinha que ser banida em Lisboa), não vejo o problema de andarem aos saltos em frente ao Convento do Carmo. Isso parece-me quase como nas terrinhas que se gosta de falar baixo em frente ao cemitério. Eles estão mortos, já não se incomodam. No museu é o mesmo... a exposição das coisas estáticas está lá dentro. O mundo, e os "skaters", gira cá fora.

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  2. Nesta contra-cultura de que se faz cultura imperativa tenho eu próprio dificuldade em delimitar o decoro e a minha propensa tacanhez provinciana (touché). Assim delimitei-a eu, no caso, algures entre o Carmo e S. Bento onde, aposto, não haveria lugar a argumentos 'os skaters não fazem mal nenhum' (talvez o B.E., va lá...). Nesta vez (sem exemplo) alinho com S. Bento.
    Na verdade isto no Carmo resolvia-se sem teorias sócio-culturais de maior: a guarda devia enxotar dali os pestinhas simplesmente porque estavam a incomodar a passagem aos visitantes do museu do Carmo. Mas note que isto não é implicação nenhuma particular, porque se fosse, eu diria antes que para concessões territoriais à contra-cultura já basta a Praça da Figueira aos skaters e a Av. da Liberdade à garridice exibicionista de pulsões pouco contidas.
    Cumpts. :)

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  3. Se estavam a interromper a passagem é outra coisa. Mas ao ler a ideia com que fiquei foi só facto de estarem ali. Afinal enganei-me e concordo consigo. Mas se incomodavam na passagem para o museu, devia falar com os responsáveis do museu, não com a guarda. A César o que é de César. Se os "pestinhas" estivessem a fazer algo de ilegal, eu até compreendia que a guarda fosse chamada. Mas o que eles estavam a fazer não era ilegal, simplesmente "não era bonito". Mas é só a opinião de uma provinciana que não acode às ideias bloquistas.

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  4. Não interrompiam a passagem. Incomodavam-na (interrompiam-na intermitentemente, se se quiser). E estranhei a guarda ser compassiva com aquilo ali tão perto. Claro que a guarda agir pelo decoro dá pano para mangas. A falta de decoro quase nunca é ilegal embora só de si possa incomodar...
    Cumpts. :)

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  5. É o " isto está assim ": sem rei nem roque.

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  6. E no entanto querem-me um chip no automóvel...
    Cumpts.

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