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sábado, 11 de abril de 2009

A.E.C.

Autocarro nº 3, Santo Amaro (anos 40)


 Uma das coisas que me intrigava em miúdo era a marca dos autocarros. Via-lhes uma pequenina chapa triangular nos radiadores que dizia A.E.C., mas naquele tempo ninguém lá na rua tinha ouvido falar de nenhuma marca A.E.C.; muito por isso duvidávamos que A.E.C. fosse a marca dos autocarros.
 O Rui Brandão é que duvidava menos... 


« Conhecem-se as matrículas atribuídas pela D.G.V. e, dadas as características similares a todos os veículos então importados, justifica-se patentear aos leitores a descrição técnica destes autocarros de cor verde que, no ano de 1940, os lisboetas viram pela primeira vez circular nas suas ruas. Esta descrição, conforme o respectivo livrete de um destes veículos, designava a marca do construtor A.E.C. / The Associated Equipment Co., fábrica com sede em Southall Middlessex, Inglaterra. O modelo Regente havia sido fabricado em 1939. No seu livrete figura o n.º do quadro, o n.º do motor, a potência do seu motor Diesel (31 cavalos), bem como o n.º de 6 cilindros, de 7,7 litros de cilindrada, com designação da respectiva tara em vazio (6 820 Kilos), o peso do quadro (4 164 Kilos) o n.º de lugares (28), as dimensões dos pneumáticos, o tipo de transmissão. A sua caixa de velocidades era conhecida pela firma Weymann ou do tipo Wilson. As suas dimensões atingiam os 7,975 metros de comprimento por 2,283 metros de largura e 2,900 metros de altura. Todos estes carros estavam providos com travões manuais e de vácuo. Calçava pneumáticos de 900 x 20 de dimensão, o sistema de iluminação e a data de entrada em Portugal: 12 de Abril de 1940. Refere-se que a este veículo da pré-história dos “verdes”, que por dezenas de anos circularia nas artérias da capital, foi concedida a matrícula GA-11-09.
 […]
 Ainda por altura dos preparativos para o iniciar do novo serviço, com data de 11 de Abril, existe nos arquivos da Carris um curioso requerimento da C.C.F.L., dirigido ao Eng.º Director dos Serviços de Viação de Lisboa. Encontra-se assinado pelo Director Baptista Coelho:
  A Companhia Carris de Ferro de Lisboa, Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada, com séde em Lisboa, e escritórios na Rua Primeiro de Maio N.ºs 101 e 103, vem solicitar a V.Exa. se  digne autorizar que o Snr. R. J. WILKINSON, possuidor da carta de condução de autos-ligeiros N.º 40901, possa conduzir o auto-carro que esta Companhia  recentemente adquiriru e que se encontra na Alfandega de Lisboa, visto não haver ao seu serviço, outra pessoa com practica para conduzir o dito auto-carro, que é equipado com dispositivos mecânicos diferentes de todos os outros carros pesados existentes no paiz. Foi já solicitada por esta Companhia autorização á P.V.D.E. (Secção Internacional), para vinda de um perito inglês para ensinar os motoristas que, de futuro, irão trabalhar com os auto-carros. Esta Companhia torna-se responsável pelos desastres ou acidentes causados pelo acima mencionado auto-carro quando conduzido pelo Snr. Wilkinson”.»


História da Companhia de Carris de Ferro de Lisboa em Portugal (1901-1946), Lisboa, C.C.F.L. e A.P.H., 2006, pp.79 e ss.





Fotografia: Autocarro n.º 3 e grupo de funcionários na estação de Santo Amaro. Década de 40.

10 comentários:

  1. Fernando de Oliveira11/4/09 10:11

    Este texto trouxe-me boas recordações. O meu pai era empregado da Carris nesse tempo, mas julgo que só mais tarde fez o exame da carta e começou a guiar auto carros. Veio a ser instrutor e fiscal. Lembro-me de chegar a casa cansado de, como ele dizia, "andar agarrado à roda", e quando quase tinha que se por de pé para virar "a roda"! Deu toda a sua vida nesta companhia.
    Foi bom recordar.
    Fernando

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  2. Tempos sem direcção assitida. Grato pela memória. Cumpts.

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  3. O Sr. Bic reparava nas marcas dos autocarros e eu nas marcas dos produtos, anunciadas pelos eléctricos…
    Na Avenida - onde vivi a maior parte da minha vida - passavam muitos, e eu identificava-os pelas marcas no “tecto” (como a bela pasta medicinal Couto). Usava até um caderninho para apontar a que horas passavam. E depois a que horas voltavam…
    Outros tempos, outra inocência!... :-)

    Abraço

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  4. Obrigado! Boa semana a seguir à Páscoa!

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  5. Inocência, sim. Inclusive na publicidade.
    Cumpts.

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  6. Nessa época, além de autocarros AEC houve tambem autocarros Daimler. Ainda hoje há alguns vestigios de autocarros AEC carroçados na UTIC pelas zonas rurais do centro e norte do país.

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  7. Sim. Tenho visto inclusive Volvo.
    Cumpts.

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  8. Attenti al Gatti15/4/09 23:57

    O título da foto podía ser "requiescat in pace" pois tudo o que está nela já faleceu. As pessoas, o edifício e o autocarro. O Museu da Carris não tem nenhum exemplar destes. O último foi vendido a uma empresa de nome Roplasto, para transporte do seu pessoal, nos finais dos anos 60 do século passado e de onde, lastimavelmente, transitou para o sucateiro.
    A.v.o.

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